"Bloqueio" dos EUA põe petróleo a tocar novamente os 100 dólares por barril

O estreito de Ormuz continua a ser o centro das atenções dos mercados globais, entre a “portagem” imposta pelo Irão e a promessa de Trump de bloquear qualquer navio que a pague.
"Bloqueio" dos EUA põe petróleo a tocar novamente os 100 dólares por barril
FOTO: Frederic J. Brown / AFP
Publicado a

O petróleo voltou a superar a marca dos três dígitos nesta segunda-feira, 13 de abril, em função da nova escalada de tensões entre EUA e o Irão. Nas últimas horas, as negociações voltaram a recuar e estão pouco abaixo dos 99 dólares.

Até às 17h30, os contratos futuros de Brent avançavam perto de 7%, até aos 101 dólares por barril. Estes são a referência europeia para as negociações de petróleo.

Na origem está a queda das negociações entre a delegação dos Estados Unidos, que incluía o vice-presidente, JD Vance, e a contraparte iraniana. Na sequência, Donald Trump lançou várias ameaças, que dizem respeito ao estreito de Ormuz, por onde passa, em condições normais, 20% do comércio global de petróleo.

O presidente norte-americano avançou com um "bloqueio" aos portos iranianos, que teve início às 15 horas (hora de Lisboa). O mesmo estende-se a qualquer navio que pague uma taxa exigida pelas autoridades iranianas, que pode atingir os dois milhões de dólares por navio, de acordo com os relatos da comunicação social internacional.

Com isto, Trump procura cortar uma das grandes fontes de financiamento do Estado iraniano, que permite financiar a posição do governo (muito contestado pela própria população) e as respetivas operações militares. Para tal, a marinha norte-americana está no local e em estado de alerta para responder a qualquer aproximação suspeita.

Neste cenário, a situação é de incerteza, muito mais do que na passada sexta-feira (após o anúncio de um cessar-fogo e a expetativa por negociações entre as partes). Por um lado, o Irão promete cobrar uma taxa a todas as embarcações que queiram atravessar o estreito de Ormuz, à exceção daquelas que pertencem à frota de um aliado (ou do próprio Irão, naturalmente). Por outro, Trump garante que não vai deixar passar qualquer navio que pague a mesma taxa.

Neste contexto, a insegurança aumenta e ameaça pressionar a oferta de crude em todo o mundo, pelo que se reflete nos preços praticados à escala internacional. Em causa está mais "lenha para a fogueira", numa altura em que o mercado já estava tenso, num cenário de subidas e descidas bruscas que dura há cerca de mês e meio.

Altos e baixos do barril, em função da guerra

Tudo começou no início do ano, quando teve início a troca de avisos entre EUA e o Irão, que fez subir o barril de Brent, dos 60 dólares (a 7 de janeiro) para perto dos 70 dólares (a 27 de fevereiro). Na origem estiveram sobretudo os receios de que uma guerra podia ter início, causando disrupções nos países do Golfo e, por consequência, no estreito de Ormuz.

Foi então que tiveram início os ataques , quando Israel e os EUA iniciaram os ataques no Irão, durante o fim de semana. Na segunda-feira, dia 2 de março, os mercados reagiram em força. Os índices bolsistas caíram de forma acentuada, ao passo que o preço do barril disparou.

Os dias seguintes geraram um acumular de tensões, de tal modo que os preços atingiram os 109 dólares no dia 8 de março. Na altura, este pico constituiu um máximo desde 2022, mas havia mais para vir.

A 11 de março, a Agência Internacional de Energia avançou com a maior colocação de sempre de petróleo no mercado, na procura de dar estabilidade ao setor, ainda que sem grande sucesso. As negociações rondavam os 90 dólares e acabariam por voltar a escalar nos dias seguintes, para um novo pico.

No dia 18 de março, a resposta do Irão subiu de tom, com a ameaça de atacar infraestruturas energéticas dos países vizinhos. Uma eventualidade que gerou o pânico nas bolsas e voltou a fazer disparar o barril, que superou os 119 dólares, ficando ainda mais perto do recorde registado em 2022.

Seguiu-se uma queda forte no dia 23 de março, quando Trump anunciou a extensão do prazo para o Irão reabrir o estreito do Ormuz. O petróleo voltou a rondar os 96 dólares. Só que os iranianos não cederam.

A ameaça de atacar qualquer navio não aliado manteve-se e foi já no dia 5 de abril que o preço atingiu os 111 dólares por barril. Porém, o anúncio de um cessar-fogo e de negociações no fim de semana passado gerou um recuo novamente para a zona dos 95 dólares na quarta-feira e foi com os mesmos valores que encerrou a semana passada.

O clima tenso não ficaria por ali, tanto que esta segunda-feira trouxe um novo incremento. Os investidores aguardam novidades, numa altura em que é certo que a capacidade de oferta da indústria petrolífera demorará pelo menos vários meses para igualar a que existia antes do conflito, pelo que não é de esperar que os preços tão cedo voltem aos que estávamos "habituados".

Quem também beneficia disto em bolsa são os acionistas das petrolíferas. As respetivas cotações sobem quando o petróleo está em alta e, no contexto desta guerra, o cenário não é diferente. A título de exemplo, as ações da Galp Energia valorizaram perto de 35% desde o início do ano, o que significa uma subida superior a três mil milhões de euros em capitalização de mercado.

Com a época de resultados do primeiro trimestre a começar, é de antecipar que as contas entrem na cabeça dos investidores, numa altura em que as novidades sobre a guerra guiam, quase por inteiro, as movimentações gerais.

"Bloqueio" dos EUA põe petróleo a tocar novamente os 100 dólares por barril
Netanyahu desafia Europa a "fazer guerra pelo bem". Dois petroleiros voltam para trás no estreito de Ormuz
"Bloqueio" dos EUA põe petróleo a tocar novamente os 100 dólares por barril
Trump diz que EUA vão bloquear Estreito de Ormuz após negociações falharem

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt