

A volatilidade nos mercados financeiros é notória desde o início da guerra. Tanto o petróleo como o gás natural já estiveram mais caros em março e a tendência será para não superar os máximos mais recentes.
Esta é a conclusão dos analistas consultados pelo DN e DV, numa altura em que decorre o período de pausa nos ataques dos EUA a centrais energéticas em território iraniano. A promessa chegou por Donald Trump, na segunda-feira, sendo prolongada três dias depois até ao dia 6 de abril, ainda que mantendo o ultimato ao Irão. De resto, estão quase completas as primeiras quatro semanas de ataques, sendo que o presidente dos EUA havia deixado a garantia de que o conflito deveria demorar quatro a cinco semanas.
De referir que a OCDE já aponta para alterações macroeconómicas, a nível internacional. Os dados divulgados na quinta-feira, 26 de março, apontam para a inflação acima do anteriormente estimado para o presente ano, ao passo que a estimativa para o crescimento económico aponta a 2,9% já este ano (tal como na expetativa anterior).
Na UE, aquela instituição estima que a inflação acelere para 2,6% em 2026 (previsão anterior era 1,9%), ao passo que o crescimento económico foi revisto em baixa, para 0,8% (1,2% anterior). Nos EUA, a OCDE reviu a inflação em alta, para 4,2% (3,0% anterior), mas também o crescimento económico, agora nos 2,0% (1,7% anterior).
O Irão continua a bloquear o estreito de Ormuz para embarcações que não pertençam aos respetivos aliados. No parlamento, em Teerão, discute-se a possibilidade de se impor o pagamento de uma portagem a outros navios que queiram passar por aquela zona sem correrem riscos. Todo um cenário que dá força a "expetativas de regresso de inflação" no setor energético, extensível à economia global.
Quem o diz é Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa. "À medida que os dias passam e o estreito de Ormuz continua quase totalmente encerrado", explica. Assim sendo, "crescem os receios relativos a uma crise semelhante à de 2022."
Em causa esteve o disparo dos preços na indústria petrolífera, que resultaram da fase inicial da guerra entre Rússia e Ucrânia. Uma vez mais, os preços do petróleo dispararam. Ainda assim, rondou os 102 dólares até às 20 horas desta quinta-feira, depois de se aproximar dos 120 dólares no dia 19 de março, ainda abaixo dos máximos de 2022.
A tendência leva o analista a acreditar que os preços não voltarão a disparar. Ainda assim, é notório o impacto na inflação. Paulo Rosa alerta que a subida dos valores "repercute-se no consumidor" e a escalada faz os mercados descontarem alterações nas políticas monetárias. Antecipam-se agora subidas nas taxas de juro do BCE e reduz a perspetiva de cortes nos juros da Fed (já é mais provável um aumento do que uma redução).
Ora, em consequência da guerra, "o gasóleo foi um dos produtos mais penalizados", o que castiga severamente a economia. Em causa está, entre outros fatores, o impacto no gasóleo profissional, que é amplamente usado por empresas de transportes de passageiros e mercadorias, assim como táxis e viaturas dos bombeiros.
De referir que a escalada dos combustíveis é particularmente significativa no gasóleo, cujo preço já está acima do que se pratica na gasolina (historicamente, esta última é mais cara). Na base estão os custos ligados à refinação, uma parte da qual é feita em países do Médio Oriente - e nenhuma empresa portuguesa tem capacidade de o fazer, neste momento.
Ao mesmo tempo, Paulo Rosa assinala que as contradições no discurso de Trump e a troca de palavras entre o próprio e Teerão, no que respeita a supostas conversações de paz, estão a causar volatilidade nos mercados financeiros globais. O sentimento varia de forma agressiva, desde o início da guerra.
Ora, mesmo que as hostilidades terminassem de um momento para o outro, as condições não seriam as mesmas que se verificavam antes da guerra. Abrem-se as possibilidades de as seguradoras mostrarem ceticismo sobre futuros acordos, ao passo que as tripulações dos cargueiros e petroleiros poderão pedir "salários mais altos". Se assim for, "encarece o petróleo", reitera. Por outro lado, um ponto final no conflito resultaria num tombo nos preços, assinala.
Se a guerra terminasse hoje, "os preços vinham logo abaixo", diz. Uma situação, que de acordo com o próprio, se viu quando Trump anunciou conversações de paz, gerando uma queda repentina no barril de crude. Se a guerra terminar a curto prazo, o resultado será uma descida mais agressiva nos preços, ainda que não para os níveis anteriores à guerra, já que as indústria não irá recuperar dos danos no imediato e poderão haver feridas por sarar no Golfo Pérsico.
Uma perspetiva diferente tem Marco Silva, consultor estratégico e de investimentos, que também esteve à conversa com o DN e DV. A guerra e o bloqueio de Ormuz "é uma situação que não é possível perdurar no tempo, pelos mais diversos motivos e para todas as partes envolvidas", reitera.
"Não só o mundo ocidental quer isto resolvido rapidamente, o próprio Médio Oriente tem todo o interesse", incluindo o Irão, já que, no caso de um bloqueio às exportações iranianas, "este fica sem receitas", salienta. Aquela é a maior fonte de financiamento do orçamento daquele país, fruto das exportações, com enorme impacto em toda a economia iraniana. Recorde-se que o Irão está entre os países com maiores reservas petrolíferas em todo o mundo.
Neste contexto "interessa [na visão do Irão] que o petróleo esteja a preços um pouco mais elevados, mas é uma questão de tempo até recuar", garante. "Nem estou a ver possibilidade de ir muito além dos 120 dólares", diz ainda. Também da perspetiva da administração norte-americana, há vantagens em que a guerra não demore muito mais tempo, garante.
É que se aproximam as eleições intercalares nos EUA, algo que deixa o Partido Republicano "bastante preocupado, tendo em conta as perdas de lugares [recentes] no Congresso", pelo que Donald Trump "não pode prolongar muito mais esta situação", de forma a não deixar o eleitorado descontente, diz Marco Silva. A subida dos preços "está a impactar nos consumidores americanos" e tudo isto são fatores "a ter em conta", na hora dos líderes tomarem decisões.
Voltando ao comparativo com 2022, Marco Silva lembra que, aquando do início da guerra na Ucrânia, a Rússia era o principal exportador de energia em todo o mundo. Ora, neste momento, a crise afeta vários dos principais exportadores do setor (em condições normais, 20% do mercado mundial de petróleo e gás natural passa pelo estreito de Ormuz), o que a torna "bastante mais grave do que o que aconteceu em 2022", atira.
No entanto, "os preços não subiram tanto", desta vez. Uma situação que, de acordo com o próprio, é ainda mais evidente no gás natural, cujos preços que se praticam nos mercados internacionais ficam muito abaixo dos máximos registados em 2022. O gás "nem sequer está forte", diz, durante a tarde desta quinta-feira, quando os contratos futuros de TTF (referência europeia) estavam a ser negociados abaixo do máximo relativo de dia 9 de março (ponto mais alto desde o início da guerra) e muito abaixo dos máximos de 2022.
O especialista diz que a tensão que resulta da guerra atual já foi mais evidente e era maior em 2022 (sobretudo no gás, mas também no petróleo), a julgar pelo comportamento registado nas negociações. "Não vejo o mercado preocupado com o gás natural", ainda que se nota "um pouco mais" de tensão relativamente ao Brent, sustenta.
Assim sendo, os valores envolvidos não devem ser fator de preocupação a grande escala, nem mesmo para quem vê de fora, na medida em que "se isto fosse algo extremamente grave e previsível que fosse grave no futuro, os preços aumentavam muito mais", em função de uma redução mais drástica na oferta.
Em todo o caso, "de certeza que vai haver volatilidade", pelo menos a curto prazo, alerta. Ainda assim, o próprio acredita que tal não se deve, no médio prazo, às declarações de Donald Trump e publicações do próprio nas redes sociais.
É que, independentemente do que diz o presidente norte-americano, "o que importa é o que o mercado tecnicamente está a fazer, porque, por norma, os mercados tendem a corrigir ou recuperar em "um dia ou dois" das movimentações que resultam diretamente das afirmações do presidente dos EUA.
Recorde-se que são vários os analistas que alertam para as movimentações bruscas recentes e a necessidade de haver 'sangue frio'. Independentemente dos eventos futuros, certo é que a guerra promete continuar a guiar o sentimento dos investidores, pelo menos no futuro mais próximo.