Apesar de genial, Messi, que anda no topo do futebol desde os 16 anos, por nunca ter ganho nada com a sua Argentina, é chamado de perdedor até por compatriotas seus. Por, na sua engrenagem, Bruxelas ter burocratas bolorentos, ódios antigos entranhados e marionetes no lugar de líderes, esquecemos tudo o que a histórica ideia de uma Europa unida fez por quem a ela aderiu – e pelo mundo.
O mesmo se passa com a Operação Lava-Jato, no Brasil. Desde há dois anos e meio sob os holofotes do noticiário, a ação policial que começou por investigar um caso de lavagem de dinheiro num posto de gasolina e, fio a fio do novelo, chegou aos mais poderosos políticos e empresários do Brasil, começa a ser questionada.
Descontando que entre os que a questionam estão advogados de réus do escândalo do Petrolão e gente enterrada até ao pescoço na lama da corrupção, há críticas justas pelo meio.
Primeira: ao mesmo tempo que punia os ladrões da Petrobras, os investigadores podiam ter preservado a empresa – afinal uma vítima e não a culpada do caso. Assim, causaram-lhe prejuízos quase tão altos quanto os roubos originais, implodindo-lhe a imagem e prejudicando milhares de funcionários honestos.
Segunda: o juiz Sérgio Moro interveio em fugas de informação seletivas que baralharam o jogo político em período fundamental da história do Brasil.
Terceira: obcecado pela “delação premiada”, concede que ladrões bufos tenham reduzido as suas penas ao mínimo e usufruam agora das suas mansões enquanto os ladrões que se recusam a bufar apodreçam em celas. José Dirceu, antigo número dois de Lula que faz parte do segundo grupo, está consciente que por não delatar vai morrer na cadeia. Já Pedro Barusco, um reles operacional da Petrobras que desviou 100 milhões de dólares, foi fotografado numa praia elitista do Rio de Janeiro onde mora, de uísque numa mão e charuto na outra, porque primeiro roubou e depois entregou a quadrilha. No total, os mais de 50 delatores foram condenados a 400 anos de prisão mas cumprirão meros 74 e em regime aberto.
Última: a Operação Lava-Jato faz, em certos momentos, o culto da personalidade – Moro. E são aqueles que mais achavam perigosa a veneração a Lula quem mais cultua agora o jovem juiz.
A tudo isso, a Lava-Jato rebate com pragmatismo: o culto da personalidade é insignificante quando confrontado com tudo o que Moro, com obstinação e competência, alcançou; as injustiças da delação premiada são danos colaterais da política defensável de “trocar peixe por cardume”; a imparcialidade dos juízes é demonstrada pelo facto de todos os partidos, do PT ao PMDB e PSDB, já terem sido atingidos; e a preservação da Petrobras não é tarefa da justiça e sim da classe política, na sua maioria salpicada pelo escândalo.
Porque a Lava-Jato, além de atacar a persistente sensação de impunidade do país, de prender corruptos poderosos pela segunda vez na história do Brasil (a primeira foi o Mensalão), já fez o número de fraudes no país cair de 27 para 12%, dobrou o número de empresas com núcleos internos de combate à corrupção e vai diminuir os custos pornográficos da próxima campanha eleitoral - porque a maioria do que sempre foi desviado servia para olear máquinas milionárias de propaganda.
A Operação Lava-Jato tem defeitos? Sim, mas o Brasil estaria pior sem ela do que com ela. Assim como o Reino Unido ficará pior fora da UE do que dentro e a Argentina terá menos hipóteses de ganhar títulos sem Messi na equipa.
João Almeida Moreira escreve todas as quartas-feiras no Dinheiro Vivo