Marcelo Lourenço. "Vá ao cinema aprender marketing com James Bond"

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"Não é por acaso que criatividade rima com curiosidade: um criativo tem que ser curioso. E

em matéria de cinema, tem que ser mais do que isso: tem que ser

esfomeado. Tem que papar todos os filmes, de todos os tipos - os

clássicos, o cinema de arte, as séries de TV (o que inclui as novelas da

TVI) e o bom cinema comercial.

Não gosta dos Vingadores? Então

vá trabalhar na Cinemateca e não numa agência de publicidade. Mas tudo

isto quem é (ou gostaria de ser) criativo, já sabe. Então gostaria de

acrescentar algo mais prático a esta discussão: não são só os criativos

que deveria ver todos os filmes. Qualquer um que trabalhe em marketing

tem muito a aprender no cinema.

E nada me ensinou tanto em 2012

como Skyfall, o novo filme do James Bond. Para quem não se lembra, em

2002, ainda na fase Pierce Brosnan, os filmes do James Bond estavam a

perder a relevância. Havia outro produto no mercado, mais inovador, mais

original e que estava a mudar o segmento dos filmes de espionagem - a

série com o espião sem memória Jason Bourne (aqueles com o Matt Dammon

que estão sempre a dar no Canal Hollywood).

De tão modernos que

eram - tudo muito real, a ação "suja" e sem glamour - transformaram os

filmes do James Bond em peça de museu.

Foi aí que os produtores

da franquia decidiram fazer um rebranding radical e reinventaram

completamente a marca: contrataram um ator que é a antítese do

personagem. E transformaram os filmes do 007 em outra coisa, em filmes

de espionagem mais duros, sem gadgets, com mais ação e menos fantasia.

Deu certo: os filmes com o Daniel Craig foram os mais lucrativos da série. Agora

com Skyfall, fizeram de novo: fizeram uma pesquisa (ninguém faz nada

sem pesquisa em Hollywood) e descobriram que, apesar de ir ao cinema ver

o James Bond do Daniel Craig, o público tinha mesmo saudades do 007 do

Sean Connery.

E fizeram em Skyfall um back to basics de

primeira: voltaram a colocar lá o "Q" (o mestre das armas), o Aston

Martin (mas o original, aquele dos filmes do Connery) mataram a

personagem da Jude Dench (ops, spoiler alert) para dar-lhe um novo

chefe, no mesmo clássico escritório, com a mesma secretária com quem ele

vai, obrigatoriamente, flertar.

Tudo isso em meio as

comemorações dos 50 anos do personagem no cinema, uma "campanha" que foi

veiculada em todos os meios - jornais, blogs, sites, a terminar em

grande com uma enorme exposição em um dos maiores museus de Londres.

O

resultado? Skyfall é o filme mais lucrativo da franquia, é um enorme

sucesso de crítica, e talvez o filme mais comentado do ano, a colocar

novamente o personagem na ordem do dia.

Para conferir, basta ir

ao centro comercial mais próximo: depois de 20 anos de ausência, há

novamente brinquedos do 007 nas prateleiras, incluindo uma enorme

coleção com todos os carros dos filmes na secção de modelismo.

E, apesar de ter sido lançado em novembro, o filme continua em cartaz com lotações esgotadas.

Skyfall

é um filme médio, banal até. Mas é também uma verdadeira obra-prima do

marketing. Pode não ganhar um óscar, mas merece todos os Prémios de

Eficácia."

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