Metade da economia portuguesa já regressou aos níveis pré-pandemia, mas há problemas

Construção 12% acima do nível pré-pandemia (face aos três primeiros trimestres de 2019). Ramo "comércio e oficinas auto; alojamento e restauração" está 14% abaixo.
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Quase metade da economia portuguesa já conseguiu regressar aos níveis pré-pandemia (medidos a preços correntes ou a preços constantes), mas, ainda assim, a economia como um todo continuava abaixo desse ponto de viragem no final do terceiro trimestre deste ano porque atividades com grande peso no PIB ou produto interno bruto (como comércio, alojamento, restauração e transportes, por exemplo) continuam bastante abaixo do par.

De acordo com cálculos do Dinheiro Vivo a partir das contas nacionais até ao terceiro trimestre, ontem divulgadas pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), o PIB de Portugal acumulado do primeiro ao terceiro trimestre deste ano continuava 2,5% abaixo do nível registado em igual período de 2019, o último ano antes da pandemia covid-19. Estes dados são a preços correntes, ou seja, incluem a inflação.

No entanto, a realidade difere consoante as atividades. Muitas já mais do que recuperaram desta crise, caso da construção, cujo valor acrescentado bruto ou VAB, já está quase 12% acima do nível pré-pandemia (face aos três primeiros trimestres de 2019).

No extremo oposto, aparece o ramo de atividade "comércio e reparação de veículos; alojamento e restauração", que está 14% aquém do que era há dois anos, nesta altura do ano. Este grupo de atividades representa cerca de 15% da economia, segundo os dados do INE.

A lutar pelo regresso ao quadro pré-pandemia estão outras atividades. O conjunto "transportes e armazenagem; atividades de informação e comunicação" está mais de 9% abaixo. O trio "energia, água e saneamento" está 2,6% abaixo. À indústria transformadora falta-lhe recuperar 1,5%. (ver infografia).

Como referido, a construção parece já ter limpado as perdas, estando hoje 11,8% acima dos níveis anteriores à covid-19.

O ramo de atividade com maior peso no PIB -- banca, seguros, serviços financeiros e imobiliárias (16% do PIB) -- já se encontra 3,4% acima do nível. A agricultura, silvicultura e pescas ganhou já 1,7% face ao que tinha antes de o coronavírus aparecer. Estamos sempre a falar de medições no final do terceiro trimestre e a preços correntes.

No caso da agricultura e da energia, o facto de a inflação estar incluída nos valores assumidos ajuda a explicar a forte retoma, já que os preços da energia e das matérias primas têm registado aumentos muito significativos nos últimos meses devido a ruturas nas cadeias de armazenamento e de transportes globais.

Em todo o caso, segundo os cálculos do DV, a situação a preços constantes (descontando a inflação) não se altera em termos de atividades. Os ganhadores e os perdedores desde que começou a pandemia são os mesmos.

INE confirma abrandamento

Portugal, assim como os outros países europeus, está a experimentar um abrandamento geral do produto interno bruto (PIB), que passou de um ritmo de expansão de 16,1% no segundo trimestre para 4,2% no período julho-setembro, em termos homólogos, confirmou o INE.

O consumo público, que no fundo é a parte da economia que diz respeito ao valor acrescentado dado pelo setor das administrações públicas na parte que diz respeito às suas despesas de consumo final, avançou 3,7% no terceiro trimestre face a igual período de 2020, ritmo bastante inferior aos 9,8% do segundo trimestre. Foi o agregado da procura menos enérgico.

Ainda assim, é preciso dizer que este ritmo da despesa final pública (3,7%) é historicamente elevado quando comparado com o período pré-pandemia, reflexo das medidas do governo para combater os efeitos da pandemia e das medidas de confinamento. Entre o início de 2015 e final de 2019 (final do programa da troika e antes de rebentar a pandemia) a despesa de consumo público cresceu, média, apenas 0,9%.

Em todo o caso, todas as outras componentes da procura registaram um comportamento semelhante: os ritmos de expansão caíram a fundo entre o segundo e o terceiro trimestre deste ano.

As exportações, por exemplo, estão a crescer agora quatro vezes menos do que no trimestre anterior: o INE estima um aumento homólogo de 10,2% (tinha sido 39,8% no segundo trimestre).

As importações idem, mas como o avanço das compras ao exterior foi de 11% (superior aos das exportações), o setor externo (procura externa líquida) continuou a penalizar a dinâmica da economia portuguesa. O INE diz que é, sobretudo, por causa da explosão nos preços da energia (a qual Portugal importa passivamente, sobretudo petróleo e gás).

A maior componente do PIB português é o consumo privado (das famílias), que representa quase dois terços do total. As despesas finais dos lares portugueses cresceram 4,6% no terceiro trimestre, um ritmo quatro vezes inferior ao do trimestre precedente (18,8%).

O investimento cresceu a metade da velocidade. Tinha avançado 12,3% no segundo trimestre, agora avançou 5,8%.

Energia e matérias-primas desequilibram

O INE explica que este abrandamento generalizado da economia acontece porque o segundo trimestre deste ano sofreu um efeito de base muito pronunciado: os crescimentos verificados em abril-junho últimos comparavam com o mesmo período de 2020, altura em que o início da crise pandémica fez colapsar a economia.

Diz o INE que "o Produto Interno Bruto (PIB), em termos reais, registou uma variação homóloga de 4,2% no 3º trimestre de 2021. No trimestre anterior, a variação homóloga do PIB tinha sido 16,1%, em grande medida, devido ao forte impacto da pandemia no 2º trimestre de 2020".

O INE chama ainda a atenção para o facto de no 3º trimestre de 2021, os deflatores [preços associados] das importações e das exportações terem registado "crescimentos acentuados, sobretudo relacionados com a evolução dos preços dos produtos energéticos e das matérias-primas, prolongando-se a perda nos termos de troca observada no trimestre precedente".

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