Meta nojo

Publicado a

"O metaverso mete nojo", dizia-me o CEO de uma startup que está a fazer coisas incríveis com tecnologias do futuro. Há muitas inovações entusiasmantes neste momento, mas para este auto-proclamado geek, o metaverso não é uma delas.

A sua premissa é que a sociedade já está a caminhar perigosamente para um mundo demasiado virtualizado, em que os indivíduos se remetem ao seu espaço pessoal na bolha dos ecrãs e das redes sociais, em vez de terem interacções físicas no mundo real.

Tem razão. A pandemia obrigou-nos a um distanciamento social extremo, mas a tendência já estava em curso e só tenderá a ficar pior. O conceito de metaverso vai empurrar-nos ainda mais para essa zona de imobilidade, que pode até ser confortável mas é definitivamente indesejável.

Ouviu-se de forma repetida durante o confinamento o mantra de que o ser humano é um animal social e que precisamos do toque, do olhar nos olhos, do abraço, da energia única e intransmissível que geramos quando estamos com outras pessoas. O mundo virtual não substitui nada disso.

Uma reunião no Zoom não é o mesmo que a reunião à volta de uma mesa e um concerto vivenciado através de óculos de realidade virtual não chega aos calcanhares da experiência da música ao vivo. Queremos mesmo acreditar que uns avatares num universo meta serão a coisa mais excitante desde que se inventou o pão fatiado?

Vai haver um espaço para o metaverso, é claro, e um mercado apetecível para muitas empresas. O Facebook, a Microsoft e outros não se meteriam nisso de outra maneira. "O metaverso é a próxima fronteira, tal como as redes sociais o foram quando começaram", disse Mark Zuckerberg, fundador do Facebook e CEO da Meta, precisamente quando anunciou a mudança de nome da empresa para espelhar a nova aposta.

Uns dados interessantes da Morning Consult mostraram que os consumidores não ficaram muito impressionados com a nova nomenclatura, e a torrente de "memes" a fazer pouco da mudança comprovou isso. Nomes à parte, esta semana houve até um milionário da tecnologia, Orlando Bravo (co-fundador da capital de risco Thoma Bravo) a dizer de forma entusiástica que o metaverso "vai ser grande" e o momento é propício para investir nele.

O que isso não quer dizer é que será bom ou socialmente positivo, apesar de a tecnologia ser agnóstica por princípio - nem boa nem má, maleável àquilo que fazemos dela. E esse é o problema, senhores. As mãos que estão a puxar os fios por detrás disto não inspiram enormes doses de confiança e está claro que o mercado tende a privilegiar o crescimento e o lucro mesmo que em claro prejuízo para os utilizadores e a sociedade no geral.

Há para muitos esta ideia de que toda a inovação tecnológica é boa e que o progresso é uma linha recta em ascensão perene. Não é. Só porque podemos fazer algo, não quer dizer que devamos fazê-lo.

Por uma vez, seria bom pensar bem nas consequências e no poder transformador deste conceito que é cada vez menos ficção científica e mais cenário apocalíptico ao estilo Black Mirror. Milhões de pessoas enfiadas em casa com óculos de realidade virtual a interagirem com amigos através de avatares enquanto beliscam snacks de queijo é o oposto de progresso. Se essa é a próxima fronteira, estou numa de cancelar a viagem.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt