Investir em energias renováveis e ferrovia abre caminho à sustentabilidade 

Estratégias para descarbonizar a economia passam pelo reforço da eletrificação na mobilidade, mas também por mudanças nos hábitos de consumo. "A coisa mais fácil de renovar é a forma de fazer dinheiro", diz o biólogo e ativista Gonçalo Ferreira de Carvalho
Publicado a

A aposta na ferrovia é um sonho antigo partilhado por vários governos ao longo das últimas décadas, mas pode estar prestes a tornar-se realidade através do financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). O programa prevê investir um total de 967 milhões de euros apenas em mobilidade sustentável, que inclui, entre outras ações, a expansão das redes do Metro de Lisboa e do Metro do Porto. "A ferrovia é fundamental para sermos capazes de atingir os objetivos do Acordo de Paris para a neutralidade carbónica", defendeu João Menezes, secretário-geral da BCSD, durante o terceiro debate do movimento Faz Pelo Planeta by Electrão, na passada quarta-feira. A conversa, moderada pela diretora do Dinheiro Vivo, Joana Petiz, procurou encontrar estratégias que permitam reduzir as emissões de CO2 e descarbonizar a economia.

João Menezes cita o estudo da BCSD com a McKinsey, «Net Zero Portugal», que conclui que o país terá de "eletrificar muito rapidamente o sistema de transportes", nomeadamente através dos comboios e dos veículos elétricos. Contudo, para isso será necessário "acelerar em 20% o ritmo na eletrificação e na penetração de energias renováveis", que sirva de suporte ao consumo adicional e permita evitar emissões de CO2. Para o diretor do CEIIA, Pedro Diaz Gaspar, o caminho para a sustentabilidade passa também por uma mudança radical nas metrópoles, que devem ser redesenhadas e não apenas adaptadas às novas exigências ambientais. "Temos de começar a pensar a cidade como um sistema ciberfísico, é a única maneira de sermos capazes de atingir os objetivos", acredita.

O setor energético será o mais chamado na próxima década a contribuir para a descarbonização, segundo Pedro Amaral Jorge. Neste campo, aliás, Portugal assumiu o compromisso de atingir a incorporação de 80% de energia verde no consumo de eletricidade até 2030. "Já muitas vezes tivemos esses 80%", diz o presidente da APREN, referindo-se ao período pandémico em que uma parte substancial das necessidades elétricas foi assegurada por fontes renováveis. Se é consensual que a eletricidade limpa, proveniente do sol ou do vento, é a "forma mais eficiente de descarbonizar" os consumos, o responsável acredita que o hidrogénio verde terá, também, um papel importante na substituição dos combustíveis fósseis.

"As empresas que demorarem mais a acordar para este tema [da sustentabilidade] vão perder capacidade competitiva e de resiliência", avisa João Menezes. Em causa está, diz, a transformação das cadeias de valor no sentido de as tornar circulares, a redução da pegada ambiental por via da produção e a adoção de um novo modelo de negócio baseado em serviços. "Em vez de vender produtos em que o consumidor é o dono, vendo um serviço", explica. Um exemplo desta nova forma de consumo está em Tóquio, no Japão, onde o product-as-a-service já é comum na indústria da moda. "Os estudos mostram que mais de 90% das peças de roupa nos nossos armários não estão em uso. É um desperdício e ocupa espaço", sublinha. A solução adotada pelos japoneses está na subscrição de entrega de algumas peças de roupa, renovadas mensalmente por outras, aumentando a circularidade no setor. "O efeito de novidade que muita gente quer na moda não se perde, mas não obriga a comprar fast fashion todos os meses para renovar", explica João Menezes.

A alteração dos modelos de negócio e de exploração de recursos estende-se às baterias dos carros elétricos, cujo impacto para o ambiente, nomeadamente pela extração de lítio, é considerável. "As empresas que fazem baterias estão a trabalhar ativamente para reduzir a necessidade de minerais nesses produtos", afirma Gonçalo Ferreira de Carvalho. O biólogo e ativista diz mesmo que esta mudança pode e tem de acontecer, até porque "a coisa mais fácil de renovar é a forma de fazer dinheiro". "Olhar para as baterias de lítio prolongando-lhes o ciclo de vida é muito importante", acrescenta Mónica Luízio, que acredita que a mobilidade tem um "papel determinante na ação climática". Uma forma de minimizar os efeitos negativos do lítio - ambientais e sociais nos países em desenvolvimento - passa, por exemplo, pela aproximação geográfica das cadeias de valor. "Temos de ser capazes de reinventar essa indústria", aponta João Menezes.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt