Mais vale prevenir do que remediar

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As perspetivas económicas não são animadoras. Múltiplos analistas bem como reputadas instituições internacionais (designadamente o Banco Mundial e o FMI) têm vindo a alertar para a possibilidade de uma recessão mais forte do que a que se viveu na sequência da crise do subprime e das dívidas soberanas.

Não vou ser mais um a "deitar achas na fogueira", espalhando o pânico à custa dos tempos difíceis que se avizinham. Mas também não vou recomendar que os agentes económicos devam tentar "passar pelos pingos da chuva", esperando que no final fique tudo bem. É por isso que neste momento, setembro de 2022, mais vale prevenir do que ter de remediar mais tarde.

Isto é válido para o Estado, para as famílias e para as empresas. A curto prazo, ao primeiro cumpre apresentar no próximo mês um Orçamento do Estado que seja realista face ao cenário mais provável, que não é animador em termos de evolução dos mercados, inflação e taxas de juro, e que seja exequível, pois já todos percebemos o truque das cativações. Às famílias pede-se que evitem estar demasiado endividadas, pois os meses loucos do pós-pandemia (que ainda não acabou, convém recordar) já consumiram as poupanças acumuladas e estão aí tempos de juros acrescidos e incerteza quanto à manutenção dos empregos.

Das empresas, a cujos responsáveis dedico este artigo, espera-se que sejam capazes de continuar a pagar salários, a suportar os restantes custos, mormente financeiros, e a dar lucro porque essa é a base da criação de riqueza em qualquer sociedade desenvolvida. Por isso, deixo aqui um conjunto de sugestões para quem tem de gerir negócios.

O risco é a variável mais importante a controlar numa situação de conjuntura económica desfavorável como a que vivemos. Em contextos altamente voláteis, estar demasiado exposto a imprevistos pode não ser uma boa ideia. No mundo dos negócios, isto significa, tanto quanto possível, flexibilizar a estrutura de custos, evitando assumir novos encargos fixos e, eventualmente, reduzindo os existentes.

Manter sob controlo o nível de endividamento (até porque as taxas de juro vão continuar a subir), reduzir despesas não essenciais e adiar algum investimento são medidas que faz sentido os gestores equacionarem neste momento. Assim como uma aposta em parcerias confiáveis que poderão abrir novas oportunidades sem que isso implique custos fixos acrescidos.

Há também todo um conjunto de medidas que podem ser adotadas no âmbito específico do marketing. Costuma-se dizer que numa crise há os que choram e os que vendem lenços. Isto significa que haverá sempre setores de atividade que vão ser menos afetados ou que até vão beneficiar com a recessão. Do ponto de vista empresarial, há que estar atento a esses setores pois aí a probabilidade de as coisas correrem mal é menor... isto se o Estado não resolver taxar demasiado esses setores.

Trabalhar a fidelização dos clientes será mais importante do que nunca. Havendo uma redução da procura, não vale a pena "remar contra a maré". Tentar crescer a todo custo em épocas de contração do mercado pode ser uma má ideia - mas apostar em manter os clientes atuais, evitando que eles fujam para a concorrência, será sem dúvida uma excelente medida.

E, last but not least, há que manter um relacionamento transparente e estreito com os colaboradores. Cortes salariais (não só reais pela via da inflação, mas também nominais) e despedimentos poderão vir a ocorrer num futuro não muito longínquo. Ora os colaboradores não são um recurso descartável que se possa dispensar como se dispensam equipamentos. São o principal ativo das organizações e as que perceberem isto estarão em melhores condições para recuperar quando a recessão passar.

Estas são apenas algumas medidas que poderão ser adotadas pelas empresas. Muitas outras haverá e o propósito deste artigo não é ser exaustivo na check list de opções possíveis. O essencial, volto a repetir, é controlar o risco, evitando demasiada exposição. Este ponto é, aliás, válido também para as famílias e Estado.

É por isso que, e sem querer passar uma imagem de insensibilidade social, recordo às famílias bem como às empresas que não contem demasiado com apoios públicos... porque também o Estado tem de controlar o risco a que está exposto pela via de enorme dívida que acumulou. A não ser que o PS comece a ficar nervoso e a pressão sobre o Governo seja tal que não reste a António Costa outra saída que não seja "abrir os cordões à bolsa".

Carlos Brito, professor da Universidade do Porto - Faculdade de Economia e Porto Business School

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