Mensalões a céu aberto

Em 2005, o Brasil parou porque foi descoberto um esquema de corrupção chamado Mensalão. Em traços gerais, sob orientação de José Dirceu, o braço direito de Lula da Silva e então Ministro da Casa Civil, o governo comprava votos de deputados.
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Os parlamentares corrompidos recebiam mensalidades na ordem dos 30 mil reais (cerca de 7000 euros) para votarem a favor dos projetos de lei que o Governo, então minoritário (90 deputados em 513), considerava importantes. O intermediário Marcos Valério era o responsável pelo que se designou "valerioduto", o circuito do dinheiro, que partia de empresas públicas e terminava no bolso dos corrompidos.

O sujeito ativo do Mensalão eram os membros do governo. O sujeito passivo os congressistas. E o dinheiro o método de compra. Como pano de fundo, além da debilidade moral dos intervenientes, uma política à brasileira onde no meio do pântano de 30 partidos, "se Jesus fosse presidente do Brasil até a Judas se aliava", como um dia Lula resumiu.

Quase três anos após a sentença que levou para a cadeia quatro dezenas de envolvidos no Mensalão, Dilma Rousseff está tão ou mais dependente do legislativo para sobreviver como o primeiro (e minoritário) Governo Lula.

Por um lado, porque os deputados podem chumbar o ajustamento orçamental que ela e o seu Ministro da Fazenda cozinharam para salvar as deficitárias contas públicas. Por outro, porque ainda ameaçam aprovar medidas que vão inchar na ordem dos milhares de milhões as já gordurosas despesas do país. Finalmente, porque lhes cabe votar os pedidos de impeachment que forem entrando na casa.

Os líderes tanto do Senado como da Câmara dos Deputados, as duas casas do Congresso, são respetivamente Renan Calheiros e Eduardo Cunha, barões do PMDB, o aliado teórico mas rival prático do PT e de Dilma. Mais: Michel Temer, o vice-presidente e, à partida, o homem em cujo colo cairia a presidência em caso de impeachment, é o presidente do partido.

Posto isto, se quiser continuar no cargo, Dilma precisa de acalmar os três caciques peemedebistas. Vai daí, ao fazer uma reforma ministerial, reduzindo os ministérios de 39 para 31, conseguiu achar espaço para aumentar a quota do PMDB de seis para sete - oferecendo-lhe o Ministério da Saúde do qual, por ter o maior orçamento, jamais o PT abdicara desde que chegou ao poder em 2003.

Ou seja, para ter os votos dos seus parlamentares, Dilma pagou, à frente de toda a gente e com os detalhes da negociação estampados nos jornais, o seu preço. A pergunta é: em que é que isto difere da génese do Mensalão?

O sujeito ativo é o executivo, o passivo o legislativo, o método de compra os milhões públicos da Saúde e os panos de fundo a falta de ética e a ingovernabilidade congénita do país. As eventuais diferenças - o Mensalão era um esquema profissional secreto e isto agora faz parte do suposto "jogo político" - são, na verdade, detalhe.

No Brasil, os mensalões, desde que feitos a céu aberto, passam impunes.

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