Más reuniões

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Muitas da melhores reuniões que tenho tido são reuniões onde se discutem e confrontam pontos de vista, onde se desacorda e onde se decide e avança. Mas são também reuniões onde as pessoas se chateiam umas com as outras. São más reuniões. Eu, como sabem alguns dos meus clientes e colaboradores, sou dado a más reuniões, pois não consigo não dizer o que penso, não consigo fingir que percebo o que não percebo e não consigo deixar passar erros, quando os vejo, só para que possamos sair da reunião todos amigos como acontece nas boas reuniões.A boa reunião é um fim em si mesmo, as pessoas reúnem-se para passar um momento agradável, todos são agradáveis uns com os outros, ninguém atropela ninguém, sobretudo se ninguém for alguém, e se, pontos de vista contrários e irreconciliáveis dão de caras uns com os outros, logo se evita o confronto com um adiamento, um logo se vê, um vamos então pensar nisso.Nas indústrias criativas, ou contrário de por exemplo numa reunião de Natal em família, as más reuniões tendem a produzir bons resultados. Porque não há muitas regras escritas, a "criação" é sempre uma descoberta de novos e "decartografados" territórios, porque o novo provoca sempre desconforto, porque a criação atrai egos cujo tamanho é, na maior parte das vezes, directamente proporcional à irrelevância das ideias que produz e porque há sempre um cliente que, não sendo "daqui", encomenda e paga, qual Medici renascentista. É nas reuniões que todos estes factores colidem e que esta tensão mais se sente e, ou explode em más reuniões de onde sai bom trabalho, ou é sublimada em boas reuniões que produzem muitas más decisões que encadeiam em mau ou irrelevante trabalho. Podem mesmo dividir-se as agências que trabalham no sector das artes comerciais em dois grupos: as que têm como produto do seu trabalho, a boa reunião, e as que têm como produto do seu trabalho, o bom trabalho.Mas não é só no nosso sector que isto acontece. A pouco produtiva "boa reunião" encontra-se em todo lado como resultado da diplomacia do sorriso e da boa educação. O nosso país, e a Europa, estão cheios de boas reuniões onde muito se sorri e pouco se decide. Ainda há pouco, Passos Coelho, teve a sua primeira boa reunião na Europa. Uns dias depois levou um murro no estômago.Eu tenho passado os anos a ter reuniões que muitas vezes são muito más e o resultado tem sido óptimo; o trabalho é eficaz e as empresas que o encomendaram têm tido bons resultados como resultado de bom trabalho saído de muitas más reuniões. Claro que para uma má reunião produzir bons resultados é preciso ter a sorte de ter à volta da mesa inteligência, coragem e frontalidade. A falta de coragem e frontalidade dá reuniões iguais às do conselho dos chefes do governo da União Europeia: boas reuniões de onde todos saem a dizer que correu muito bem, que foi uma boa reunião e que foram feitos avanços, mesmo quando às arrecuas. É a diplomacia do sorriso e da boa educação, incompatível, a maior parte das vezes, com a boa decisão. Eu sou pela diplomacia das más reuniões.P.S.: uma técnica interessante é reunir de pé. Numa reunião de pé, há um sentimento de urgência para sair dali e encontrar uma cadeira, o que leva à decisão rápida. A União Europeia tem reuniões demasiado confortáveis. Se estivessem de pé decidiam melhor, ou melhor, decidiam. E a Merkel desconfortável (terá varizes?), só podia ser bom para a União.Chief Creative Officer evice-presidente da BBDOEscreve à sexta-feira

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