Julgamento por Tiktok

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No momento em que foi anunciado o veredicto do julgamento por difamação de Johnny Depp e Amber Heard, as cronologias nas redes sociais foram inundadas de publicações celebratórias. Os apoiantes de Johnny Depp, que tinham passado as últimas seis semanas numa campanha inamovível para restaurar a boa reputação do actor e cilindrar a que restava de Amber Heard, sentiram-se vingados. Pessoalmente, pareceu-me; como se aquele veredicto tivesse sido oferecido para salvar a sua própria pessoa.

Durante estas semanas assisti a algumas horas de testemunhos, tentando formular uma opinião sobre o que se estava a passar. Conheci Johnny Depp há alguns anos, em Hollywood, e fiquei com uma excelente opinião sobre ele. Quando as alegações de violência doméstica de Amber Heard surgiram, tive dificuldade em conciliar as duas versões, que pareciam antagónicas - um actor talentoso, honesto e adorado pela indústria, ou um marido alcoólico e abusador?

Sobre Amber Heard, havia também uma dúvida aparentemente irreconciliável: esposa manipuladora e violenta ou vítima de violência doméstica a quem foi retirado tudo por ousar denunciar o seu abusador?

As várias semanas de julgamento mostraram que a realidade é menos sólida que as etiquetas que lhe quiseram atribuir. As dezenas de testemunhas de um lado e de outro pintaram o quadro de uma relação volátil, tóxica e abusadora de parte a parte. A conduta de Amber Heard foi em momentos de vítima e noutros de perpetradora. Tendo em conta a dinâmica desta relação, publicar um artigo de opinião como o que ela publicou e deu origem a este processo não foi razoável. Heard não era o símbolo último da violência doméstica, que é um problema grave e tantas vezes desvalorizado pela polícia, pelos tribunais e até pelos familiares das vítimas.

No entanto, Johnny Depp também não se comportou como o marido aterrorizado e violentado que quis projectar neste julgamento. E notou-se de forma dolorosa a diferença de tratamento entre ambos, que se processaram mutuamente. As experiências de Amber Heard foram tratadas como mentiras à partida, ela encarada como uma mulher de reputação questionável que só queria fama e dinheiro e se comportava como uma histérica. As experiências de Johnny Depp foram tratadas com simpatia e mesmo as suas acções repugnáveis como compreensíveis. Foi o velho mantra de que se o marido bateu ou gritou, a mulher mereceu.

Mas o mais impressionante de tudo isto foi o julgamento por Tiktok e como tanta gente que não tem nada a ver com o caso se envolveu em campanhas ferozes contra Amber Heard. Os vídeos virais inundaram as redes sociais. Era impossível abrir o Facebook sem ver sugestões de vídeos delapidando a actriz, ou ir ao Instagram sem ver uma foto dela a chorar com alguma frase entre o meme e a lição de vida manhosa.

Terão os jurados sido influenciados por esta onda avassaladora de apoio a Depp e repúdio de Heard? É impossível perceber, mas o facto é que tanto um como outro foram considerados culpados de difamação. Só que a compensação monetária muito superior a Depp afogou esse facto, e a vitória foi celebrada por fãs em todo o mundo.

Aqui está o resultado mais problemático, do ponto de vista social, de todo este circo. Os contornos da relação nunca deveriam ter sido tornados públicos desta maneira. Os testemunhos de violência doméstica nunca deveriam ter sido transmitidos e arquivados para sempre na Internet. Há que repudiar o descaso total pela dignidade destas pessoas, ainda que uma delas - Johnny Depp - pareça ter feito isto especificamente para obter apoio da opinião pública.

Não sei o que se passou entre eles nem tenho direito a saber, mas parece-me extremamente perigosa a noção de "difamação por insinuação" neste caso, já que Amber Heard nunca identificou Johnny Depp como o seu abusador no que escreveu. É uma espécie de aviso às vitimas do futuro: até escrever sobre o seu abuso, mesmo sem indicar nomes, pode levar-vos à falência.

É também uma reversão do movimento de progresso em relação ao assédio e violência doméstica. Porque tenho assistido a um fenómeno curioso em discussões sobre estes assuntos. Quando se fala das estatísticas de violações e violência doméstica, que têm uma percentagem baixíssima de condenações e são quase sempre perpetradas por homens, a resposta defensiva é: nem todos os homens são assim. Um mau exemplo não quer dizer que os outros sejam perigosos.

Mas quando se fala de uma mulher que fez uma acusação falsa ou dúbia, algo que é tão raro que é estatisticamente irrelevante, esse exemplo é usado como símbolo para desacreditar todas as vítimas. A implicação é: se uma o fez, todas o fazem. A lógica oposta ao argumento de que "nem todos os homens são assim."

É isso que a polarização Depp-Heard nas redes sociais vai reforçar. E é por isso que, independentemente dos méritos do caso, a conduta de influenciadores e utilizadores que o pintaram a preto e branco foi um tremendo passo atrás.

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