Marketing da confiança: de Churchill ao “irritante otimismo”

Sem querer ser pessimista, fica-me a dúvida: se for necessário, conseguirá António Costa gerir sob o lema de Churchill?
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Aproximamo-nos do início de um novo ano de trabalho que todos sabemos não irá ser fácil, tanto do ponto de vista sanitário como económico. Neste contexto, assumirá uma importância acrescida a gestão daquela que é uma das principais variáveis do desenvolvimento económico e social: a confiança.

O marketing ensina-nos que a confiança numa marca decorre de duas ordens fatores: por um lado, as expectativas em relação àquilo que pretendemos adquirir e, por outro, a perceção daquilo que efetivamente acabamos por consumir e usufruir. Se a perceção for igual ou superior às expectativas, ficaremos satisfeitos; caso contrário, emergirá um sentimento de insatisfação.

A confiança numa marca depende exatamente de ela ser capaz de gerar satisfação de forma consistente. Quando uma marca não corresponde às expectativas — ou não o consegue de forma continuada — isso provoca falta de confiança em relação à proposta de valor que ela representa, afastando os clientes e gerando menos vendas e menor rentabilidade.

Transpondo este raciocínio para o domínio da política — e sei que haverá leitores que consideram um abuso fazê-lo —, isto significa que qualquer governo tem duas maneiras de incutir confiança junto dos cidadãos: reforçando a perceção positiva da realidade ou baixando as expectativas (mas só depois de estar no poder…).

A primeira opção corresponde à que foi seguida durante a legislatura anterior. Após os anos de chumbo da troika e da governação de Passos Coelho, António Costa teve o mérito de baixar a tensão vivida na sociedade ao colocar de lado a austeridade — mesmo que para tal tivesse de se socorrer das cativações e de uma carga fiscal e contração do investimento público nunca vistos — induzindo assim um clima de otimismo em relação ao futuro. Foi a época de, nas palavras do Presidente da República, Portugal ter à frente do seu Governo um “irritante otimista”.

Mas há outra opção: baixar as expectativas. Foi o que Winston Churchill fez quando, no seu discurso inaugural como primeiro-ministro, prometeu aos britânicos “sangue, suor e lágrimas”. Fê-lo porque, sabendo que tinha pela frente um longo período de imensas dificuldades, dourar a pílula seria suicida não só para o seu governo, mas também para o Reino Unido, na altura a única nação a fazer frente aos então praticamente invencíveis exércitos nazis.

A questão que se coloca hoje é esta: o que será melhor para Portugal? Ter um Governo que continua a apostar no “irritante otimismo” ou prometer “sangue, suor e lágrimas”?

Se o futuro for apenas mau, talvez a primeira opção ainda mantenha a sua valia. Mas se o futuro for mesmo muito mau (e a queda sem precedentes do PIB não nos dá grandes esperanças nesta matéria) talvez o “sangue, suor e lágrimas” seja a melhor estratégia. Com efeito, se as coisas vierem, de facto, a correr muito mal, é preferível termos um povo ciente das dificuldades que terá de ultrapassar do que cidadãos anestesiados e sem garra para fazer face aos enormes desafios que têm pela frente. Porque, mais do que nunca, os desafios exigirão um empenho e um comportamento verdadeiramente coletivos.

Sem querer ser pessimista, fica-me a dúvida: se for necessário, conseguirá António Costa gerir sob o lema de Churchill?

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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