

“Estamos aqui, trinta anos depois, para falar sobre o Windows nesta nova era da IA”, anunciou o CEO da Microsoft, Satya Nadella, no evento que precedeu o arranque da conferência anual Build esta semana. O executivo recordava o lançamento marcante do Windows 95, que foi fundamental na nova era de tecnologias de informação, e comparou a sua importância ao que está a acontecer agora. É uma nova era em que a inteligência artificial (IA) permeia todos os dispositivos e aplicações, e os computadores não só conseguem entender o utilizador, mas antecipar o que precisa.
“O que está a impulsionar isto é a escala”, disse, referindo que a capacidade está a duplicar a cada seis meses. Nadella caracterizou a plataforma Azure como “o computador do mundo”, uma infraestrutura disponível em todo o lado que permitirá implementar IA de forma maciça. Mas o que fez virar as cabeças no Build 2024 foi o lançamento da nova geração de computadores com Windows, Copilot+ PC. Dispositivos baseados na arquitetura Arm - uma transição que a Apple fez em 2020 com bons resultados - e preparados para as aplicações IA do futuro.
“Isto é interessante porque estamos a entrar a todo o gás nesta nova geração de inteligência artificial local, nos PC”, disse ao Dinheiro Vivo Francisco Jerónimo, vice-presidente associado da divisão de dispositivos na IDC EMEA. “O que o Windows on Arm permite é ter um computador em que a bateria dura muito mais horas e ao mesmo tempo tem muito mais velocidade de processamento”, resumiu. “São computadores que têm uma capacidade de processamento à volta dos 30 e 40 TOPS [biliões de operações por segundo], com um NPU [unidade de processamento neural] dedicado para AI”, continuou. “Comparativamente, os chipsets da Intel ou da AMD estão muito abaixo dessa capacidade.”
As principais fabricantes de computadores vão lançar dispositivos Copilot+ PC, desde a Dell e HP à Lenovo, Acer, Samsung e Asus. A própria Microsoft terá os seus portáteis Copilot+ Surface Pro e Copilot+ Surface Laptop, com chips Snapdragon X Elite e X Plus da Qualcomm.
“Há aqui toda uma revolução ao nível dos computadores pessoais que usamos no dia-a-dia e vão trazer experiências únicas que até agora não eram possíveis”, salientou Francisco Jerónimo. No Build, a Microsoft ilustrou várias. Por exemplo, ter o Copilot a funcionar como assistente digital que faz o sumário de uma chamada de trabalho no Teams. Ou perguntar-lhe onde vimos um link há três semanas, através da nova funcionalidade Recall. Ou ainda obter tradução instantânea do que está a ser dito numa chamada através de legendas ao vivo.
“A grande vantagem da IA para o utilizador não é apenas poder criar umas imagens ou ter acesso ao ChatGPT, que dá respostas em função da informação pública, mas dar respostas sobre a minha informação pessoal”, salientou o analista da IDC. “E isso só é possível se os dados que forem usados para treinar os algoritmos estiverem protegidos e puderem ser usados localmente. É isso que os novos PC vão permitir.”
O salto exponencial nas funcionalidades vai levar o mercado mundial de computadores a crescer novamente, depois de anos de quebra. A IDC prevê que as vendas globais de computadores cresçam 3,4% em 2024 e 6% em 2025, impulsionadas pelo que chama de “máquinas IA”, um segmento que terá taxas de crescimento entre 60% e 70%. Só este ano, serão vendidas 49,4 milhões de unidades e, em 2025, o número duplicará para 98 milhões.
“Toda esta IA vai obrigar a uma grande renovação de PC, smartphones e tablets nos próximos anos”, salientou Francisco Jerónimo, que desaconselha a compra de sistemas x86 neste momento. “Mais vale esperar pelos novos PC que vêm aí”, indicou.
Para o especialista, Intel e AMD são mesmo as empresas que estão em risco com esta transição. “Isto foi um grande momento para a Qualcomm, o que mostra que o futuro de todos estes dispositivos vai estar em tecnologia móvel, que veio dos smartphones”, explicou.
“O Windows on Arm é uma grande transição que a Microsoft vai fazer. Como é óbvio, não pode pôr de lado a Intel e a AMD, até porque há aplicações que ainda só correm na arquitetura x86, mas o certo é que elas estão em risco, porque isto foi um foco total na Qualcomm.” A Microsoft disse que vão seguir-se Copilot+ PC com chipsets Intel e AMD, embora sem dar muitos detalhes.
No evento, a Microsoft vincou a superioridade dos novos modelos Arm face aos MacBook Air da Apple - de quem se espera novidades IA já em junho, no seu evento para programadores WWDC.
“Há aqui uma direção para este tipo de arquitetura que não se tinha vista até agora e que foi iniciada pela Apple, com os resultados óbvios de as máquinas deles serem muito mais rápidas e com melhor bateria”, salientou Jerónimo. “Fizeram a transição e a Microsoft estava atrasada. Agora vamos ver se realmente as máquinas têm a performance que eles dizem que têm.” A Microsoft disse que os modelos são “58% mais rápidos do que o MacBook Air com processador M3 mais avançado.” Os primeiros começam a chegar a 18 de junho e vêm de várias marcas. A Lenovo já anunciou o Yoga Slim 7x (1599 euros com IVA) e o ThinkPad T14s Gen 6 (1769 euros mais IVA). A Worten anunciou ofertas exclusivas para os Surface Copilot e os modelos Lenovo e Acer; e a HP revelou o OmniBook X, que chega em agosto ainda sem preço anunciado.
Como foi um evento virado para os programadores, Satya Nadella focou-se neles e no seu papel crítico para tornar a visão da Microsoft uma realidade. “Estamos a introduzir o Windows Copilot Runtime para que o Windows seja a melhor plataforma para vocês desenharem as vossas aplicações IA”, afirmou. “Isto não é sobre celebrar a tecnologia só pela tecnologia”, salientou. “Esta nova geração de IA já está a ter um impacto incrível.”