Há 33 anos que um presidente da República Portuguesa não visitava o salão português de Artesia, nos arredores de Los Angeles. Mário Soares fora o último, em 1989, quando o senhor Manuel Santos estava à frente da direcção do Artesia D.E.S. Portuguese Hall. Aquilo foi um acontecimento, disse-me ele, lembrando a comoção dos emigrantes e lusodescendentes com a visita do então chefe de Estado.
"Mas não foi como este", confidenciou. "Este chega-se ao povo." Ali estava Marcelo Rebelo de Sousa, abraçando os emigrantes, fazendo-lhes perguntas, levantando crianças de colo para a fotografia e contando histórias da sua família. O presidente dos afectos, caloroso, pareceu rendido às gentes de Artesia, que as mais de 9 mil quilómetros da pátria nunca a esqueceram.
"É um momento muito comovente", disse Marcelo Rebelo de Sousa, em inglês, atentando aos lusodescendentes que não aprenderam ou já esqueceram a língua dos pais. O presidente elogiou a perseverança dos portugueses e luso-americanos que mantêm o Artesia D.E.S. vivo, com uma banda filarmónica que comemorou neste fim-de-semana 50 anos de existência, e com uma saudável parcela de jovens a participarem nas Festas.
É esse um dos grandes desafios das comunidades portuguesas nos Estados Unidos: atraírem as gerações que já nasceram no país, falam maioritariamente inglês e não são necessariamente tão religiosas como os pais e avós.
Os líderes comunitários sabem disso, por isso repetem os pedidos de apoio em todas as oportunidades que têm. É preciso mais ensino de português nos Estados Unidos. É preciso mais apoio da rede consular. É preciso salvaguardar a continuidade dos salões como o de Artesia, onde o amor a Portugal e inesgotável e muitas vezes, francamente, não correspondido como devia ser.
Foi um pouco isso que me disse Angela Simões, anterior chair do Conselho de Liderança luso-americano, quando falámos sobre a visita desta comitiva presidencial. O entusiasmo da comunidade portuguesa da Califórnia tem sido enorme e justificado, porque há muito tempo que um presidente não fazia uma visita tão extensa - desde San Diego e Artesia a Gustine, Turlock, São José e São Francisco.
Mas os líderes comunitários, que ao longo dos anos se habituaram a receber secretários de Estado, primeiros-ministros e presidentes, querem mais que fotografias e discursos emocionados. Querem, como frisou Simões, medidas concretas que espelhem a importância das comunidades portuguesas.
"Não seria excelente anunciarem mais financiamento para programas de ensino da língua portuguesa ou melhorias à rede consular?", questionou. "Se depois de visitar as várias comunidades da diáspora o presidente e todos os dignitários não conseguem ver o quão orgulhosa a comunidade é e quão empenhada está em manter a nossa herança e identidade, e como precisamos do seu apoio, então temo que nunca nos entendam."
Ao mesmo tempo, surgem programas para encorajar luso-americanos a visitarem Portugal, investirem lá e por vezes regressarem. "Então querem que investamos o nosso tempo e dinheiro em Portugal, mas Portugal não está disposto a investir o seu tempo e dinheiro nas comunidades. Não me parece muito equilibrado."
É compreensível a frustração destes líderes, que trabalham sem compensação para manter as comunidades portuguesas vivas e com legados inter-geracionais. Claro, também sabemos que Portugal não tem orçamentos elásticos e a situação já foi melhor. Mas muitas melhorias podem ser feitas sem investimentos avultados, como a agilização de actos consulares e a digitalização de processos. O consulado em São Francisco parece estar a fazer um bom esforço nesse sentido, embora ainda haja mais por fazer.
E o ensino do português? É uma peça fundamental que precisa mesmo de um reforço. Compreender a língua, falada e escrita, é um elemento-chave para que as gerações mais novas mantenham a ligação umbilical às suas raizes e se interessem por visitar e investir em Portugal. O presidente sabe disso, bem como o secretário de Estado Paulo Cafôfo. Ambos referiram o facto de o novo superintendente do distrito escolar de Los Angeles ser um emigrante português, Alberto Carvalho, e haver espaço para trabalhar com ele e trazer de volta o ensino de português às crianças.
É preciso ver para crer o esforço que as comunidades fazem para manter a herança portuguesa fora do país - ainda mais à distância da costa Oeste dos Estados Unidos, com viagens longas e um fuso horário significativo. Marcelo está a vê-lo esta semana. As "selfies" com o presidente são boas, mas esperemos que a visita tenha um impacto mais duradouro que os nossos "posts" nas redes sociais.