Era, segundo o próprio, o executante das ideias do pai, dono do
Licor Beirão e pioneiro da publicidade em Portugal. Nessa qualidade
vendeu jornais, fez brinquedos e barcos, criou sinais de trânsito,
inventou tinta reflectora e pintou com ela os famosos anúncios nas
estradas enquanto viajava ou ia de férias. Agora, a par da família
e do râguebi - onde também soma êxitos -, mantém a paixão por
aquele que baptizou como "o licor de Portugal". Só ele e um dos
quatro filhos (e dez netos) conhecem o segredo das medidas e da
mistura com que a partir de 13 sementes e especiarias se faz uma das
marcas mais irreverentes do País
O Licor Beirão vende mais pela bebida ou pela publicidade?
Pelas duas coisas. Há um binómio qualidade/publicidade. Podemos
fazer a melhor publicidade do mundo, que se o produto não tiver
qualidade não vende. Podemos ter o melhor produto do mundo, que se
não tiver um bom "marketing" também não vende.
O seu pai, José Carranca Redondo, comprou o Licor Beirão ao
genro do farmacêutico que o criara como xarope, com os doze contos
poupados como trabalhador. Mas pediu um empréstimo para promover a
bebida. Ele foi o pai do Licor Beirão ou o pai da publicidade em
Portugal?
Foi mais o pai da publicidade em Portugal. Naquele tempo, tinha
acabado de começar a segunda guerra, o licor não era um produto de
venda fácil. Ter a coragem e a visão de apostar na marca e andar
aos fins-de-semana com um balde de cola a afixar cartazes, foi de um
visionário. Um homem com a quarta classe.
E agora, acha que o Licor Beirão é mais uma bebida ou é uma das
mais criativas marcas de publicidade?
Continuamos a ser criativos porque faz parte do nosso ADN. Fui
criado no mundo da publicidade e do "marketing", durante quarenta
e tal anos era tudo executado por nós aqui na empresa. Agora temos
trabalhado com as melhores agências do país, inclusive esta última,
a Usina.
São eles que lhe apresentam as ideias ou algumas são suas?
Trabalhamos em comum. Na campanha do Futre, e mesmo nesta da Merkl
e do Sarkozy, tiveram o mérito de nos propor e nós o de, um minuto
para o outro, não andarmos aqui a encher pneus, decidir. "Fogo à
peça", como dizia um grande amigo. Umas vezes acerto, outras vezes
não.
Com o Sarkozy e a Merkel teve reações do estrangeiro?
A campanha saiu em dezenas de jornais e foi passada em várias
televisões de todo o mundo. Partes dela nem saiu cá... "Já
pensou porque Angela e Nicolas chegaram finalmente a um acordo?";
"Porque é que o FMI vem de visita tantas vezes a Portugal?"(risos)
Um jornal alemão noticiou um encontro entre o Sarkozy e a Merkel em
Paris e dizia: "Esperemos que no final eles possam beber um Licor
Beirão, o licor de Portugal".
E recebeu encomendas?
Sim, estamos a ter benefícios directos da campanha. Sobretudo a
nível de Suíça, Alemanha e Luxemburgo. Aos primeiros que me
telefonaram disse: "Merkel? Sarkozy? Não sei, não fizemos nenhuma
publicidade dessas. É o Nicolas, que até jogou râguebi comigo e
agora é veterano em Toulouse, e a Angela que é uma fisioterapeuta
de Munique" (risos). Também me perguntaram se eles não nos tinham
criado problemas. Infelizmente não (mais risos).
Qual é a percentagem de orçamento que têm para publicidade?
Desde sempre, digamos que no mínimo, 10% a 15% dos proveitos são
investidos na publicidade. Actualmente, até talvez um bocadinho
mais.
Chegou a ter uma agência de publicidade?
Durante as décadas de 50 e 60, depois dos cartazes do Licor
Beirão, começámos a ser contactados por muitas empresas que
queriam os cartazes deles ao pé dos nossos. Daí nasceu uma agência
de publicidade nossa! Na década de 50 ainda havia cerca de seis ou
sete boas empresas. Em 61 saiu uma lei que proibia a publicidade ao
longo das estradas e aí dá-se realmente o êxito do meu pai. Ao
contrário de todos os outros, não fechou e tornámo-nos a única
empresa no país a afixar cartazes. Era um negócio riquíssimo...
Há anúncios do Licor Beirão que marcaram a história da
publicidade em Portugal. O "Beirão de quem todos gostam", em
pleno salazarismo, a pin-up demasiado despida para a época, as
réguas cada uma para a sua classe profissional... São todos dessa
vossa agência?
Sim, depois de termos criado a nossa própria publicidade, as
empresas trabalhavam connosco e arranjavam clientes. A primeira fora
foi a CIESA...
Noutros tempos teve o Tony de Matos. Agora quanto é que lhe
custaram as últimas campanhas com pessoas famosas com o Manuel João
Vieira, o José Diogo Quintela e o Paulo Futre?
Gostava de lhe dizer mas, como é óbvio, tenho que defender
também a honra deles... (risos)
Mas a campanha do Futre, foi muito cara ou não?
Para os resultados que tivemos, foi muito barata, um belíssimo
investimento.
Contou-me que quem lhe fez a proposta foi a agência. Quanto tempo
demorou a chegar a acordo com o Futre?
Dois dias. A agência falou diretamente com ele e passados três
dias fui a Lisboa, para a sessão fotográfica, e assinámos
imediatamente o contrato.
É verdade que teve de mandar pintar de amarelo um Porsche para
sortear?
Exactamente, o Porsche era vermelho, foi pintado de amarelo, foi
decorado pela agência com as palavras Paulo Futre, Licor Beirão,
Licor de Portugal e foi sorteado. E saiu a um piloto da TAP. Tivemos
sorte, andámos muito preocupados porque podia ter saído a alguém
que fizesse asneira e, estando lá a nossa marca, era problemático.
Tivemos muita sorte e saiu a uma pessoa com um nível acima da média.
Qual foi a sua primeira campanha de publicidade?
Sei lá! Há aquelas em que andava com o meu pai a distribuir
autocolantes pelos cafés, a pô-los em todos os táxis de Lisboa a
dizer "Feche as portas com cuidado"... Com dezoito anos, mal
tirei a carta de condução, um dos meus maiores prazeres era o meu
pai deixar-me ir numa das carrinhas afixar cartazes! Coloquei
centenas de painéis de madeira que agora se chamam "outdoors"...
Dantes eram de madeira e eram vocês a fazê-los...
Sim. Depois eram em fibra de vidro, por isso montámos essa
indústria, também com muito sucesso. Fabricámos barcos e,
sobretudo, sinalização rodoviária. Fomos a maior empresa do país
a fornecer sinais de trânsito. Nas décadas de 60 e 70 só a câmara
municipal de Lisboa comprava em média, sete a dez mil sinais de
trânsito por ano.
É "pai" de alguma frase publicitária?
Criei a mais famosa, penso eu. Tenho que me gabar porque tinha
dezoito anos...Tínhamos o painel do Licor Beirão, o amarelo, e
lembrei-me de lançar o slogan "O licor de Portugal". Na altura
os meus amigos da faculdade brincavam: "Não vendes! Tens de ter
uma marca estrangeira, tens que dizer que aquilo que vem de fora".
Mas o beirão é português. Insisti, insisti, e neste momento é uma
das grandes mais-valias da nossa marca.
O seu pai parecia uma pessoa à frente do seu tempo. Onde é que
ele ia buscar inspiração, alguém com a quarta classe?
Ele recebia propostas, dos desenhadores das litografias, e depois
estava em causa aceitar ou não. Um criativo pode ter grandes ideias
mas se ninguém as aceitar... Mas também criava: um ano mandou
retirar "o licor de Portugal" e pôs "o beirão de quem todos
gostam".
Essa foi ousada...
Houve um professor primário aqui na Lousã que lhe disse: "Oh
Carranca, não é o beirão de quem todos gostam, é o beirão de que
todos gostam, o "que" refere-se a coisas e o "quem" refere-se
a pessoas". E ele respondeu: "Mas é isso mesmo que eu quero, que
se refira a pessoas!".
Criativo, mas também arriscado. Ele nunca teve medo de ser preso?
Não, era um combatente. Aliás, quando foi proibida a publicidade
ao longo das estradas, em 61, e ficámos únicos na sua distribuição,
foi a tribunal 93 vezes.
Já me disse que só perdeu uma vez...
Só perdeu a primeira, porque levou um advogado que não o soube
defender e o juiz acabou por o condenar. A partir daí ia sozinho,
todas as semanas, duas, três vezes, em várias comarcas do país. E
ganhou-as todas.
E aproveitava, no caminho, para colar mais uns cartazes?
Tal e qual. E fazia outra coisa que eu ainda faço aos
fins-de-semana, ou quando viajo: ir aos cafés distribuir
publicidade, conversar com o dono. É importante que aqueles que
vendem o nosso produto conheçam quem o fabrica. Claro que agora é
mais difícil. Tínhamos três mil e poucos postos de venda, neste
momento são mais de noventa mil.
O seu pai andava, dizia-se, com uma lata de tinta na carrinha e um
pincel. Você usa merchandising?
Agora tenho a mala do carro com canetas, réguas, cadernos e essas
coisas. Mas também andei com tintas. Pintei muitas paredes em
Espanha e Andorra, quando ia de férias com os meus filhos (são
quatro e dez netos, a mais nova com semanas). Escrevia "Licor
Beirão" com líquido reflector que de noite brilhava, fui eu que
inventei.
Inventou esse líquido?...
Sim. Tínhamos a fibra de vidro e os painéis, sobretudo os da
sinalização rodoviária, e precisávamos de material reflector. Em
vez de o comprarmos a uma empresa americana tentámos fabricá-lo.
Com misturas de esferas e de tinta, produzi o líquido. É cinzento,
há mais de 40 anos que está aí na estrada da Beira e ainda brilha
de noite. Vendíamos muito desse líquido, exportávamos muito para
Espanha e França.
Tiveram negócios muito diversificados. Houve também uma fábrica
de brinquedos, não foi?
Esse foi um dos primeiros negócios do meu pai. Depois de comprar
a fábrica do Licor Beirão, em 1940, fez uma fábrica de
refrigerantes. Estava sempre com ideias novas e evitava fazer aquilo
que os outros já faziam. Fez a fábrica de brinquedos porque na
altura era tudo da Majora. Entre os 13 e os 15 anos eu passava os
tempos livres a pintar as peças de madeira ou a tornear, imagine, um
miúdo a tornear, que é uma actividade bastante perigosa. As
laranjadas distribuíamos só na região. O meu pai teve para aí
meia centena de negócios.
Por pintar anúncios nas curva o seu pai foi acusado de fomentar
os acidentes e por isso fez um acordo com uma seguradora. Se houvesse
acidentes pagava?...
Exactamente. Havia uma luta muito grande entre a direcção das
estradas, a Junta Autónoma, e o meu pai. Eles tentavam demonstrar
que a publicidade distraía os condutores e causava acidentes. Veja,
cinquenta anos depois, como é que estão as estradas todas, cheias
de grandes "outdoors"... O meu pai reagiu e tentou demonstrar o
contrário. Colocámos material reflector nos cartazes do Beirão e
conseguimos que a Social fizesse um seguro em que pagaríamos cem
contos de indemnização a quem tivesse um acidente naquelas curvas e
demonstrasse que era por culpa da publicidade. Até hoje, nunca se
pagou.
E é verdade que, com uns balões de Licor Beirão, fez com que
todos os jornais noticiassem o aparecimento de ovnis?
Houve um período em que estava na moda, porque isto é cíclico,
falar de ovnis. Toda a gente aqui nas beiras os avistava... Então
lembrámo-nos... Foi feito por mim, mas ideia do meu pai. Fizemos
umas armações numa madeira muito leve, com um plástico, onde
colocámos uns balões. De noite lançavam-se com umas pequenas
lanternas, subiam e começavam a andar com o vento pelas serras.
Apareceram notícias em Arganil, em Góis, em Moimenta da Beira, sei
lá, pessoas que garantiam que viam os ovnis. Quando aquilo caía lá
tinha a publicidade do Licor Beirão! (risos)
E depois era noticiado!?
Sim. E fizemos outra com os primeiros satélites, bolas enormes
metálicas. Havia hipótese de os ver três vezes. Agora já não se
vêem porque são muito mais pequenos e não reflectem a luz do sol.
Passei noites e noites a vê-los e fiz um horário. Mandávamo-lo com
as circulares em que denunciávamos as prepotências da Junta
Autónoma de Estradas para todos os cafés, à volta de 3500, todas
as semanas! E para todos os jornais, que punham uma pequena notícia
a dizer "Do senhor José Carranca Redondo, industrial da Lousã,
fabricante do Licor Beirão, recebemos o horário para a passagem dos
satélites". Eles publicavam o horário e faziam a publicidade ao
Licor Beirão! Lembro-me que o único jornal, por quem tenho muita
consideração, que não punha lá a referência ao Licor Beirão era
o "Jornal de Notícias", razão porque, durante algumas semanas,
mandámos para lá os horários todos trocados! Quando eles deram por
isso pediram desculpa e passaram a pôr a publicidade... (risos)
Foi do seu pai ou sua, aquela frase, que agora voltou a ser moda
nas casas de banho, do "nunca se esqueça de apertar as calças"?
Foi feito por mim, mas a ideia foi do meu pai, claro.
Ele tinha as ideias, você punha-as em prática?
As pessoas diziam, com alguma laracha, que o meu pai depois que me
fabricou deixou de ter problemas de fabrico. Eu era o executante.
Tinha uma grande dinâmica, muita facilidade em me desenrascar, em
produzir tudo o que fosse. Nós imaginávamos e não andávamos meio
ano à espera para produzir. Entrávamos imediatamente em execução.
Estamos a falar só de êxitos, claro que os "inêxitos" também
foram muitos. Ao longo de uma vida há muitas coisas que não
resultam. Mas não foi por isso que deixámos de tentar.
A história dele ter decidido comemorar o 5 de outubro dizendo
que festejava a data de casamento foi realmente assim?
Sim. Na altura havia os comunistas, que afrontavam a ditadura e
tinham uma acção decisiva, e uma gama a que na altura se chamava a
malta do reviralho, eram contra mas não afrontavam. O meu pai era um
homem do reviralho. Uma maneira de chatear e de aborrecer a terra, um
bocadinho monárquica, com famílias de grande prestígio, era lançar
foguetes no cinco de Outubro. O meu pai era um republicano convicto,
tal como eu. Como era proibido lançar foguetes, arranjou essa
artimanha.
Ele alguma vez lhe contou porque é que decidiu mesmo investir os
12 contos no xarope da velha farmácia?
Contou. O meu pai trabalhou na fabriqueta com 12, 13 anos.
Depois saiu e foi para a companhia de papel de prata, que ainda
existe aqui na Lousã, e a seguir para a Remington, a maior empresa
americana a vender máquinas de escrever. Logo no primeiro ano, entre
cento e vinte vendedores, ganhou o prémio do melhor. Mas quando
começou a Segunda Guerra Mundial, a Remington saiu de Portugal e o
meu pai ficou sem emprego. Nessa altura decide apostar as economias e
comprar a fabriqueta. A partir daí, os outros negócios surgiram.
Era realmente um homem com uma capacidade extraordinária.
Morreu há sete anos, em junho, mas só em maio é que tinha
deixado de vir à fábrica. Ainda era ele que mandava em tudo?
Mandava entre aspas! Digamos que nos últimos dez anos, quando nós
mais crescemos, já era uma espécie de travão. Mas isso acontece
com todos. Tenho o cuidado extremo de não procurar influenciar os
meus filhos, por aquilo que passei com o meu pai. Ele, que era um
homem revolucionário, a partir dos setenta anos fazia exactamente o
contrário: dizia que não valia a pena, estava sempre a puxar para
trás. Muitas coisas que se faziam quase que tinha que ser à revelia
dele. Estava presente diariamente no escritório. E calminha, eu não
tomava nenhuma atitude que fugisse à rotina sem o consultar!
Como é que uma pessoa como ele, anticlerical, do reviralho como
diz, é o fundador do CDS aqui na Lousã?
Como dizia o Sartre, um tipo para ser socialista aos 40 teve que
ser revolucionário aos 18. Está tudo dito. Isso vai-lhe acontecer,
vai acontecer com todos nós. O professor Freitas do Amaral tinha
grande consideração por ele. Eu já sou um homem do PSD, fui dos
primeiros, ainda sou o quinhentos e poucos, mas nunca fui a um
congresso, apesar de todas as grandes campanhas aqui na região serem
feitas por mim. Politicamente, a única coisa que aceitei, apesar de
não ser da minha cor política, foi ser mandatário do professor
Freitas do Amaral quando ele foi candidato à presidência da
República.
Que vazio ficou com a morte do seu pai?
Enorme. Nos quatro anos seguintes, diariamente pensava nele.
Quando tenho alguma decisão mais problemática decido e penso "não
tens de ter medo". Porque ele nunca tinha medo. O que é preciso é
decidir, não podemos ficar em meios-termos. E depois, acreditar
naquilo que fazemos.
Para quando o museu do seu pai?
O mais breve possível! Infelizmente, questões que não vêm aqui
a propósito, atrasaram-nos essa aventura.
Sendo você de engenharia mecânica, nunca pensou terminar o curso
e seguir uma outra carreira?Isto foi sempre a sua paixão?
Nunca pensei terminar o curso... aliás, foi um erro. Na altura
não sabia que curso havia de tirar, era apenas uma questão de ter
mais formação e surgiu a hipótese de poder tomar conta de uma
empresa de tractores que havia aqui. Fui para engenharia mecânica.
Fiz os preparatórios em Coimbra só que na altura só se acabava em
Lisboa ou Porto. Decidi que, em vez de perder três anos, ia para a
tropa para regressar à empresa onde desde os meus nove anos passava
todos os tempos livres com o meu pai.
E agora, chega aqui a que horas? Vem a pé de casa (a 200 m)?
Não venho a pé porque tenho que ir buscar o correio, mas sempre
que estou na Lousã, a fábrica abre às nove e eu às oito e vinte
meto a chave na porta. Estou ali cerca de quarenta minutos sossegado,
sem ninguém me aborrecer, a ver o correio e a responder.
E sai daqui a que horas?
Saio sempre por volta das seis e um quarto para ir tomar café com
uns amigos e regresso por volta das sete. Fico até às oito, altura
em que vou para o campo de râguebi onde estou cerca cinco, dez
minutos a ver como é que correm as coisas.
Essa rotina de estar com os amigos mantém-se há quantos anos?
Há trinta, trinta e tal anos. O meu maior prazer é, quando estou
na Lousã, poder ter cerca de quarenta minutos com os meus amigos.
Faço tudo, mesmo quando tenho reuniões em Lisboa, por marcá-las o
mais cedo possível para que consiga almoçar em casa e à uma e meia
ficar meia hora no café.
Toma o pequeno-almoço sempre em casa?
Sempre em casa. Com todos, filhos e netos, vai lá tudo tomar o
pequeno-almoço de manhã. A mesa é colocada para nove, dez, onze
pessoas. E quem está na Lousã vai lá também almoçar. Jantar é
que vão a casa deles. Se formos agora ali a minha casa, estão lá
cinco, seis ou sete netos (são dez no total, a menor acabada de
nascer). Todos os dias estão lá duas funcionárias a tomar conta
deles, a brincar, a dar-lhes formação, etc.
A tropa interrompeu o seu processo de crescimento dentro da
empresa?
De alguma maneira, interrompeu. Por outro lado, deu-me uma grande
experiência. E tive sorte: não havia computadores, não havia
skype, não havia fotografias, mas o meu pai, tal como fazem agora os
maluquinhos do Facebook, tinha sempre uma folha na máquina de
escrever e de quarto em quarto de hora, ou de meia em meia hora ia
dando conta de tudo. Tenho cerca de mil cartas do meu pai, nos
setecentos e tal dias que passei em África, em Moçambique.
Contava-me todas as caixas que saíam, todos os materiais que se
faziam, tudo, tudo.
E respondia?
Escrevia todos os dias. Estava ao corrente de tudo. Foi
fantástico. O meu pai era como um irmão mais velho.
Mas a tropa e a guerra não o marcaram?
Muito. Teoricamente fiz de tudo para não ir para o Ultramar. Fui
um dos melhores classificados no curso de oficiais, fui o primeiro no
curso de sapadores, estava absolutamente convencido que já não ia.
Só que o general Kaúlza de Arriaga, um dos homens mais inteligentes
que conheci, tomou conta da região militar de Moçambique, e chamou
os oficiais todos. Só que muitas vezes a inteligência não chega
para que as pessoas distingam muito bem o que é o bom e mau. Ele
teve realmente graves problemas em Moçambique. Fez a operação Nó
Górdio, um erro terrível. Mexemos num vespeiro. Tive um período em
1970, de Janeiro até fins de Fevereiro, em que tinha quase a certeza
que não regressaria. Foi o pior período da minha vida. Continuo a
pensar que ir a uma guerra e escapar é uma questão de sorte.
Traumatizou-me muito.
Mudemos de assunto. A receita do Licor Beirão é tão secreta
como a da Coca-Cola?
Deve ser mais. Só está na minha cabeça e, neste momento, na do
meu filho Ricardo. O Daniel também trabalha comigo, mas está ligado
às vendas e ao marketing.
São as únicas duas pessoas que a têm? Nem está escrita e
guardada?
Não há ninguém que, neste momento, lhe possa dizer que o Licor
Beirão se faz assim ou assado. Só eu ou o meu filho mais Ricardo.
Sempre são as 13 ervas?
Especiarias! Vêm de todo o mundo. Da China, da Índia, do Sri
Lanka, da Bulgária, de Marrocos, do Brasil.
E já vinham no tempo do seu pai?
Vinham, mas não directamente. Eram todas compradas nas lojas de
especiarias de Lisboa. Sementes e especiarias. De qualidade. Quando
as recebemos, temos de ter a sensibilidade para saber se são mais ou
menos fortes, se têm mais ou menos aroma. Porque é nessa mistura
que nasce o segredo do aroma excepcional do Licor Beirão.
A quem é que vai passar o segredo, além do seu filho?
Não faço ideia, nunca pensei nisso.
E antes era a sua mãe que tinha o segredo, não o seu pai, certo?
Era a minha mãe, até 1971, 72. O meu pai nunca se preocupou
muito com o Licor Beirão. Aliás, um dos grandes erros que o vi
cometer foi quando tinha sete, oito anitos. O Licor Beirão era
sazonal, vendia-se muito no Natal. Como tínhamos a fábrica de
brinquedos íamos em Dezembro uma ou duas vezes até Lisboa a fazer
distribuição, de licor e brinquedos. A caminho de Tomar, um dia,
perguntei-lhe porque vendíamos brinquedos. E ele: "Os licores não
têm futuro, Zé. Ou avançamos para outros negócios... os licores
não se vendem". Naquela altura, vendia-se meia dúzia de caixas a
um cliente, três garrafas a outro, os cafés compravam uma garrafa
de meio em meio ano. Eu disse-lhe: "Oh pai, mas há casas de
licores que já vão na terceira e na quarta geração, o Marnier, o
Cointreau". Eu lia e sabia. E acreditava vivamente que o licor
tinha futuro.
Portanto, a sua mãe é que fazia a pesagem e a mistura?
Ela é que pesava e tratava da destilação e das funcionárias,
na altura tínhamos três ou quatro.
Aprendeu com ela?
Sim e com um homem que ainda está vivo, um funcionário que
trabalhou connosco quarenta e tal anos e que, sempre que pode, me vai
visitar ao café.
Os seus funcionários não conhecem o segredo da mistura?
Não, até porque nem sequer vão à zona das sementes. O segredo
é dividido em três partes e portanto os que contactam com uma, não
contactam com as outras. Mas mais importante que o segredo, é a
marca.
É realmente uma forma única em Portugal de produzir licor?
Sim, o aroma do Licor Beirão é produzido através desse
alcoolatro que produzo, uma essência natural. As artificiais, usadas
na quase totalidade dos licores, são muitíssimo mais baratas. Mas é
como Channel da feira de Carcavelos. Ao fim de umas horas é só
álcool.
Vamos falar de negócio: acaba de voltar de Espanha, é um mercado
prioritário para o Licor Beirão, usando Futre como alavanca?
É uma aposta. O Futre vai ser a nossa imagem porque é um homem
bem considerado pelos espanhóis. Usa várias frases: "Si somos
hermanos, compartamos el melhor licor como hermanos"; "Si
compartimos el melhor jugador e entrenador, hagamos o mesmo com el
melhor licor", etc.
Além de Espanha, quais são os outros grandes mercados em que
aposta?
Suíça, Estados Unidos e Angola. Angola é complicado devido às
transferências, claro, mas está a ter um crescimento muito
significativo.
Está a preparar novos produtos? Para novos públicos? Chegou a
muitos jovens com o caipirão no Rock in Rio...
Gostaria de dizer, mas isso é... segredo.
Qual é o volume de negócios neste momento, e quanto é que vale
em termos de mercado interno e mercado externo?
Neste momento exportamos cerca de 12% a 15%. Mas só estamos com
uma capacidade produtiva na casa dos 70% e já estamos a delinear uma
nova linha de enchimento. O mercado interno, se estabilizar ou até
se descer um bocadinho não me preocupa. Não quero que o Beirão
seja um licor de moda, nem que as pessoas o bebam por beber. Quero
que sintam prazer, que seja quase como uma necessidade.
Gosta de Licor Beirão?
Muito. Mas não o bebo, provo-o todos os dias, de manhã, quando
sou chamado para verificar. Não o bebo para não criar habituação
e pensar que todo ele é bom.
Para quantos países já vende?
À volta de 40 países, directamente. Indirectamente,
vende-se em cerca de 78, 80 países. Afeganistão, Timor, Malásia...
até nas Bahamas!
Um licor que acaba em "ão" promove-se bem lá fora?
Aí tive azar, muito azar, e fiquei triste quando o nosso Durão
Barroso mudou para José Manuel Barroso. Dava para fazer uma
brincadeira e sobretudo ia habituando o público europeu a pronunciar
a palavra "ão".
Visita muitos países, viaja muito?
Viajo bastante. Antigamente fazia muito campismo com a família,
com os meus filhos, mais de vinte anos (ao almoço contara que
acampar com quatro crianças os cansava, enquanto nos hotéis ninguém
os detinha), por toda a Europa. De há dez anos para cá costumo
fazer um a dois cruzeiros por ano, um com a mulher e o outro com dois
dos quatro filhos. Rodam!
Vai continuar com os cruzeiros após este acidente?
Sim, isto não foi nenhum problema. Há duas grandes forças que
comandam o mundo, a religião e o capital: religião porque forma os
homens, capital porque os compra. E há uma terceira, o sexo. E isto
só pode ter acontecido por alguma razão dessas. Hoje o "Diário
de Notícias" confirma: havia uma rapariga na ponte. Continuo a ter
muita confiança nos navios e ainda mais confiança na aviação.
Tenho menos receio de ir a Paris, Londres à Suíça e voltar no
mesmo dia de avião, do que as viagens que faço duas ou três vezes
por semana a Lisboa... de carro.
Em 2008, no início desta crise, disse que não precisava de
apoios do governo. E agora?
Também não. Sei que há agora umas linhas de crédito para
fomento à exportação, já falámos nisso, eu e o meu filho, é
possível que vamos consultar essa hipótese, mas felizmente esta
empresa nunca viveu de subsídios do estado.
Nunca viveu acima das suas possibilidades?
Tal e qual. O meu pai foi sempre um homem muito poupado, a ideia
dele era capitalizar o máximo, ter um fundo de maneio forte, e
negociar à cabeça. Porque quando se tem capital pode-se comprar as
coisas baratas. E só vende bem quem comprar barato.
Os portugueses com menos dinheiro bebem menos ou bebem mais, para
esquecer?
É natural que bebam menos. Reflectiu-se com um ligeiro decréscimo
nas vendas em 2011. Cerca de 4%. E como o volume de vendas para o
exterior não é tanto como o interno, crescemos muito lá fora mas
não compensámos a quebra interna.
Qual é a actual facturação do Licor Beirão? E quantos milhões
de garrafas produzem por ano?
Está nos 18 milhões de euros. Quatro milhões de garrafas.
Isso permite-lhe sustentar o negócio, já deixou tudo o resto que
havia do seu pai?
Começámos a concentrar a nossa actividade no licor e na
aguardente de pêra aqui dos pomares da quinta. A minha ideia era,
quando os meus filhos acabassem os cursos, reiniciar essas
actividades. Mas agora, à velocidade com que tudo se renova e ao
progresso industrial e tecnológico, passados dois anos está
desactualizado. Recomeçar qualquer coisa tinha que ser a partir do
zero. Pus isso completamente de lado.
Quantos trabalhadores tem?
32.
Doze, treze, em permanência, na colocação das fitas amarelas
das garrafas?
Sim. Não há máquinas que o façam. Já procurei. Já mandei cá
vir gente. Não há outra forma de colocar as fitas. E sabe qual é o
maior castigo? É tirar uma das mulheres de lá... Fazem aquilo sem
olhar e conversam, conversam... O resto é já tudo automático.
Modernizei com capitais próprios...
Sem apoio dos bancos?
Dos bancos sirvo-me apenas para me pagarem rendimentos! (risos)
Que ordenados paga, em média?
Os ordenados aqui não são altos, mas em média, na casa dos 900
euros.
Nos últimos tempos despediu alguém, por causa da crise?
Não, não. Antes pelo contrário. Tenho contratado e penso que
vou contratar mais gente.
Esta é uma empresa familiar?
Essencialmente familiar, exacto. Tenho cá dois dos meus filhos, o
Ricardo e o Daniel e uma nora. Os outros seguiram outras vias. Um é
engenheiro informático, o Gonçalo, tem uma empresa de informática
em Coimbra. E a Raquel é psicóloga, trabalha aqui numa associação
da Lousã. Não tive tanta influência quanto queria, infelizmente
(risos). Gostaria que a mais velha tivesse seguido gestão ou
economia. O outro era impossível, com oito anos mexia nos
computadores como se joga à bola. Nestes dois, devo ter tido alguma
influência, sobretudo no Daniel. Até foi um excelente jogador de
râguebi (o seu desporto de eleição), internacional, capitão da
selecção de juniores, dedicava-se a 100% ao desporto. Queria ser
professor de educação física. Sem o proibir, fui-o condicionando,
conversa de travesseiro.
E não é difícil a relação?
As empregadas mais velhas tratam os meus filhos por tu. Não os
vêem como filhos do patrão! Desde miúdos que andaram aqui, até
com empilhadoras, uma alegria. E não tinham ordem para dar uma
ordem. Tinham que se entender como sendo os funcionários menos
qualificados. Penso que é errado forçar um filho a seguir as nossas
pisadas, mas dei-lhes a entender, como faço agora com os netos, que
vêm aqui à fábrica me fazem relatórios (mostrara-os antes)...
Mas paga-lhes!?
Negociamos o preço, as tabelas (um a cinco euros!). Reconheço
que os estou a condicionar.
Li que desde Miguel Torga, a Alain Prost e até Pedro Abrunhosa
são fãs do Licor Beirão. Há outros nomes importantes que sabe que
o bebem?
Para já, o Paulo Futre! (risos) Soube há tempos, que o do PCP, o
Jerónimo, também é um apreciador.
Costuma mandar-lhes licor?
Sempre que sei que alguma figura importante bebe licor Beirão,
tenho todo o prazer de os considerar como embaixadores da marca.
Mais uma vez, o marketing?
Sempre o marketing à frente. Só não mandei ao Jerónimo porque
não sei a direcção dele e tive receio de ele poder levar a mal...
As suas duas irmãs, já me disse, não tiveram interesse em ficar
na fábrica...
A Manuela vem cá uma vez por mês, ou quando há uma reunião. A
Susana é reformada da função pública, também cá costuma vir de
tempos a tempos. Mas não têm influência directa, não estão
dentro do negócio.
Porque é que se tornou louco por râguebi? Jogou futebol também,
aqui no Lousanense...
Era estudante em Coimbra, fui experimentar o râguebi com dezoito,
dezanove anos, e comecei a gostar. Aquilo é como a cerveja,
aprende-se a gostar. Durante quatro anos, antes de ir para o
Ultramar, fazia râguebi e futebol em simultâneo. Quando voltei
ainda fiz mais duas épocas de râguebi na Académica. Aos 32 anos
decidi lançar o râguebi na Lousã. Mas ninguém conhecia uma bola
de râguebi, não dava na televisão, não vinha na comunicação
social. Decidi dar aulas de educação física numa escola
preparatória. Na primeira aula mostrei a bola de râguebi a um grupo
de vinte miúdos. Não sabiam o que era, todos se riram!
Como conseguiu?
Comecei a fazer jogos com equipas de Coimbra, passados três anos
tive uma equipa de juvenis. Passados cinco anos tive a primeira
equipa de juniores e passados oito, com aqueles jogadores que
começaram quando lhes mostrei a bola, mais uns quantos que foram
chegando, fizemos a primeira equipa de seniores. Estávamos em 1981.
Começámos a ter contactos com equipas estrangeiras, fomos a Madrid,
fomos a França, e em 87 foi inaugurado o estádio de râguebi [a
câmara vai dar-lhe o seu nome]. Neste momento tenho mais de duzentos
atletas. Durante vinte e poucos anos fui treinador de todas as
equipas da Lousã, o que me ocupava todos os dias, mal saía da
fábrica, das sete às nove. Tinha jogos por todo o país, ao sábado
em Elvas, ao domingo de manhã na Bairrada ou no Porto, e ao domingo
à tarde em Lisboa. Fiz um acordo com a minha mulher...
Que acordo?
De Outubro a Maio, todos os fins-de-semana eram da minha conta. De
Maio a Outubro, eram da minha mulher. Tinha que ir à praia, coisa
que detesto, que visitar os meus sogros... Custava-me mais o defeso
do que o râguebi! Mas verdade é que conseguimos conciliar e nunca
mais tivemos o mínimo problema. Agora saio todas as noites por volta
das nove horas com ela. Metemo-nos no carro, vamos a ouvir música e
a pôr os problemas dos filhos, das noras, em dia. Porque se ficamos
em casa não falamos um com o outro! Eu fico no computador, ela
começa a costurar ou a pintar. Na altura ela compreendeu que era a
minha terceira paixão: a primeira obviamente a família, a segunda o
Beirão, e a terceira o râguebi. E no râguebi tive uma coisa de que
me orgulho tremendamente, quase tanto como ter lançado o slogan "O
licor de Portugal", a descoberta das novas camisolas...
Isso não sei...
Em 2002, fomos a primeira equipa mundial a ter camisolas justas.
Antes eram muito largas, permitiam a "placagem". Andei durante
quatro ou cinco anos a fazer experiências. Utilizava a fita adesiva
das caixas do Licor Beirão e apertava-as. Em 2002, com a empresa
Tadeu e Francelina, que fabricava licras para a natação e para o
ciclismo, lancei novas camisolas num torneio de sevens em Lisboa. Foi
uma surpresa brutal, todos os meus amigos se riram, fomos gozados,
passei as maiores vergonhas! Estava nesse torneio o Serevi, o melhor
jogador de râguebi de sete do mundo, um deus nas ilhas Fiji. E
quando viu os jogadores da Lousã com as camisolas apalpou e fez-me
um gesto de "óptimo". Passados quinze dias, a Federação
pediu-me uma camisola emprestada e fomos a primeira selecção do
mundo a usar camisolas justas. Um ano depois estavam em todo o mundo.
Já foi ver as grandes selecções de râguebi a Fiji, Samoa, Nova
Zelândia?...
Tudo! Ainda agora, estive três semanas no campeonato do mundo da
Nova Zelândia, vi vários jogos.
Também foi jornalista?...
Isso foi outra coisa engraçada. Em 1967 juntámo-nos um grupo de
sete rapazes e fizemos um jornal, o Trevim. Já vai com 45 anos. Já
foi semanal, agora está quinzenal. Todos os números têm um artigo
meu, normalmente sobre râguebi, outras vezes problemas sociais da
terra.
Como é que acha que está Portugal neste momento, visto da Lousã
por um homem que anda pelo mundo?
Portugal está mal. Mas vai dar a volta. Tenho aqui funcionários
que há dez ou quinze anos não tocavam numa enxada para produzir uma
batata e neste momento estão agarrados à terra. Tivemos este
período áureo em que pensávamos que éramos ricos, normalmente
quem recebe dinheiro emprestado pensa que é rico, esquece-se que os
juros se vencem dia e noite, sábado e domingo. Agora vamos passar um
mau bocado.
Como é que lá de fora olham para nós?
Sinceramente, não vêem aquele povozinho, têm muito mais
respeito por nós do que com os gregos e os húngaros. Vêem-nos
realmente como um povo muito especial! Fazer uma revolução
praticamente sem tiros foi uma coisa absolutamente extraordinária!
E acha que agora não vai haver tiros sociais, não vai haver
revolta social?
Vai, vai. Espero que haja algum bom senso, sobretudo da parte
política, em saber amenizar a contestação. Mas ela tem que
existir, o povo sente-se muito prejudicado. Não é por lhe irem ao
bolso, é com a falta de vergonha, com a falta de reformas para
reduzir o assalto ao bolo dos políticos.
A mão no "pote"?
Sim, é isso que revolta mais o povo. Aceita reduzirem-lhe
vencimentos, aceita passar sacrifícios, mas não aceita que aqueles
que estão no poder, metam a mão no pote. É isso que está a
acontecer. E não há primeiro-ministro que consiga fazer grandes
reformas, tem que haver uma entidade superior, alguém de fora. É
possível se o primeiro-ministro tiver coragem. Ele parece um rapaz
sensato, mas basta ver o que é que prometeu antes de ganhar as
eleições e o que está a fazer! Eu estou à vontade para falar
porque sou PSD. Devia ser mais duro, sobretudo com todos os
parceiros, com todos os directores de grandes empresas, que estão a
prostituir isto tudo.
Concorda com o acordo com a troika?
Estão-nos a obrigar a passar maus bocados porque nos endividámos
demais. Somos obrigados a pagar o que devemos num curto espaço de
tempo, isso é que está errado, deviam-nos prolongar o prazo. Ficar
a dever, não. A mim enxovalhava-me, se dissessem "não pagamos".
Mostrou-me há bocado uma caderneta com as suas primeiras
poupanças, começou a ganhar dinheiro a vender jornais?
É verdade! Tinha oito, nove anos, o meu pai era agente aqui na
Lousã. Eu vinha da escola e ia com uma sacola entregar jornais aos
assinantes. E nas férias, de manhã. A comissão de cada jornal eram
vinte centavos, dois tostões, o meu pai dava-me um centavo por cada
jornal que entregasse. Em 1950, cá está, Agosto 29, depositei na
Caixa Geral de Depósitos cinquenta e sete escudos e cinquenta
centavos. E depois, em Outubro, seis de Outubro, mais cinquenta
escudos. Essa ideia de poupar foi-me sempre incutida e também
procuro incuti-la aos meus filhos.
Os portugueses poupam pouco?
Durante trinta anos, a actividade bancária não teve o bom senso
de levar as pessoas a poupar, mas sim a consumir, a endividarem-se.
Há uma culpa mútua entre as entidades bancárias e o estado, houve
uma prostituição entre eles, saíam dos bancos para o governo,
depois faziam negócios para os bancos. Eu sou obrigado, quando faço
publicidade ao Licor Beirão, a usar o "beba com moderação". E
eles deviam ter sido obrigados, com pessoas que não têm capacidade
para gerir os seus dinheiros, a emprestar com moderação.
Hoje em dia, considera-se um milionário?
Na família, na saúde, no licor e no râguebi, sou mesmo
milionário.
E financeiramente?
Estou muito bem, muito bem mesmo.
Perguntas de algibeira
O livro da sua vida?
"Papillon", do Henri Charrière. São oitocentas, novecentas
páginas, li-as exactamente em 24 horas. Foi no tal período em que
eu perdi alguns homens no Ultramar, tive a sensação nítida que não
regressaria e foi um livro que me impressionou bastante.
Uma cena de um filme que nunca esquecerá?
O desembarque no "Dia mais Longo".
A última vez que chorou?
Isso é quase todos os dias. Sou muito emotivo, sobretudo com os
meus netos.
O que é que ainda vê na televisão, se é que ainda vê
televisão?
Normalmente, os canais temáticos. Noticioso, a RTP1, a SIC. Vejo
tudo em simultâneo, estou sempre a mudar de uns para os outros.
Aliás, é impossível lá em casa verem televisão comigo, também
não autorizo que haja mais que uma televisão para que, quer queiram
quer não, estarmos todos na mesma sala.
O lema da sua vida?
Lutar por aquilo em que acreditamos.
Uma música para namorar?
Como sou um fanático da Amália Rodrigues, não é bem uma música
ideal para namorar, mas é a que eu ouço todos os dias. Tenho uma
centena de discos da Amália.
Um lema contra esta crise?
Que o primeiro-ministro cumpra aquilo que prometeu.
Quantos minutos gasta por dia a ler jornais?
Seguramente, uma hora e meia. Das cinco às cinco e meia, da
manhã, estou a ler jornais. Aquilo que não consigo ler na véspera.
Acordo normalmente às cinco e meia e depois estou meia hora a ler.
De quantos em quantos minutos é que vai ao seu mail?
Se estou no escritório, conforme eles vão caindo. Se estou fora
do escritório, com esta história do iPhone e do iPad, de meia em
meia hora estou a consultar.
Um lugar para passar a reforma?
Aqui na Lousã, na quinta. O meu melhor dia de férias é quando
há um feriado na fábrica e passo aqui na Lousã.
É verdade que se esqueceu de pedir a reforma?
É verdade. (risos) Já a tenho, pedi-a com dois anos de atraso.
Esqueci-me. Fui avisado por um funcionário da empresa!