Manuel Filho: O homem do Luso-brasil

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Manuel Tavares de Almeida Filho, 49 anos, não tem apenas o nome

do progenitor. Desde muito cedo começou a seguir as pegadas e os

princípios do pai - "dedicação e honra" - e apesar do

desafogo da família, Manuel Filho já trabalhava aos 13 anos, como

mensageiro, nos escritórios do pai - o seu irmão Luciano começou

aos 10, separando garrafas partidas na empresa de cachaça. Manuel

Filho passou por todos os departamentos e empresas do Grupo Tavares

de Almeida, chegando a presidente do Banco Luso-Brasileiro, fundado

em 1989, em São Paulo, um terço do qual foi agora vendido ao homem

mais rico de Portugal, Américo Amorim, por 50 milhões de reais.

Para falar do filho é inevitável falar do pai, que saiu de Rocas

do Vouga, Aveiro, em 1949, com 18 anos, para ir trabalhar na padaria

de um tio, em São Paulo. Depois de quatro anos a amassar pão, quis

montar o seu próprio negócio. Como o dinheiro não chegava para

abrir um estabelecimento comercial, apostou num táxi. Sempre à

procura de uma oportunidade, foi aos poucos montando o seu império

de padarias - chegaram a ser 12 -, conquistou o cognome de "Almeidão"

e onde outros viam uma empresa falida, ele encontrou uma rampa de

lançamento para criar o seu grupo empresarial: 20 anos depois de

chegar ao Brasil, já com uma rede de padarias, bares e bombas de

gasolina, conheceu o proprietário da fábrica de cachaça Tatuzinho

e reuniu e convenceu os seus amigos padeiros a comprar a empresa.

Finalizado o negócio, a família mudou para Piracicaba, no interior

de São Paulo, e Manuel Filho lá cresceu, no campo, até aos 18

anos, quando regressaram à capital do estado.

Quem conhece Manuel Filho diz que combina a sofisticação dos

cosmopolitas com o gosto pela vida rural. Formado em Direito e com

uma pós-graduação em Administração de Empresas, em Pittsburgh,

Estados Unidos, é o grande impulsionador dos negócios agrários do

grupo. Nos últimos anos, a produção de cana-de-açúcar

quadruplicou e Manuel Filho aposta forte nas três fábricas que

processam cana e que produzem energia termoelétrica. O grupo fechou

contrato com a empresa Rede Energia, por 350 milhões de reais, com o

fim de vender a energia produzida durante os próximos 15 anos. O seu

próximo objetivo é encontrar um parceiro europeu para exportar

etanol.

Mas a sua grande paixão rural são os cavalos lusitanos. Há duas

décadas, criou a Coudelaria Rocas do Vouga - nome do lugar de

nascimento de seu pai -, e tem atualmente cerca de 200 cavalos - há

anos que o Brasil é o maior criador da raça, uma tendência que

começou logo após o 25 de Abril, quando muitos proprietários

portugueses venderam os seus melhor exemplares a criadores

brasileiros.

Na entrada do picadeiro da coudelaria Rocas do Vouga estão duas

lanternas de uma carruagem do rei D. Carlos, que o criador comprou em

Portugal. E toda a família pratica equitação. Os filhos - dois

rapazes e duas raparigas - ainda não sabiam andar e já andavam, ao

colo do pai, a cavalo, em passeios pela propriedade. A filha Luísa

fez parte da equipa brasileira de hipismo que conquistou uma medalha

de bronze nos Jogos Pan-Americanos de 2007. No ano seguinte, o pai

acompanhou-a, com lágrimas nos olhos, durante a sua apresentação

nos Jogos Olímpicos de Pequim. Mas os cavalos também são um

negócio e só a venda de quotas de cobertura podem chegara 385 mil

reais, como aconteceu num leilão com Quartzo, um garanhão

propriedade de Manuel Filho.

Talvez a capacidade que o empresário tem para usar o sotaque

português ou o brasileiro, consoante o interlocutor, seja revelador

da sua identidade múltipla, da ligação que mantém com as raízes

portuguesas e da vontade de aproximar ambos os países. O seu pai foi

vice-presidente do clube de futebol A Portuguesa e Manuel Filho

segue, com sofrimento, os jogos da equipa - atualmente na segunda

divisão. Tem uma casa de férias em Rocas do Vouga e uma coleção

de discos de fado. Os seus restaurantes preferidos em São Paulo:

Bela Sintra e Antiquarius, ambos portugueses. Todos os seus filhos

têm passaporte português.

É presidente da Câmara de Comércio Luso-Brasileira e o único

brasileiro que faz parte da Rede de Conselheiros para a

Internacionalização da Economia Portuguesa, que procura

oportunidades de negócio para empresas nacionais e cujos

conselheiros, escolhidos pelo Presidente da República, lidam

diretamente com o ministro das Finanças português.

Hoje, o Grupo Tavares de Almeida, liderado por Manuel Filho, junta

explorações agrícolas, um hotel spa - Casa Grande Hotel Resort -,

marcas de cachaça, entre elas a muito conhecida e exportada Velho

Barreiro, uma empresa de máquinas agrícolas, um banco e a Tavares

Almeida Participações, que detém um terço do Banco

Luso-Brasileiro. Os outros dois terços pertencem agora a Américo

Amorim e à família Tavares de Almeida.

No escritório do pai há duas garrafas de ouro de cachaça Velho

Barreiro. Longe vão os tempos em que, na São Paulo do pós-guerra,

Manuel Tavares andava de carroça com o seu amigo Valentim Dinis,

fundador do Pão de Açúcar. Uma coisa manteve-se intacta no

espírito da família e dos filhos, garantiu o fundador do grupo em

entrevista: "Sejam humildes sem se deslumbrar com o dinheiro."

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