Mais medidas para salvar a anedota

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Um chinês, um angolano, um russo e um francês encontram-se numa

anedota. Chegam com sacos de dinheiro, meio milhão em cada saco,

para comprar, cada um, a sua casa. Com a casa obtêm um golden visa e

passam a entrar livremente na Europa - os que não são de cá, os

outros passam a ter benefícios fiscais que não têm no seu país e

que os habitantes da anedota não têm.

Conta-se na anedota que o chinês, quando chegou, comprou uma casa

num sítio fino com notas transportadas em sacos de plástico. O

mesmo chinês disse ao engenheiro que contratou para lhe fazer umas

obras, que quer pagar-lhe em notas sem passar factura. Disse-lhe

também que para fazer as obras vai mandar vir uma equipa de chineses

porque os de cá são muito caros.

Enfim, negócio da China para o chinês que lava algum dinheiro e

passa a andar pela Europa à vontade.

Conta-se também na anedota que um político africano reformado

angariava em França outros políticos africanos reformados para

viver cá com o seu dinheiro. Razão? A origem do dinheiro estava a

ser questionada em França depois de "tantos anos a fazer

dádivas a todos os partidos do sistema". Claro que é o

suficiente para um reformado da política africana se sentir

ofendido. Eu também me sentiria.

O golden visa é uma solução que esta anedota arranjou para

fazer dinheiro. É uma solução indigna de um Estado com

princípios e que se respeita. Mas a verdade é que os princípios

(como a tristeza) não pagam dívidas e as dívidas, a fazer fé nos

relatórios do FMI, continuarão impagáveis por muitíssimos anos.

Pergunta-se então o que se seguirá nesta linha de

princípios-por-dinheiro?

Eu apostava em aterros para lixo tóxico. Há-de haver muito lixo

tóxico a precisar de ser aterrado por essa Europa e por esse mundo

fora. Porque não vender os nossos vales, as nossas várzeas e todos

os locais desertos do interior para enterrar detritos europeus? Eles

têm de ser enterrados. Porque não ganhar dinheiro com eles para

pagar as dívidas?

Um grande aterro de lixo tóxico parece-me também uma ideia

patriótica. Seria um modo de garantir a independência, senão a

nacional, que já não é possível, pelo menos a territorial: um

país cheio de lixo tóxico ninguém vai querer invadir.

Seríamos então lavandaria e aterro e nasceria um novo cluster

para a competitividade: o cluster da porcaria.

Outra ideia peregrina seria a de entregar a nossa zona económica

exclusiva como colateral da dívida. Dar à exploração alheia

pedaços do nosso grande mar - uma tarefa para a qual não temos,

nem vamos ter nas nossas vidas, recursos disponíveis. Por ventura

alugando por 100 ou mesmo 200 anos, milhas e milhas quadradas de mar

português. Afinal todo aquele azul está ali, não está a ser

usado, não serve para ninguém e, não tarda, vai começar a ser

cobiçado. Será pois mais prudente alugá-lo quanto antes. Antes que

nos forcem a entregá-lo como resultado de um qualquer ultimato (não

era a primeira vez). É tratar já do assunto. Talvez pedindo ao

ministro das manchetes para ir deixando cair a ideia por esse mundo

fora.

Um chinês, um angolano, um russo e um francês encontram-se numa

anedota. A anedota é isto.



Publicitário, psicossociólogo e autor

Escreve à sexta-feira

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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