Há mais famílias sem capacidade financeira para aquecer as suas casas, pagar uma semana de férias fora de casa ou comer um prato de carne ou peixe (ou o equivalente vegetariano) pelo menos de dois em dois dias.
O subida continuada dos preços da energia, da alimentação, das rendas e taxas de juro, nomeadamente no crédito à habitação, terão contribuído para a degradação das condições de vida da população portuguesa.
O inquérito ao rendimento e condições de vida dos portugueses do Instituto Nacional de Estatística, divulgado esta sexta-feira, mostra que, em 2022, 17,5% das pessoas que viviam em agregados familiares não tinham recursos económicos para manter a casa adequadamente aquecida, o que representa um aumento de 1,2 pontos face ao ano anterior (16,4%).
Tendo em conta que, em Portugal, residem 10 343 066 pessoas, segundos os últimos Censos do INE, de 2021, significa que mais de 1,8 milhões de indivíduos não conseguiam suportar despesas com a aquisição de equipamentos ou com o acréscimo na fatura da energia para aquecer a habitação. São mais 113 mil pessoas nestas condições comparativamente com o ano de 2021, em que mais de 1,6 milhões referiram não ter dinheiro para esta rubrica de custos.
Do mesmo modo, subiu o número de famílias sem capacidade financeira para ter uma refeição de carne ou peixe (ou o equivalente vegetariano) pelo menos de dois em dois dias. Em 2022, 3% dos inquiridos estavam nesta situação, um aumento de 0,6 pontos relativamente a 2021 (2%). Em termos absolutos, e tendo por base os últimos Censos do INE, em 2022, são mais de 310 mil cidadãos nestas circunstâncias, quando em 2021 eram mais de 99 mil, um acréscimo de mais de 24 mil pessoas.
Gozar férias também começa a ser um luxo para mais portugueses. No ano passado, 37,2% dos inquiridos não tinham capacidade financeira para paga uma semana de férias por ano fora de casa, um agravamento de 0,5 pontos face a 2021 (36,6%). Em termos concretos, mais de 3,8 milhões de portugueses não têm dinheiro para ir de férias. São mais de 62 mil comparativamente com 2021 (3,7 milhões).
Para a generalidade das famílias, excluindo as que se encontram em risco de pobreza, também se verificou, em 2022, um agravamento da taxa de sobrecarga do custo com a habitação, "que corresponde à proporção de pessoas que vivem em agregados familiares em que o rácio entre as despesas anuais com a habitação e o rendimento disponível (deduzidas as transferências sociais relativas à habitação) é superior a 40%", segundo a explicação do INE.
"As despesas com a habitação incluem as relacionadas com água, eletricidade, gás ou outros combustíveis, condomínio, seguros, saneamento, pequenas reparações, bem como as rendas e os juros relativos ao crédito à habitação principal", salienta o Instituto Nacional de Estatística.
Assim, no ano passado, mais de 227 mil portugueses (2,2%) tinham uma taxa de esforço superior a 40% com despesas relativas a habitação, uma subida de 0,4 pontos relativamente a 2021, quando cerca de 186 mil inquiridos (1,8%) mostraram estar na mesma situação.
Pelo contrário, baixou para 19,4% a população em risco de pobreza que se encontrava em sobrecarga com despesas de habitação. Ainda assim, o valor absoluto é bastante significativo: são mais de 2 milhões de pessoas que com muita dificuldade conseguem suportar os gastos com a sua casa.