Ler em papel ou no ecrã?

Lemos cada vez mais a partir dispositivos digitais, mas a ciência mostra que tal pode ter impacto na compreensão dos textos.
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Na era digital cada vez mais a leitura é feita com recurso a ecrãs. Mas até que ponto um texto lido num computador ou num tablet é compreendido da mesma forma que um lido em papel? Para a psicóloga Célia Oliveira, que esta semana trouxe os últimos estudos sobre o tema ao Educar tem Ciência, um projeto da Iniciativa Educação em parceria com a TSF e o Dinheiro Vivo, esta é uma interrogação pertinente.

"Vale a pena perguntar se essa leitura é tão eficaz quanto a leitura em papel. E isto é especialmente importante se pensarmos nos efeitos que pode ter em termos educativos", alerta. Don"t throw away your printed books, uma meta-análise publicada em 2018 e atualizada em outubro, analisa a investigação feita ao longo de 18 anos e abrange mais de 171 mil alunos de todos os níveis de escolaridade, revelou que os livros impressos têm vantagem sobre as tecnologias no que toca à compreensão dos textos. "A compreensão é melhor quando lemos em papel e isto é transversal a todos os níveis de escolaridade", refere a psicóloga que destaca ainda outro aspeto do estudo: ao contrário do que se poderia esperar, os alunos mais velhos não têm mais vantagem na compreensão do que leem em formato digital.

Célia Oliveira frisou também que a vantagem da leitura em papel sobre o formato digital é mais evidente na leitura de textos informativos e mistos (que combinam características informativas e narrativas), que são o tipo de textos utilizados nos conteúdos educativos. A explicação para isto reside na exigência cognitiva da tarefa de ler textos informativos ou textos mistos que, para os investigadores, é dificultado pela leitura mais superficial que tende a acontecer no meio digital.

"Estamos condicionados pela interação que temos com este meio, baseada numa atividade rápida, com informação em constante alteração, que não exige que nos detenhamos por um tempo prolongado no que estamos a ver", explica Célia Oliveira. A isto somam-se o conjunto de fatores de distração associados aos meios digitais e um fenómeno que os investigadores apelidaram de "viés de autoconfiança", a tendência para sobrestimar a compreensão daquilo que é lido em meio digital.

O facto de não reter bem a informação e de não conseguir manter o foco leva o leitor a abandonar a leitura mais rapidamente, continua a Célia Oliveira, para quem isto é especialmente importante no contexto educativo. "Quando um aluno está a estudar precisa de manter o foco naquilo que está a ler durante algum tempo e de compreender bem o que está a estudar".

A psicóloga lembrou ainda que a investigação realizada nas últimas décadas mostra que há uma perceção sobre as vantagens e desvantagens da leitura nos dois meios, e uma valorização da leitura em papel, com a maior concentração, a facilidade de manuseamento e a experiência multissensorial a serem indicados como vantagens. Já as vantagens apontadas no usa da tecnologia são a usabilidade e a facilidade de acesso aos livros. Curiosamente, os motivos que levam a privilegiar a leitura num tablet ou e-book sobre a de um computador, são semelhantes às que levam à escolha de um livro impresso: a interação tátil, o manuseamento, a possibilidade de mudar de página e de poder pegar no objeto usado para ler.

"O que a investigação disponível mostra é que os jovens não preferem necessariamente a leitura em formato digital", frisa a especialista para quem este deverá ser um aspeto a ter em conta para proporcionar uma melhor experiência de leitura aos alunos, o que não passa pelo descartar da tecnologia. "É importante que a tecnologia possa desenvolver-se no sentido de potenciar a compreensão do que está a ser lido e de mimetizar as vantagens da leitura em papel", diz.

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