Mais de metade do investimento privado projetado para 2021 está em xeque, apurou o Dinheiro Vivo a partir de dados do inquérito semestral ao investimento empresarial conduzido pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) entre o início de outubro e meados do corrente mês de janeiro.
Os novos dados do INE traçam um retrato bastante sombrio do que pode vir a ser 2021 em termos de novos projetos de investimento e de emprego, sobretudo no comércio a retalho, na indústria exportadora e a que vive do mercado interno, na hotelaria, na restauração. Os empresários da construção, um dos setores que mais ajudou a contrariar a recessão brutal do ano passado, não estavam, mas relativamente a 2021 estão agora entre os mais descrentes, antevendo uma forte contração do investimento em obras.
O inquérito mostra que, segundo a avaliação dos empresários ouvidos, o ano de 2020 foi totalmente perdido. O investimento privado no conjunto da amostra (quase 3.600 empresas foram inquiridas) terá sofrido uma contração brutal em 2020, terá caído mais de 16%. É o terceiro pior registo em quase três décadas (as séries do INE remontam a 1993).
Para 2021, naquela que é a primeira projeção para o ano corrente, o conjunto dos empresários ainda parecia acreditar numa ligeira subida do investimento, na ordem dos 3,5%.
Como referido, mais de metade do investimento está em xeque porque, por exemplo, os empresários do setor da construção estão a prever um corte de 16% no investimento em 2021 (face a 2020). Em 2020, o setor terá investido mais 10%.
Na indústria transformadora, os decisores estão a antever um recuo de quase 10%, isto depois do colapso de 19% no ano passado.
A parte industrial exportadora (automóveis, têxtil, vestuário, obras de metalurgia, plásticos, papel, só para referir alguns dos mais importantes) também não vê em 2021 um ano de feição. Os empresários deste subsetor afirmam que o investimento na capacidade exportadora afundou mais de 18% em 2020 e que este ano regredirá ainda mais 3%.
A atividade alojamento e restauração é, de todas, a mais sacrificada porque muitas medidas de confinamento de resposta à pandemia tomadas desde março impuseram simplesmente a interrupção ou quase interrupção dos negócios, do turismo, limitaram fortemente a capacidade dos estabelecimentos, obrigando muito a fechar ou levando muitos à falência. Aqui, o investimento terá afundado quase 50% no ano passado. Este ano pode recuar 6%.
A destruição também reina no ramo do comércio (grosso e a retalho) e nem a distribuição alimentar conseguiu puxar para cima os valores do investimento neste setor. Depois de uma queda de 23% em 2020, os empresários preparam-se para cortar mais 10% no investimento este ano.
Resultados podem ser otimistas
Mas o cenário de 2021 pode vir a ser pior. Maior parte das respostas a este inquérito foi obtida em outubro e novembro. Isto é, antes do início deste ano, antes desta que é chamada a terceira vaga da pandemia que está a levar os hospitais à rutura e o número de mortes por covid a bater recordes sucessivos.
O mesmo que dizer, o inquérito apanhou a esmagadora maioria dos empresários (92%) antes do choque do novo confinamento, que começou no início deste mês e que depois ficou ainda mais apertado com o fecho de todas as escolas.
Segundo explica o INE, este inquérito de conjuntura ao Investimento (ICI) foi realizado a "uma amostra de 3.599 empresas com mais de quatro pessoas ao serviço" de quase todos os setores de atividade, "com um volume de negócios no ano de seleção da amostra de pelo menos 125 mil euros".
"As empresas com 250 ou mais pessoas ao serviço foram inquiridas de forma exaustiva."
Apesar de o período de inquirição decorrido entre 1 de outubro de 2020 e 14 de janeiro de 2021, "a grande maioria das respostas foram obtidas nos primeiros dois meses" do inquérito: "63% do total de respostas em outubro e 29% em novembro".
O INE também mostra que, obviamente, o binómio alojamento/restauração é um dos setores onde parece haver maior necessidade de despedir ou cancelar as contratações. Isso também acontece com o setor dos transportes, o que estará ligado às restrições de circulação e sobre as viagens internacionais (aviação, por exemplo).
No entanto, o setor onde a tendência no emprego é mais negativa é o da banca e dos seguros. Com a recessão, a banca portuguesa continuou a ser pressionada para emagrecer ainda mais. O ressurgimento do malparado e a introdução de novas tecnologias também agravou essa necessidade de redimensionamento.
Algumas luzes ao fundo do túnel
Como referido, mais de 53% do investimento total está no grupo de empresários que pensa reduzir ou abortar projetos em 2021, mas há algumas luzes ao fundo do túnel.
Com os fundos comunitários e a nova programação de investimentos públicos, há setores onde ainda existe algum otimismo.
Os grandes projetos da ferrovia podem ser aprofundados mais este ano (investimento em linhas e novos comboios para a CP), em Lisboa, a Carris pensa continuar a comprar novos autocarros para a frota. No setor dos transportes, o aumento previsto do investimento foi colocado acima dos 63%.
Nas energias existe o advento da exploração de lítio em Trás-os-Montes, tendo a Galp anunciado já que vai comprar 10% da operação dos britânicos da Savannah, em Boticas.
O imobiliário construído nos últimos anos, durante os tempos da explosão do turismo e até a pandemia começar, continua a interessar muitos investidores internacionais e estrangeiros que veem nestes ativos formas de rentabilizar carteiras e poupanças, isto numa altura em que os juros estão virtualmente em zero ou abaixo.
O investimento em atividades imobiliárias pode disparar 77% este ano, dizem os empresários ouvidos. Isto depois de ter aumentado uns expressivos 32% no ano passado. Parece que está a passar ao lado desta crise sem precedentes.