Já dizia o velho T. S. Eliot que «entre o pensamento e a realidade, entre o impulso e a acção, cai a sombra». Ser político muitas vezes leva-nos, por uma questão de estratégia ou limitações da envolvente, a defender coisas que à partida estamos contra, sapos que temos que engolir!
Dou um exemplo: a Oposição Democrática estava contra o regime de Salazar e Caetano, mas tentou dentro do regime mudá-lo até perceber que tal era impossível; pelo meio, aos olhos de muitos pareceu colaboracionista e até legitimou-os.
Os militares no Ultramar? Muitos eram contra a guerra, mas tinham uma função que o país lhes obrigava a cumprir.
Há momentos em que a maturidade política nos põe em lugares e posições onde dificilmente estaríamos se estivéssemos sozinhos; e de onde, quase de certeza, saímos com um enorme "cadastro" às costas!
O exercício do poder não é um acto isolado, estamos dentro de um corpo, um organismo, um partido uma instituição, e por vezes devemos saber dar voto de vencido. E das duas uma: fechamos o burro, guardamos a albarda e demitimo-nos. Ou acreditamos na nossa visão global e continuamos a tentar.
Muitos ministros relatam que são derrotados nos seus intentos, na sua política, pelo próprio órgão colegial que é o Conselho de Ministros; e lá vamos outra vez: ou acreditam que têm ainda alguma coisa para dar, ou como diz um treinador de futebol por terras de Vera Cruz: «Vou-me embora! Já chega!»
Assim, percebemos o mal-estar entre ministros, ministros e secretários de Estado, deputados e bancadas parlamentares. E ainda, algumas vezes, Governos e partidos que o suportam.
É um pouco como o multilateralismo, como as Nações Unidas, desistimos de algumas coisas nossas em prol de um entendimento comum.
Trump acabou com o multilateralismo, num primeiro instante parecia vencedor, só que colocou o mundo na crise internacional de que agora estamos a pagar a factura.
Também conheço alguns casos de influentes ministros que tiveram que pedir a amigos na oposição, para puxarem temas para a actualidade, para resolver políticas dos seus ministérios que de outra forma não teriam margem política para o fazer.
Sabemos que os ministros das Finanças cortam as vazas aos outros ministros, tendo em conta o enquadramento global das contas públicas. Centeno foi o "mago das cativações".
Por isso, se o ministro da Educação aparece ao lado de um candidato a futuro primeiro-ministro que diz que quer aumentar os professores, temos duas ou três hipóteses: Ou é um vira casacas! Ou é um homem que vê que finalmente poderá ter as condições políticas que precisa para trabalhar! Ou até foi ele que foi pressionar Pedro Nuno para seguir um novo rumo!
Sinceramente, acreditam mesmo que João Costa é um druida maléfico, que coça a barba e com o seu bastão na mão fica feliz a roubar anos de trabalho aos professores? A infernizar a vida daqueles que em última análise mais precisa para apresentar resultados? Um tipo sem coração que gosta de ver professores a dormirem em parques de estacionamento e lavar os dentes em cafés?
Por mim a coisa é simples, João Costa encontrou finamente alguém que o quis ouvir... e deu a cara por isso!
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)
("Até às eleições" é o mote para uma sequência de artigos de opinião, de segunda a sexta-feira, de Duarte Mexia (duarte.mexia@gmail.com), que serão publicados, precisamente, até à realização das próximas eleições Legislativas, marcadas para 10 de março.)