Esta entrevista faz parte de uma série de conversas que o Dinheiro Vivo/DN teve com enólogos e produtores, em plena época de vindimas, sobre o estado da arte do setor e os desafios dos próximos anos.
A seca prolongada, na sequência das alterações climáticas, está a tornar-se estrutural no setor. Que evidências têm de que o modelo produtivo atual continua a ser compatível com o novo regime climático?
Poderá não ser compatível, há muitas oscilações extremes…recordo que houve sempre no Alentejo durante o verão dias com temperatura máxima de 40ºC, mas atualmente é maior a frequência e o número de dias com estes valores. As evidencias que temos estão diretamente ligadas a área de vinha velha com mais de 60 anos, sem irrigação e como a planta, sendo tão resiliente, se consegue manter e atenção redobrada com praticas sustentáveis. Torna-se mais que obvio que o clima está a mudar, especialmente o aumento da temperatura média estando a subir, faz com que o ciclo vegetativo da videira seja cada vez mais rápido, fazendo com que estejamos mais atentos nas fazes de maturação das uvas, estando preparados para vindimas cada vez mais cedo e para as terminar mais depressa.
Que quebra de produção antecipam - se é que antecipam - este ano e até que ponto essa redução ameaça a viabilidade económica das explorações mais pequenas?
Não prevemos quebra relativamente a 2025 mesmo tendo havido uma serie de dias com temperaturas elevadas no início do ciclo de maturação. As pequenas e grandes explorações tem que valorizar mais os seus produtos, inevitavelmente os preços dos vinhos tem que subir.
Com custos de água, energia e mão de obra em máximos históricos, que margens operacionais esperam manter? Há risco real de encerramentos ou consolidação forçada no setor?
A única forma de manter a margem operacional é aumentar o preço dos produtos e serviços na produção, não na restante cadeia, porque os preços já estão bem altos. Todos já sentimos o aumento de preço galopante dos vinhos na restauração, está incomportável. O que mais nos preocupa, é a falta de mão de obra qualificada, cada vez mais é difícil de conseguir, nem se tratando de valores mas sim de quantidade e qualidade dessa mão de obra. O setor irá passar por uma fase de adaptabilidade, onde os mais fortes e melhor implementados no mercado, vão prosperar. "Matámos a galinha dos ovos de ouro", com a subida em flecha do turismo em Portugal, e a subida vertiginosa dos preços do vinho na restauração o nosso sector é um dos que está a sofrer mais.
Há muitas casas que vão fechar as portas, se não diversificarem o modelo económico, se não se reinventarem não haverá alternativa se não a insolvência.
Como é que a redução de volume e a alteração do perfil dos vinhos afetam a capacidade de competir em mercados externos onde o preço e a consistência são decisivos?
A consistência é determinante em qualquer mercado, teremos que fazer mais prospeção e encontrar mercados/clientes alternativos, há sempre um perfil de vinho para cada mercado. Cada casa tem o seu perfil, a sua identidade pelo que com persistência conseguimos continuar competitivos no nosso segmento, que é premium.
Como se combate esta nova vaga de campanha contra o consumo de vinho, em todo o mundo, mas de forma particular em Portugal onde há cada vez mais vozes a alertar para os efeitos nocivos do seu consumo?
Não vai deixar de existir o consumo de vinho, se a comunicação for feita de uma forma assertiva sem extremismos podemos considerar o consumo ponderado/moderado vai continuar. O sector vitivinícola não pode de forma alguma imiscuir-se com outros sectores de bebidas alcoólicas, tem que existir um cuidado na mensagem passada para o consumidor. Politicamente correto será sempre a ponderação e cuidado com o excesso de consumo de vinho.
Que investimentos estão a ser feitos e decisões concretas estão a ser tomadas para adaptar a vinha ao novo clima e à nova realidade de consumo?
Procura de castas mais resistentes ao calor, voltar a plantar castas autóctones, fazer uma gestão eficaz da água, monitorizando, mas fundamentalmente passar por praticas sustentáveis que irão permitir um equilíbrio da planta e a sua produção qualitativa e quantitativa. A Quinta do Paral é a maior detentora de vinhas velhas da sub-região da Vidigueira, onde encontramos a maior variedade de castas autóctones, como Antão-Vaz, Perrum, Diagalves, Manteúdo, Aragonez, Trincadeira, Tinta Grossa, Moreto, vinhas estas com mais de 60 anos, estando naturalmente preparadas para tudo e bem adaptadas.
Se as condições climáticas e as reduções sucessivas de consumo dos últimos anos se mantiverem, qual é o cenário mais realista para o setor vitivinícola português nos próximos cinco anos?
Tudo indica que o consumo de álcool ( onde o vinho é apanhado por tabela) irá manter a sua queda, os hábitos e cuidados com a saúde são cada vez maiores, vai acontecer uma seleção natural dos produtores que ficam, as marcas mais sólidas e consistentes, que transmitam credibilidade acredito que irão resistir. Só os produtores que diversificarem e se reinventarem poderão ser bem-sucedidos. Muitos vão fechar portas, infelizmente
Quais considera serem os principais desafios desta vindima e do próximo ano, para o setor, em Portugal?
Estamos a competir numa prova de fundo: manter a estratégia inicial da marca, consistência e excelente relação qualidade preço em todos os segmentos Quinta do Paral vai permitir manter os clientes atuais e potenciais.