O ex-presidente uniu-se ao seu ódio de estimação político em
troca de 90 segundos de tempo de antena numa eleição. O
sindicalista que uma parte do Brasil e o mundo inteiro amam é uma
obra de impressionismo político
Os anglo-saxónicos usam a expressão "look like a Monet"
(parece um Monet) para definir alguém ou alguma coisa que é muito
mais bonito à distância do que de perto. Como Lula.
O mundo olha para o ex-presidente do Brasil como se deve olhar
para um Monet: com uns metros de intervalo. E assim é difícil não
ficar impressionado. Mas, da mesma maneira que à medida que nos
aproximamos da tela de um impressionista notamos mais as pinceladas
toscas e menos o extraordinário resultado de conjunto, também
quanto mais perto estamos do ex-sindicalista mais o tosco se sobrepõe
ao belo.
Lula é um pernambucano migrado para a Grande São Paulo, um
metalúrgico semi-analfabeto que perdeu parte de um dedo a trabalhar,
um sindicalista que se destacou no combate à ditadura militar e à
defesa dos trabalhadores, um político que foi derrotado, uma, duas,
três vezes até ganhar a Presidência da República do quinto maior
país do mundo, um presidente que dividiu a riqueza como nunca
ninguém antes na história do Brasil, um estadista que ajudou o país
a tornar-se potência emergente. Magnífico, como Les Meules, de
Monet.
Mas olhemos Lula de perto e veremos as pinceladas toscas da sua
biografia. Veremos os escândalos de corrupção que, se não
patrocinou, pelo menos permitiu, as fortunas que se acumularam em
torno do seu gabinete, as alianças indignas a que, por um voto, se
submeteu e os abraços falsos que deu a quem não merecia mais do que
o seu desprezo. Os meios que permitiram aqueles gloriosos fins
descritos no parágrafo acima são o problema. Nos meios de Lula
raramente se encontram virtudes.
Por Lula entenda-se também, e sobretudo, lulistas - o pecado
mora sempre muito mais nos "istas" do que no seu criador, da
mesma forma que os cavaquistas foram muito mais nocivos a Portugal do
que Cavaco e por aí adiante pelo mundo e pela história fora - mas
dos "istas" não reza a história.
No fim de um jogo de futebol com um resultado cruel costuma
dizer-se "o futebol é isto mesmo", pois no fim do exercício do
poder também se pode dizer "o poder é isto mesmo". Absolvamos
então Lula, provisoriamente, ainda para mais agora que ele está em
período pós-presidencial e pós-operatório.
Mas é precisamente agora que o pior da figura está a vir ao de
cima - em vez do grande estadista emerge o taticista de escrúpulos
duvidosos. Ao autopropor-se para eventual sucessor da sucessora Dilma
Rousseff deixou a presidente "sem graça", como se diz no Brasil.
Ao (supostamente) ter pressionado um juiz do caso do mensalão, o
escândalo de corrupção que atinge a medula do PT, mostrou o seu
lado mais "sem noção", como se diz no Brasil. E ao abraçar o
seu ódio de estimação Paulo Maluf, o político que está para o
Brasil como Bernard Madoff está para Wall Street, mostrou o seu lado
mais "sem vergonha", como se diz no Brasil.
Luluf, o novo monstro político segundo um humorista brasileiro,
nasceu da necessidade do PT de ter mais um minuto e meio de tempo de
antena na corrida à prefeitura de São Paulo, 90 segundos esses, que
o partido de Maluf, um resto do ARENA que sustentou a ditadura que o
metalúrgico Lula combateu, lhe pode proporcionar. E Lula está
obcecado com a eleição do seu novo animal de estimação político,
Fernando Haddad, numa cidade historicamente avessa ao PT. Lula saiu
do poder mas o poder não sai de Lula.
Vista de perto uma lula parece um polvo.