Investir em Capital de Risco – alternativa em tempos de crise?

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Quando se fala em investimento em fundos de capital de risco, especialmente quando o objetivo são start-ups tecnológicas de base digital, existe imediatamente a tendência para o associar a risco máximo e a elevado potencial de perdas mas, na realidade, este tipo de ativos têm vindo a demonstrar, de forma consistente, uma elevada resiliência e muito menor volatilidade quando comparados com outro tipo de investimento financeiros mais tradicionais, especialmente em tempos de crise.

As empresas, em fases iniciais do seu desenvolvimento, têm-se afirmado pela sua capacidade de adaptação a novas realidades e eficácia na gestão dos seus recursos internos. São normalmente geridas por equipas de fundadores determinados, focados em resultados e cuja capacidade de se reinventarem e de se ajustarem sobressai em tempos de crise, tirando partido da flexibilidade que advém da sua natureza digital.

A aposta em start-ups tecnológicas tem, por isso, vindo a ganhar dimensão entre os investidores profissionais e o investimento em capital de risco, focado no early stage, tornou-se uma alternativa interessante de diversificação de portfolios em todo o mundo. Portugal também não é exceção, constatando-se que, após uma dezena de anos de crescimento, o ecossistema early stage, apresenta um elevado grau de maturidade, tanto em empreendedores, como em projetos, bem como pela existência de Sociedades de Capital de Risco, gerindo fundos especializados neste tipo de investimento e com track-record a registar.

Um conceito fundamental associado ao sucesso destes fundos early-stage é a diversificação aplicada aos sectores / indústrias alvo, às equipas fundadoras, aos modelos de negócio e ao grau de maturidade dos projetos. Fundos com portfolios bem diversificados representam uma segurança adicional para atenuar os riscos e para ultrapassar períodos de maior incerteza, sendo este um dos aspectos fundamentais a avaliar numa qualquer due diligence de quem esteja a considerar investir em capital de risco. Acresce que a diversidade geográfica é também um fator a considerar, sendo que fundos que investem só em Portugal, pela sua reduzida dimensão, podem ter alguma dificuldade acrescida para garantir essa diversidade - é sempre recomendável que o mercado–alvo seja mais alargado geograficamente.

No entanto, não deverá ser demasiado alargado que dificulte a realização de um outro conceito a ter em conta quando se investe em empresas nesta fase do desenvolvimento: a proximidade. Trata-se de empresas que estão a dar os primeiros passos, muitas vezes com fundadores pouco experientes em gestão, que leva que a colaboração próxima com os investidores seja um fator crítico de sucesso, só possível quando existe uma afinidade cultural que permita que o capital investido contribua ativamente para alavancar o sucesso das startups.

Também os aspectos, comummente apontados como negativos, do investimento em capital de risco, como a sua duração, normalmente longa, e a pouca possibilidade de liquidez até ao seu término, têm sido atenuados pela flexibilidade que, atualmente, muitos fundos apresentam de distribuição dos resultados desde que a fase de investimento está concluída.

O impacto do digital no mundo atual é incontornável e a presente crise pandémica veio realçar, ainda mais, a sua importância. A geração de mais e melhores empreendedores associado ao facto de que a presente crise está a reduzir as perspetivas de carreiras profissionais no mundo corporate e o facto das start-ups estarem a resistirem melhor aos aspectos mais destrutivos da economia, trazidos pelo aparecimento da Covid-19, reforça a atratividade do investimento neste sector que tudo indica vai continuar a aumentar nos próximos anos, em linha com o já observado em crises anteriores.

Lurdes Gramaxo, partner da Bynd Venture Capital

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