A inovação é fundamental para uma fileira que exportou 2347 milhões de euros no ano passado. Mas tudo começa bem a montante do fabrico dos sapatos, que são, desde tempos imemoriais, o que são: biqueira para a frente, salto atrás, brinca Paulo Gonçalves, porta-voz da Associação Portuguesa da Indústria do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Sucedâneos (APICCAPS). É nos materiais que a diferenciação se vem fazendo, sobretudo com a integração crescente de desperdícios no processo de fabrico. De borras de café a pneus velhos, passando por novos materiais feitos com fibras de milho, de ananás ou até de algas, já há de tudo. E não falta muito para que até as tecnologias de inteligência artificial sejam indispensáveis.
A Bolflex, por exemplo, empresa de solas e componentes de Felgueiras, desenvolveu uma aplicação que permite aos clientes experimentar e costumizar as solas em ambiente virtual, o que implica uma imensa poupança de matérias-primas e redução de desperdícios associados. "Evita-se que o cliente peça amostras de diferentes cores só para ver quais assentam melhor em determinado sapato", explica Fábio Ferreira. "Agora o cliente pode simulá-las em ambiente virtual e só depois avança com o pedido de amostras mais seletivo", garante o responsável pela criação da Sole Creator by Bolflex.
Com a sustentabilidade no centro das preocupações da empresa de Felgueiras, que criou e patenteou o processo de desvulcanização da borracha, permitindo aproveitar para o fabrico das suas solas tudo o que sejam resíduos não metálicos - designadamente solas e pneus velhos, EVA, etc., que voltam a renascer em borracha reciclada -, a Bolflex está já a pensar como poderá vir a integrar tecnologia nas suas solas, de modo que possam fazer a medição dos parâmetros físicos, designadamente cardíacos, do seu utilizador. Ou do conforto e da ergonomia do próprio produto.
"A aplicação da inteligência artificial no sapato é o futuro", assume Pedro Saraiva, diretor de vendas da Bolflex, que sublinha que tudo isto possa ser realidade em cinco anos.
A aposta na sustentabilidade é também central no negócio da Atlanta, que tem em curso um investimento de 2,5 milhões de euros na expansão das suas instalações e na compra de novos equipamentos energeticamente eficientes, que lhe permitirão desenvolver novos produtos de alto valor acrescentado. As solas que faz já incorporam, em média, 60% de resíduos, mas o objetivo é aumentar este número de modo a promover a economia circular na produção. E metade da frota é já de carros elétricos, um investimento que pretende alargar às restantes nove viaturas.
Com 100 trabalhadores e uma produção diária de 20 a 25 mil pares de solas, a empresa com sede na Lixa exporta tudo o que faz, direta ou indiretamente. Inglaterra Espanha, Itália, França e Alemanha são os seus principais mercados, tendo a Atlanta crescido em 2022 para os 11 milhões de euros. "Foi indiscutivelmente o melhor ano de sempre", garante Paulo Ribeiro. Este ano, o responsável quer pelo menos manter as vendas nesse valor. E tem um objetivo novo: atingir a neutralidade carbónica em 2025.
A ambição é partilhada pela Procalçado, com o mesmo horizonte temporal: a empresa de solas e componentes que detém as marcas de calçado injetado Wock (segmento profissional) e Lemon Jelly (moda) está a investir para ser carbon free. Numa empresa que opera no segmento dos injetados de borracha, a sustentabilidade foi sempre preocupação, com a Procalçado a dar vida aos primeiros investimentos em painéis solares logo em 2010 e incorporação crescente dos desperdícios que gera no processo produtivo. Agora, o grupo, que em 2022 faturou 38 milhões de euros nas suas várias áreas de negócio, quer "avançar ainda mais" no processo de descarbonização. "Estamos praticamente certos de que atingiremos a neutralidade carbónica em 2025, através de investimentos energéticos, mudanças de equipamentos e remoção do gás natural", explica o CEO, avançando que o investimento rondará os 1,5 a 2 milhões de euros. José Pinto falava ao Dinheiro Vivo à margem da Lineapelle, a feira de peles e componentes para calçado que arrancou terça-feira em Milão, com 33 empresas portuguesas presentes.
A reciclagem do calçado das marcas que produz, designadamente através da recolha de botas e sapatos velhos Lemon Jelly, é um projeto que a empresa tem tentado implementar sem grande sucesso. "É muito difícil que consumidores e retalhistas assumam parte da responsabilidade. Criámos pontos de recolha nos retalhistas, mas a percentagem de sapatos que recebemos é irrisória. Parece que só o farão quando forem obrigados", lamenta José Pinto. O cliente da Lemon Jelly que queira desfazer-se de um par de sapatos velhos pode sempre inscrever-se no site da marca e enviá-lo para a fábrica, em Grijó, recebendo em troca um voucher para compras futuras. Mas "mesmo essa é uma reciclagem residual; recebemos dezenas de pares em vez dos milhares que poderiam chegar", diz o empresário.
Estas são algumas das 33 empresas portuguesas na feira de Milão, mas também exemplo das 110 entidades da fileira que se associaram ao Compromisso Verde do calçado, que será formalmente subscrito na sexta-feira, numa cerimónia pública no Porto, com presença do ministro do Ambiente e do comissário europeu da área. Os componentes são a "força motora" deste cluster, admite a APICCAPS. "As empresas de componentes são não só absolutamente fundamentais para que o setor possa apresentar produtos inovadores, arrojados e vanguardistas, como fornecedoras das principais marcas de calçado a nível mundial, o que lhes traz muito conhecimento acrescido", vinca Paulo Gonçalves.
A jornalista viajou para Milão a convite da APICCAPS.