As expressões investigação, inovação e empreendedorismo são profusamente utilizadas, muitas vezes metidas no mesmo saco, sem que se saiba exatamente o que significam e a relação entre elas. O propósito deste artigo é clarificar cada uma e deixar alguns desafios... quem sabe, se para serem respondidos neste mesmo espaço.
Investigação científica é um processo sistemático e estruturado de produção de conhecimento com base na aplicação de determinado método. Tipicamente, a investigação é realizada pelas entidades do sistema científico e tecnológico, mas também por um número crescente de empresas.
Inovação é a criação de novas soluções geradoras de valor - valor esse que pode ser económico, social, ambiental, cultural. O que importa salientar é que para haver inovação há que juntar esses dois "ingredientes": invenção e valor. Só o primeiro não chega.
Uma conclusão que se pode extrair desde já é que a investigação, enquanto processo de geração de conhecimento, é uma das fontes de inovação, mas não certamente a única. Desde logo, porque uma coisa é ciência e outra são soluções. Depois, porque é essencial que essas soluções sejam geradoras de valor, o que nem sempre acontece com o conhecimento.
Finalmente, um empreendedor é alguém que encontra soluções (por vezes novas) para desafios (por vezes imprevistos) com base em recursos (por vezes ainda não inventados). Por outras palavras, e de uma forma sucinta, é alguém com capacidade de iniciativa e abertura ao risco.
Como se depreende, estamos perante três elementos fundamentais para o desenvolvimento de qualquer comunidade, independentemente de essa "comunidade" ser um país, uma cidade, uma empresa, um serviço público ou uma ONG.
Nestes três domínios, Portugal apresenta perfis diferentes. Em I&D, o nosso país investe cerca de 1,7% do seu PIB. Não sendo brilhante (a média da Europa comunitária situa-se na casa dos 2,3%), a verdade é que representa um esforço proporcionalmente maior do que o realizado por países como Espanha e Itália.
Já em termos de inovação o quadro é menos animador. A generalidade dos indicadores aponta para uma deficiente criação de valor com base no conhecimento, o que significa que a inovação potencial em termos de produtos, processos e modelos de negócio é superior àquilo que efetivamente se tem vindo a conseguir.
Por último, o espírito empreendedor fica bastante aquém do desejável. Sem deixar de reconhecer a boa (excelente, em muitos casos) performance de um número crescente de startups portuguesas - Portugal tem mais empresas consideradas unicórnios do que Espanha - a verdade é prevalece uma falta crónica de espírito empreendedor.
Enquanto tivermos um Estado paternalista que se apresenta perante os seus cidadãos como resolvedor de todos os problemas, sejam individuais ou coletivos, a verdade é que a proatividade da generalidade da população portuguesa será sempre diminuta.
Porque uma coisa é possuirmos um Estado Social que, na minha mentalidade de europeu, é revelador de avanço civilizacional; outra coisa é um Estado que, sendo assistencialista, é castrador do espírito de iniciativa e se torna asfixiante do pouco empreendedorismo que sobra, porque tudo suga por via de impostos progressivamente mais pesados para financiarem uma máquina burocrática e clientelista cada vez mais omnipresente.
Carlos Brito, professor da Universidade do Porto - Faculdade de Economia e Porto Business School