"Não é por acaso que criatividade rima com curiosidade: um criativo tem que ser curioso. E
em matéria de cinema, tem que ser mais do que isso: tem que ser
esfomeado. Tem que papar todos os filmes, de todos os tipos - os
clássicos, o cinema de arte, as séries de TV (o que inclui as novelas da
TVI) e o bom cinema comercial.
Não gosta dos Vingadores? Então
vá trabalhar na Cinemateca e não numa agência de publicidade. Mas tudo
isto quem é (ou gostaria de ser) criativo, já sabe. Então gostaria de
acrescentar algo mais prático a esta discussão: não são só os criativos
que deveria ver todos os filmes. Qualquer um que trabalhe em marketing
tem muito a aprender no cinema.
E nada me ensinou tanto em 2012
como Skyfall, o novo filme do James Bond. Para quem não se lembra, em
2002, ainda na fase Pierce Brosnan, os filmes do James Bond estavam a
perder a relevância. Havia outro produto no mercado, mais inovador, mais
original e que estava a mudar o segmento dos filmes de espionagem - a
série com o espião sem memória Jason Bourne (aqueles com o Matt Dammon
que estão sempre a dar no Canal Hollywood).
De tão modernos que
eram - tudo muito real, a ação "suja" e sem glamour - transformaram os
filmes do James Bond em peça de museu.
Foi aí que os produtores
da franquia decidiram fazer um rebranding radical e reinventaram
completamente a marca: contrataram um ator que é a antítese do
personagem. E transformaram os filmes do 007 em outra coisa, em filmes
de espionagem mais duros, sem gadgets, com mais ação e menos fantasia.
Deu certo: os filmes com o Daniel Craig foram os mais lucrativos da série. Agora
com Skyfall, fizeram de novo: fizeram uma pesquisa (ninguém faz nada
sem pesquisa em Hollywood) e descobriram que, apesar de ir ao cinema ver
o James Bond do Daniel Craig, o público tinha mesmo saudades do 007 do
Sean Connery.
E fizeram em Skyfall um back to basics de
primeira: voltaram a colocar lá o "Q" (o mestre das armas), o Aston
Martin (mas o original, aquele dos filmes do Connery) mataram a
personagem da Jude Dench (ops, spoiler alert) para dar-lhe um novo
chefe, no mesmo clássico escritório, com a mesma secretária com quem ele
vai, obrigatoriamente, flertar.
Tudo isso em meio as
comemorações dos 50 anos do personagem no cinema, uma "campanha" que foi
veiculada em todos os meios - jornais, blogs, sites, a terminar em
grande com uma enorme exposição em um dos maiores museus de Londres.
O
resultado? Skyfall é o filme mais lucrativo da franquia, é um enorme
sucesso de crítica, e talvez o filme mais comentado do ano, a colocar
novamente o personagem na ordem do dia.
Para conferir, basta ir
ao centro comercial mais próximo: depois de 20 anos de ausência, há
novamente brinquedos do 007 nas prateleiras, incluindo uma enorme
coleção com todos os carros dos filmes na secção de modelismo.
E, apesar de ter sido lançado em novembro, o filme continua em cartaz com lotações esgotadas.
Skyfall
é um filme médio, banal até. Mas é também uma verdadeira obra-prima do
marketing. Pode não ganhar um óscar, mas merece todos os Prémios de
Eficácia."