Está praticamente esgotada a capacidade hoteleira na região de Castelo de Vide, no Alentejo, durante este fim de semana e até meados da próxima semana. Por estes dias, o Norte Alentejano está “invadido” por centenas de escandinavos, suíços, franceses, alemães e outros europeus que aproveitam o nosso inverno ameno para praticar orientação. Portugal já é um destino de eleição.
“Entre janeiro e março, cerca de dois mil atletas estrangeiros desta modalidade estagiam e competem no nosso país, aproveitando as boas condições climatéricas. Nos países onde a modalidade é mais famosa, está tudo gelado nesta altura”, explica Fernando Costa, organizador do Norte Alentejano O’Meeting, a prova internacional que está a decorrer em Castelo de Vide.
Calculando um impacto económico direto de cerca de 1,5 milhões de euros apenas para esta prova, Fernando Costa destaca a vantagem de não ser “preciso investimento em pistas ou quaisquer infraestruturas”, sendo, antes, as “belezas naturais do país” que atraem os praticantes de elite da modalidade, que acabam por ficar uma semana alojados na região.
Afinal, em que consiste a orientação? Aparentemente, é um desporto democrático, onde a força tem de emparelhar com a inteligência, obrigando os atletas a saber ler mapas especiais e a tomar decisões rápidas. Tem um ponto de partida, balizas de controlo através de chip e uma meta, mas nem o caminho é igual para todos, nem é obrigatório correr. “É um desporto de liberdade, porque não há caminhos obrigatórios. A única coisa obrigatória é o 'fair play' entre todos os praticantes, que vão dos 8 aos 80 anos. É um desporto de respeito pela natureza, que pode ser praticado em família inclusive. E nem sempre quem corre é quem ganha, pois até a caminhar pode vencer-se”, espicaça Fernando Costa.
Também no Norte
Combater a sazonalidade turística é um dos maiores desafios do turismo português e as potencialidades deste tipo de atividade não passam despercebidos mais a Norte. Na cidade do Porto, por exemplo, a PortoLazer organiza a Porto City Race, que atraiu 650 pessoas na última edição, em setembro passado. Há percursos de orientação no Parque da Cidade, na Quinta do Covelo e, em breve, no Parque de S. Roque. Nos postos de Turismo da Invicta, é possível obter um mapa de orientação para conhecer a cidade de forma ativa.
“As potencialidades da orientação já foram percebidas no território e há já uma dinâmica interessante na região – que chama muito os vizinhos espanhóis - na qual se destaca o palco do Parque Natural Peneda Gerês como local privilegiado para a sua prática”, adianta Melchior Moreira, presidente da entidade regional de Turismo Porto e Norte de Portugal. Admitindo que a orientação não tem, ainda, “a dimensão do running ou do trail, é, todavia, uma modalidade que se inscreve nas atividades de praticamente todas as empresas de animação turística do Porto e Norte dedicadas ao Turismo Ativo e Turismo Natureza”.
Embora não haja ainda estudos relativos ao consumo turístico dentro deste segmento desportivo, as potencialidades são incontornáveis. “Considero que são produtos turísticos muito importantes para combater a sazonalidade e como tal nos merecem grande atenção”, sublinha Melchior Moreira.
Atletas e cartógrafos de elite
Raquel Costa e Tiago Aires, ambos com 33 anos, são uma dupla invencível nas provas de Orientação, quer como atletas, quer como cartógrafos. Licenciados em Educação Física e Desporto, descobriram a vocação como cartógrafos especializados depois de começarem a praticar a modalidade. Hoje, são chamados a realizar mapas para os mais importantes clubes europeus de orientação, como da Federação Francesa de Orientação ou, este ano, dos campeonatos nacionais da Noruega (para 2017).
“Um mapa de orientação é uma obra de arte”, diz Raquel Costa. “Cartografar o meio natural por cores e símbolos deve obedecer a regras, mas há uma enorme liberdade do desenhador”, explica, recordando como tudo começou “em 2003, por brincadeira”, quando fizeram “os mapas de todos os jardins perto da nossa casa”. Em 2008, alguns dos primeiros mapas foram utilizados em provas do Campeonato do Mundo de Veteranos, em Leiria, e em campeonatos nacionais de Portugal e na prova WRE (ranking mundial). Os atletas não pouparam elogios à dupla de cartógrafos.
Nestes mapas de escala mais aproximada do que o habitual são registados através de símbolos “os caminhos e estradas, os tipos de vegetação, muros e cercas, linhas de água e lagos, pedras, falésias, colinas, toda a altimetria através das curvas de nível, árvores distintas, zonas com e sem árvores”. É um trabalho minucioso que “exige paciência”. Mas o facto de, menos de 20 anos depois de a modalidade ter chegado a Portugal, termos cartógrafos de elite não retira a humildade a Raquel Costa e Tiago Aires. “Fazer mapas de orientação é um processo de aprendizagem contínuo”, rematam.