"Vive com níveis de stress elevados; acabou de receber uma resposta negativa; não consegue atingir o seu objetivo; enfrenta um superior hierárquico conflituoso; lida com discussões "quentes" em casa... As emoções estão presentes no nosso dia-a-dia e não somos ensinados a geri-las desde cedo. O que aprendemos é com a experiência e nem sempre as lições que tiramos são as melhores."
É assim que Paulo Moreira - autor do livro Gerir emoções - um guia prático, cuja apresentação ao mercado está prevista para o próximo dia 22, em Lisboa, sob a chancela da Idioteque - nos conduz ao "seu" mundo da inteligência emocional, agora sob a forma de uma "abordagem transversal, aliando ciência com a prática".
"Este é um livro científico-prático e tanto pode ser utilizado para situações do foro pessoal ou amoroso como profissional", a pensar num público adulto - refere o autor, consciente de serem "raros os livros, escritos por um português, que abordem a temática" desta forma.
Nós e os outros
Paulo Moreira explica que gerir uma emoção pode ser feito a dois níveis. No plano intrapessoal, "sermos capazes de gerir as nossas emoções, faz que fiquemos mais protegidos contra eventos stressantes, nos tornemos mais resilientes, com maior tolerância à frustração e que consigamos gerar mais emoções positivas. Todos estes resultados estão ligados a comportamentos mais saudáveis e eficazes, levando a um maior desempenho".
Por outro lado, prossegue o autor, no plano interpessoal, "sermos capazes de entender as emoções das outras pessoas e gerirmos as nossas reações aos comportamentos dos outros permite-nos desenvolver relações mais satisfatórias e sermos mais eficazes a resolver conflitos".
Daí, sublinhar: "Como sabemos, a parte relacional é determinante no mundo dos negócios. Então, como podemos verificar, gerir emoções é tão importante para a nossa saúde mental, como para sermos mais bem-sucedidos". Com outras palavras: "Quem consegue gerir melhor as suas emoções, obtém um melhor desempenho académico e profissional."
Quatro etapas
Mas como chegar lá? Refere Paulo Moreira que "uma emoção se desenvolve em quatro grandes momentos e que é nesses momentos que podemos intervir", reservando para o leitor a oportunidade de ler na obra o que pode fazer em cada um desses estágios.
Certo é que "a pandemia veio agravar algumas situações mais delicadas e trouxe outras novas", diz ao autor, sustentando com números do Infarmed e da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) o comprovativo do aumento do consumo de antidepressivos, ansiolíticos, sedativos e hipnóticos, desde 2020.
Factos que, em sua opinião, mostram "que tem existido uma deterioração geral da saúde mental desde o início da pandemia. E se já era necessário aprender a gerir as nossas emoções, após a pandemia esta necessidade tornou-se ainda mais relevante".
No entanto, Paulo Moreira assume que não consegue afirmar onde é mais difícil gerir a parte emocional: se é na família ou nas organizações. "Depende de muitos fatores. Se, por um lado, existe uma ligação afetiva mais forte no lado familiar, levando muitas vezes a que existam mais conflitos e discussões mais "quentes", por outro, nas organizações é comum existir muita pressão de resultados, ambientes de trabalho tóxicos e onde temos de suprimir muitos comportamentos para nos enquadrarmos dentro das normas vigentes. Cada uma dessas áreas tem características que tornam a gestão emocional desafiante."
QI versus emoção
Mas é preciso ser inteligente para saber gerir as emoções?
"Quando se mede a inteligência através de testes de QI, mede-se a inteligência cristalizada (baseada em conhecimento verbal) e a fluida (que permite pensar de forma abstrata e resolver problemas). Alguns estudos mostram uma relação entre o QI e a capacidade de gerir emoções - quanto maior o QI, maior esta capacidade - enquanto outros não encontram evidências. Mas grande parte destes estudos utiliza questionários de autorrelato ou tarefas feitas em ambiente de laboratório. Na prática, no mundo real, a capacidade de gerir emoções é muito mais desafiante e diferente do que se estuda, muitas vezes, em laboratório. Nas minhas formações, costumo ensinar ferramentas de gestão emocional e desafiar os meus alunos a colocar em prática essas ferramentas, no seu dia-a-dia. Costumo fazer medições antes e depois das formações e obtenho resultados positivos consistentemente, independentemente do nível de QI do aluno. Então, a minha experiência diz-me que a inteligência e a capacidade de gerir as emoções não estão diretamente ligadas, pelo menos de forma significativa. Qualquer pessoa pode melhorar a forma como regula as suas emoções."
Além de formador, Paulo Moreira, licenciado em Psicologia pela Universidade de Lisboa, fundou a marca "Treino inteligência emocional" e também é empresário, sendo CEO da EQ-Training, Lda. Na sua ficha de apresentação, refere ser "certificado pelas três grandes correntes mundiais" na inteligência emocional, ligadas a Daniel Goleman, Richard Boyatzis, John Mayer, Peter Salovey e David Caruso". No currículo há ainda um best-seller: Inteligência emocional - uma abordagem prática.
No fundo, Paulo pretende que o novo livro seja uma ferramenta para "quem já esteve tão irritado que disse coisas de que depois se arrependeu, ou se sentiu tão ansioso que paralisou ou esqueceu o que ia dizer... Também, algures na nossa vida, já nos sentimos tão confiantes que não analisámos bem os riscos do nosso comportamento e tomámos uma má decisão ou estivemos tão tristes que sentimos que a vida tinha perdido o sentido."