Kimberly e Mariana

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Mariana Grimaldi, 15 anos, vive num bairro de classe média, estuda num colégio tradicional, onde os pais, ambos engenheiros elétricos empregados em multinacionais, pagam uma mensalidade de quatro dígitos. O trabalho da mãe, na Nokia, garante um plano médico num prestigiado hospital.

Quando não está no colégio – o que é raro porque costuma ficar lá até às 20 horas, a rever matérias, a aperfeiçoar o inglês, a praticar andebol, voleibol ou basquetebol – vai com as amigas ao centro comercial ao lado almoçar e “bater papo” com as amigas.

De regresso ao apartamento de quatro quartos, um para ela, outro para o irmão, outro para os pais e outro que serve de escritório, tem tudo arrumado pela empregada que também prepara os jantares da família.

Nos tempos livres, circula pelos museus, cinemas e teatros com os pais e come pizza todas as sextas-feiras à noite na casa da avó, de 75 anos. Nos períodos de férias, ou vai ao chalé da família, ou viaja uns dias para Paris.

Enquanto não termina o ensino médio e segue engenharia, como os pais, aguarda ansiosa a oportunidade de fazer um intercâmbio nos Estados Unidos, como o irmão.

Kimberly Barbosa, também 15, sonha ser “aeromoça” (hospedeira de bordo). No entanto, reconhece, não será fácil morando numa favela e estudando numa escola pública, onde não aprende nem o básico de inglês e de onde sai ao meio-dia para ir fazer o almoço e cuidar da casa de dois quartos e uma casa de banho que abriga oito familiares - a mãe e a tia, ambas desempregadas e a viver do programa social Bolsa Família, e cinco irmãos. Do pai perdeu o rastro aos quatro anos.

Como não tem tempo nem dinheiro para um curso de inglês, essencial para uma aeromoça, o seu sonho é, pelo menos, sair da favela porque não conhece ninguém que tenha ficado por lá e triunfado – boa parte das amigas largou os estudos depois de engravidar.

Quando não está na escola, a ajudar em casa ou a procurar emprego – perdeu o último há uns meses - joga à bola na quadra do bairro ou frequenta bailes funk aos quais a mãe a deixa ir uma vez por mês. Programas com avós também são raros na rotina dela e da generalidade dos amigos – a idade média dos óbitos na favela é de 65 anos, menos 15 do que na região onde Mariana mora.

Casos de gritante desigualdade social, como a entre Mariana e Kimberly, foco de uma reportagem da edição brasileira do El País, de tão comuns no Brasil, o nono país mais desigual do mundo atrás da Colômbia e à frente de Eswatini, ex-Suazilândia, infelizmente quase não são notícia.

O que o torna impressionante é a proximidade: Mariana, que nunca esteve numa favela, e Kimberly, que nunca foi à Avenida Paulista, moram a 10 quilómetros de distância na região central da cidade de São Paulo.

O presidente eleito Jair Bolsonaro criticou anos a fio, em campanha e já depois de eleito os programas sociais, a política de quotas e o discurso do coitadismo, exaltando a meritocracia como solução – “quem se empenha e dedica terá vida mais tranquila”, disse ele. Na região eleitoral onde mora Mariana, o argumento foi acolhido por quase 80% dos eleitores; na de Kimberly, o capitão do exército perdeu.

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