Agrega nove herdades numa só, emprega 60 pessoas e quer toda a sua produção agropecuária na rota da sustentabilidade. Em 2014 - depois de um processo de restruturação -, passou a chamar-se Monte do Pasto e é atualmente uma empresa pecuária com uma certificação de baixo carbono, localizada em Cuba e no Alvito, no Alentejo.
Ao Dinheiro Vivo, a CEO do Monte do Pasto, Clara Moura Guedes, explicou que a herdade produz cerca de 30 mil bovinos por ano e que, destes, cerca de 95% são exportados. E, embora os bovinos representem a maioria do negócio, na herdade também já se produz carne de ovino e borrego.
Apesar do cenário económico atual, a empresa continua a crescer. "Este ano, vamos faturar quase 30 milhões de euros, um crescimento de 22% em relação ao ano passado. Para o ano, estamos a prever um crescimento de 17%, também bastante significativo", revelou a responsável.
No entanto, a crise e a inflação galopante têm deixado a sua marca nas contas da empresa. O negócio cresceu, efetivamente, mas o aumento dos preços dos cereais e da energia levou a que existisse um esmagamento de margens. "Os nossos custos com matérias-primas mais do que duplicaram, coisas na ordem dos 250%, e na energia é a mesma coisa, mas os cereais foi mesmo o pior. Claro que tínhamos alguma proteção e isso ajudou-nos muito numa primeira fase", disse Clara Moura Guedes, que se orgulha da boa preparação e motivação da equipa que trabalha na herdade.
"Temos uma equipa de cerca de 60 pessoas, das quais 60% são licenciadas em áreas completamente diferentes", diz.
Como em vários outros setores, atrair e reter talento para trabalhar no Monte do Pasto acabou por se revelar uma tarefa complicada. "Nós estamos em zonas muito complicadas para atrair talento. Mas a nossa estratégia é um pouco diferente", elucida.
Assim, a decisão foi ir diretamente às faculdades, procurar candidatos para fazerem estágios. "Se as pessoas forem boas e quiserem ficar, é assim que fazemos o nosso recrutamento. Claro que é mais demorado, mas ao fim destes anos temos uma equipa já quase totalmente recrutada a partir deste método", afirma a gestora.
A estratégia deu resultado, e a CEO do Monte do Pasto alegra-se com a sua equipa variada e recheada de entusiastas, absolutamente necessários para enveredar pela faceta sustentável que Clara Moura Guedes quer, cada vez mais, imprimir na herdade. "Acho que fomos bastante inovadores nesse domínio, até porque estamos a falar de um setor muito familiar e muito fechado", considera. "Mas esta direção para a sustentabilidade foi óbvia para nós desde o primeiro dia porque a pecuária tinha, e ainda tem, uma conotação oposta a este conceito."
A intenção não é "só engordar vacas". "Temos uma pecuária semiextensiva, o que significa que as vacas estão ao ar livre em mais de quatro mil hectares de espaço", sintetiza aquela a responsável.
Atualmente, a Monte do Pasto já é certificada em baixo carbono e bem-estar animal. Paralelamente, está a desenvolver, em colaboração as Universidades de Évora e do Minho, o Ethical Meat, um projeto inovador. Projeto esse que, como explica Clara Moura Guedes, inclui desde o bem-estar animal, até à sustentabilidade das embalagens e redução do desperdício.
Para conseguir essa redução, foi desenvolvida uma gama de ultracongelados, que têm prazos de validade muito maiores, onde a carne é ultracongelada a temperaturas muito baixas e de forma muito rápida, o que permite preservar todas as características. "Além disso, a nossa gama caracteriza-se também por cortes individuais, para evitar que a comida seja desperdiçada", frisa.
No que ao bem-estar animal diz respeito, a CEO da empresa garante que o Ethical Meat nasceu para "ter a certeza de que toda a cadeia se foca nesse sentido e na sustentabilidade". Assim, foi criado um parque que é monitorizado através de câmaras e está equipado com vários dipositivos tecnológicos. Agora, os animais estão protegidos dos elementos, uma vez que existem coberturas em todos os espaços onde estão e, no verão, têm um duche à disposição, por causa dos sprinklers ali instalados. "Cumprindo estas regras, os animais ficam muito menos agressivos sendo muito mais fáceis de manear", resumiu Clara Moura Guedes.
Depois de implementadas estas técnicas, a produtividade nestes espaços é 20% superior à do maneio tradicional, segundo a empresa.
Além do Ethical Meat, a começar está também o projeto Lab Kitchen, onde serão desenvolvidos outros tipos de produtos já preparados.
Apelo ao governo
Um dos aspetos fundamentais do bem-estar animal é que estejam protegidos da chuva e do sol. Como tal, a Monte do Pasto está a instalar painéis solares, debaixo dos quais os animais se podem proteger, ao mesmo tempo que se gera energia renovável. Mas, para conseguir estender os painéis aos quatro mil hectares da herdade, seria necessário depois descarregar energia na rede. "A questão é que, para isso, estamos dependentes do Ministério do Ambiente e não há aqui um acordo. Estamos a apelar para que se resolva esta questão, porque assim poderíamos utilizar painéis solares, desde que nos deixassem descarregar na rede". Um problema burocrático para o qual a responsável pede solução, uma vez que já há um compromisso nacional e europeu para apostar neste tipo de energias.