Segundo o Global Status Report for Buildings and Construction, o setor dos edifícios e da construção representa 34% da energia mundial consumida e também 21% das emissões globais de efeito de estufa. Não há como negar: construir casas para as pessoas tem um custo pesado para o meio ambiente, e não é possível simplesmente ignorar este facto, sobretudo num cenário de crescimento da população mundial.
Em Portugal é bem conhecido o estado difícil da habitação, que se tem agravado nos últimos anos com o aumento da procura e a fraca resposta da oferta. Precisamos de mais casas, sim, mas é preciso acrescentar – que caminhem lado a lado com a sustentabilidade ambiental.
É evidente, há muitos anos, que Portugal precisa de mais habitações, que não sejam apenas um reflexo da nova forma de viver – adaptadas às pessoas e ao seu estilo de vida mas também à localização onde se inserem – e que respondam a questões da maior importância como o seu impacto no mundo e no meio ambiente, não apenas durante a construção, mas também na sua utilização.
Não é possível ignorar a urgência da sustentabilidade. A construção tradicional muitas vezes contribui significativamente para a degradação ambiental, através do consumo excessivo de recursos naturais, emissões de gases de efeito estufa e produção de resíduos. Para enfrentar este desafio, é essencial adotar métodos de construção mais sustentáveis e inovadores. Pode resultar num projeto 15 a 20% mais dispendioso no momento? É possível. Mas serão edifícios construídos com menor impacto e que registam menor impacto contínuo na sua utilização.
Sem dúvida que trazem maiores benefícios na utilização contínua e no futuro. Se, por um lado, a mudança para práticas mais sustentáveis implica um aumento no investimento inicial, por outro, permite reduzir o consumo de energia entre 50 e 70%, assim como o consumo de água até 40% e os custos operacionais entre 7 e 8% (fonte: World Green Building Council).
O sector imobiliário, em constante evolução, promete acompanhar e dar resposta a estas necessidades, com a tecnologia a tornar os edifícios mais sustentáveis, inteligentes e eficientes. A preocupação com a sustentabilidade no setor imobiliário surge no seguimento da consciencialização dos impactos, e na compreensão de que, neste setor, a sustentabilidade não se resume apenas à eficiência energética ou à escolha de materiais de construção mais ecológicos. É preciso, por exemplo, fazer um planeamento consciente do uso do solo e a integração de espaços verdes.
Entretanto, soluções como a construção modular e impressão 3D (módulos pré-fabricados que reduzem o desperdício, o tempo de construção e os recursos), robótica avançada (máquinas que realizam tarefas repetitivas ou perigosas) ou realidade aumentada em obra (sobreposição interativa de projeto com a execução, permitindo projetar tarefas a executar no tempo e no espaço) colocam-se na linha da frente da revolução.
Um edifício sustentável pode representar até 66% menos emissões de CO2 (Fonte: BRE, 2016). Façamos um exercício de matemática para perceber o tipo de impacto que esta indústria poderia ter se todos estivermos empenhados e alinhados nesta missão. É urgente haver uma consciencialização para a responsabilidade que cabe às empresas na promoção de edifícios com o melhor desempenho ambiental, social, económico e de sustentabilidade. Na mesma medida, é importante haver desenvolvimento de soluções e serviços que procurem elevar os padrões de qualidade das atividades no setor a novos patamares.
A questão de mais habitação versus sustentabilidade não deve, por isso, ser encarada como uma dicotomia, mas sim como uma oportunidade para inovar e encontrar soluções integradas. É possível e necessário construir mais habitação para atender às necessidades da população, ao mesmo tempo que se adotam práticas de construção que respeitem e preservem o meio ambiente em todas as fases do projeto. O investimento em sustentabilidade não é apenas uma escolha ética, mas uma estratégia da maior importância para garantir o futuro.
CEO da AM48