João Batista terminou o primeiro livro quando ainda estava no secundário. Aos 18 anos, João sonhava em publicar a sua obra. Porém, depois de fazer uma abordagem ao mercado editorial e enviar o seu manuscrito para diversas editoras, apercebeu-se que a publicação do seu livro não seria tão simples como tinha idealizado. “Costumo dizer que ainda hoje não sei se o livro é bom ou não, porque não tive resposta, não tive nenhum feedback”, conta, em entrevista, ao Dinheiro Vivo.
No entanto, como refere, mais tarde veio a perceber que todos os empreendedores começam assim. João, ao invés de encarar a situação como uma dificuldade, viu nela uma oportunidade: "pensei, isto não é forma de tratar os novos autores. Não é desta maneira que vamos conseguir novos autores e novos livros. Não é assim que vamos valorizar a nossa cultura e a nossa escrita, portanto, tem de haver uma forma melhor de fazer as coisas”, recorda. Assim, depois de conversar com outros autores e perceber que o problema era comum, o jovem de 24 anos, iniciou a Livros de Ontem, uma editora que aposta em novos talentos.
Enquanto estudava Ciência Política e Relações Internacionais, João candidatou a sua ideia ao prémio de empreendedorismo da Faculdade Nova em parceria com o Banco Santander. A editora saiu vencedora da primeira edição. Desta forma, com o apoio financeiro e suporte logístico da instituição, o jovem conseguiu formalizar a sua empresa.
Nádia Amante, designer de 30 anos, e cofundadora da Livros de Ontem, juntou-se ao projeto quando viu uma proposta na internet. Com a vida profissional e académica guiada pela Livros de Ontem, os jovens contam que o investimento inicial do projeto fora bastante curto. Dado que o montante do prémio rondava um valor próximo dos quatro mil euros, e que parte do financiamento da editora (1500 euros) foi obtido através de crowdfunding (financiamento vindo da comunidade), tal não exigiu uma quantia muito avultada por parte dos dois sócios.
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Os jovens trabalham com edições pequenas para garantirem o fator de exclusividade ao autor e ao leitor.[/caption]
Segundo os jovens, "o crescimento deste projeto tem sido feito internamente, de forma muito sustentável. Tem sido um projeto com pés e cabeça". Com o crowdfunding no seu ADN, a Livros de Ontem criou o conceito de crowdpublishing, a junção do financiamento da comunidade com a edição. Num mercado tão competitivo, "praticamente dividido entre duas holdings - a Leya e a Porto Editora, que detêm quase 100% do mercado", João refere que a Livros de Ontem é "talvez o projeto mais inovador que surgiu no mercado nos últimos anos". "Estamos a criar e a desenvolver uma nova forma das pessoas lidarem com a publicação e edição de livros", conta João.
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Em parceria com a plataforma de crowdfunding da PPL, o site da editora serve de montra às obras disponíveis e funciona como validação do mercado: os livros passam um período de teste antes de serem postos à venda. O processo minimiza o risco para o autor pois a obra só será publicada caso tenha sucesso durante os 30 dias de experiência. Com um processo de publicação, que pode ir dos 500 aos 900 euros, e contando já com mais de 20 autores exclusivos, o modelo de negócio da editora permite ao autor publicar sem investimento. "A única coisa que é pedida é a sua colaboração na publicação do livro, na parte da divulgação e da campanha", afirma o jovem, que quer publicar três livros por mês até ao final do ano.
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Segundo o fundador da Livros de Ontem, em Portugal não há muitas portas abertas para os jovens autores conseguirem publicar a sua obra.[/caption]
Montra de talento
João Batista e Nádia Amante contam que os escritores têm encarado muito bem esta nova forma de publicação, porque percebem as mais-valias que a exposição mediática lhes traz. João Batista explica que, segundo este modelo de publicação, não pode existir reservas por parte do autor. "É aquele momento em que o autor deixa de ser um autor. Um escritor escreve para a sua gaveta e, aqui, vai realmente dar de caras com o mercado editorial, uma coisa vastíssima, disforme e difícil de compreender", sublinha. "O primeiro livro que publicámos, o "Nós Vida", foi escrito por Álvaro Cordeiro, uma pessoa que tinha este livro guardado na gaveta há mais de 30 anos", relatam. Para os sócios, a Livros de Ontem consegue garantir uma qualidade de trabalho diferente, algo que levou Álvaro Cordeiro a dar esse passo e a entregar-lhe o seu manuscrito.
Os dois amigos esclarecem que "qualquer pessoa pode enviar uma proposta, nós fazemos a análise e a seleção desses originais. Quando achamos que têm qualidade e que coincidem com a nossa linha editorial fazemos todo o trabalho que se segue: paginação, revisão, capa, marketing, lançamento e todo o material de divulgação necessário ao crowdfunding - o vídeo, o texto, as recompensas. Tudo isso é montado por nós".
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Nádia afirma que, inicialmente, lançavam no máximo 150 livros. Contudo, com 867 apoiantes atualmente, já fazem muito mais, "pois cada vez há mais clientes e mais leitores interessados". A Livros de Ontem apresenta um fator de exclusividade. João refere que "há um valor sentimental" relacionado com os seus livros, devido à personalização, o jovem vê-os como "um objeto de colecionismo". Com recompensas exclusivas para o leitor, o apoiante em regime de crowdfunding recebe o livro em primeira mão por um valor mais baixo, tem direito a workshosps e vê o seu nome na última página da obra que apoiou."Um dos últimos livros publicados é feito a partir de uma pintura de azulejo. Por isso, a recompensa é um azulejo verdadeiro", acrescenta.
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Com a necessidade de trabalharem juntos, "para que as ideias fluíssem mais depressa", os sócios criaram uma livraria-café sediada em Benfica.[/caption]
Focados no novo projeto, uma livraria-café, sediada em Benfica, que confessam ter surgido pela necessidade de criar um espaço onde pudessem trabalhar juntos, os jovens contam que a loja é uma mais-valia por lhes permitir ter uma sala para os workshops e para as tertúlias que costumam realizar. Além disso, "desde que temos as portas abertas já tivemos projetos novos", conta Nádia.
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Os dois sócios acreditam que o mercado português é muito fechado. "O mercado tradicional da publicação em Portugal está baseada na compra de direitos de internacionais de bestsellers e de livros que já provaram o seu valor nos mercados internacionais e que são, por isso, uma aposta fácil para o mercado português", constata João. Quando questionados sobre os novos escritores portugueses, os dois colegas, explicam que esta nova geração "escreve muito e muito bem (...). Produz muita poesia, tem uma escrita muito madura e com temas muito difíceis. Não é uma geração de escrita de livros de cordel. Esta geração é inspirada na antiguidade clássica e em temas mais sombrios".