Marques Mendes: "Risco é sério e existe um risco latente de ingovernabilidade"

Introduzir ambição, otimismo e confiança no léxico e nas prioridades dos portugueses foi a mensagem-chave de Luís Marques Mendes, o <em>keynote speaker</em> no congresso que hoje juntou mediadores e corretores de seguros no Centro de Congressos do Estoril.
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Desafiado a falar sobre a importância das pessoas num futuro repleto de tecnologia, optou por elencar as preocupações atuais da população e por destacar os pontos fortes de um país que "não é pequeno". No contexto da União Europeia, Portugal é de dimensão média em população e território, mas "tem um conjunto de vantagens que é preciso explorar", disse Luís Marques Mendes na sua intervenção no 9º Congresso da APROSE. "Não fomos, nem somos irrelevantes na Europa e no mundo", salientou ainda o comentador político, que defende que é preciso introduzir ambição, otimismo e confiança no dia-a-dia dos portugueses para que o país possa tirar partido de todo o seu potencial. Há, no entanto, desafios que se colocam às pessoas, conforme o tempo e as circunstâncias. E é por isso que diz, remetendo para o mote da sua intervenção, "o futuro sempre foram as pessoas. O que muda são os desafios".

Luís Marques Mendes defende que os portugueses debatem-se atualmente com um conjunto de preocupações que são, em simultâneo, desafios e oportunidades para o país. Em primeiro lugar, a segurança que "não é fácil porque o mundo está inseguro e potencialmente perigoso". O comentador acredita que a guerra na Ucrânia não terminará antes de 2024, mas que o grande perigo é a sua normalização, que já está a acontecer. "Corremos o risco de voltar a uma guerra fria, entre China e Estados Unidos, ainda pior do que a que ocorreu nos anos 60". Marques Mendes acredita que o epicentro da Europa passará para o Pacífico, com consequências económicas, sociais e, potencialmente até, militares.

A este nível, Portugal tem uma mais-valia na Europa e no mundo pois é um país seguro, mas a política externa acaba por ter impacto na vida de todos. Ainda assim, o país pode, na opinião do comentador, beneficiar da atração de investimento e da deslocalização de empresas que estão a sair de territórios mais a leste, para o sul da Europa.

Outra preocupação dos portugueses é, para Marques Mendes, ter uma economia boa, saudável e sustentável, capaz de gerar riqueza e emprego. Para percorrer este caminho, o orador explica que já estão a acontecer três coisas importantes: contas certas, exportações a crescer, e agendas mobilizadoras. Por um lado, o consenso político trazido pela troika foi fundamental para que o conceito de contas certas se materializasse. "Hoje temos o défice mais baixo da Europa e estamos a conseguir baixar a dívida", diz. Mas, alerta, "é preciso valorizar este caminho porque nada está adquirido". Na vertente das exportações, que ultrapassaram os 50% do PIB, o comentador destaca o trabalho das empresas que perceberam que o mercado interno era pequeno para os seus negócios e que saíram da zona de conforto. "Um caminho que é preciso continuar a trilhar". Por último, a criação de agendas mobilizadoras, no âmbito do PRR está a materializar o trabalho conjunto entre empresas e sistema científico e tecnológico nacional, o que "pode ter um efeito multiplicador no PIB nos próximos anos".

Um estado social de qualidade é outra das preocupações elencadas por Luís Marques Mendes. O envelhecimento da população é um problema, e o SNS não consegue dar resposta a esta pressão social mesmo com mais investimento e reorganização. "O setor privado e o social são essenciais como complemento da saúde pública, e uma área em que os seguros devem estar muito atentos", diz. Um tema relacionado com a preocupação com o chamado "inverno demográfico", um desafio nacional, mas também europeu. A grande prioridade, acredita o comentador, é a imigração que "não deve ser vista como um problema, mas como uma oportunidade e uma necessidade".

Investir na tecnologia e na sustentabilidade é, para Marques Mendes, "uma inevitabilidade", e a quinta preocupação que elenca para o país. Na sua perspetiva, a digitalização é uma oportunidade de mudança e, por conseguinte, de sustentabilidade nos negócios, que podem ser mais eficientes e socialmente responsáveis. Por outro lado, o digital permite tirar maior partido dos dados e da informação que geram, com impacto a nível económico, social e ambiental. "Os clientes são também cada vez mais sensíveis a quem tem estas preocupações, pelo que é uma vantagem competitiva", reforça.

A qualidade da democracia é outra das preocupações atuais dos portugueses, segundo Marques Mendes. "Os portugueses gostam de viver em democracia, mas não estão satisfeitos com a democracia que têm atualmente". Na opinião do comentador político, há riscos e desafios neste domínio que, se não forem ultrapassados, todas as atividades económicas serão afetadas. "O risco é sério e existe um risco latente de ingovernabilidade a que um país a sério dificilmente resiste porque perde competitividade", afirma, reforçando que esta situação é má para as pessoas, mas bom para os políticos e para os populistas. A solução, aponta, passa por ter ambição, "que tem faltado nos decisores em geral e nos decisores políticos", e por tirar partido daquilo em que somos bons: resolver pela criatividade e pela flexibilidade.

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