Menos de metade das economias da zona euro devem conseguir evitar uma recessão este ano e Portugal é uma delas, defende um estudo da agência de rating Moody's. A instituição que avalia a capacidade de os países pagarem o que devem também parece estar confiante na redução da dívida portuguesa e deu nota disso neste mesmo trabalho.
Recorde-se que, no início de 2011, quando Portugal estava a caminho da bancarrota, a Moody's foi a agência mais agressiva contra o país, tendo sido na altura a primeira a reduzir o rating da dívida pública e a colocá-lo num nível considerado "lixo", isto é, as obrigações portuguesas não teriam valor de investimento, sendo ativos tão arriscados que poderiam nunca ser recuperados pelos investidores.
Em contraste com esses tempos de chumbo, hoje, a Moody's está bem mais confiante nas contas portuguesas. No novo estudo sobre o panorama (outlook) para os vários países da zona euro no atual contexto de crise energética e geopolítica, os analistas consideram que "o diferencial favorável entre a taxa de juro e o crescimento conduzirá a uma diminuição dos rácios da dívida em relação ao PIB [produto interno bruto] para 70% dos soberanos da zona euro".
A Moody's só tem agendada uma primeira avaliação oficial do rating português a 19 de maio. A primeira agência a abrir a época é a DBRS, esta sexta-feira.
Para já o tom é relativamente otimista. Além da redução da dívida, os avaliadores externos consideram que Portugal pertence ao grupo minoritário dos países que devem conseguir escapar a uma recessão em 2023. Acompanham a economia portuguesa Irlanda, Malta, Croácia, Eslovénia, Chipre, Luxemburgo, Grécia e Espanha.
Portugal regressa à dívida pré-pandemia
"No entanto, apenas Grécia, Irlanda, Chipre, Portugal e Croácia terão um peso da dívida inferior ao que tinham em 2019. Os níveis da dívida na zona euro continuarão a divergir muito, com rácios medidos em proporção do PIB a variar entre 22,6% na Estónia e 162,9% na Grécia", estima a agência.
"Entre os soberanos com uma dívida superior a 100% do PIB, Itália, Espanha, França e Bélgica terão encargos da dívida mais de 10 pontos percentuais superiores aos seus níveis pré-pandémicos, enquanto a redução de 18 pontos percentuais da dívida em relação ao PIB da Grécia entre 2019 e 2023 será provavelmente uma das maiores a nível mundial, muito embora a partir de um dos níveis mais elevados", sublinha a Moody's.
Claro que nem tudo são rosas. Os analistas da agência de notação financeira observam que os próximos tempos continuam conturbados, sobretudo para os países mais dependentes das importações e do turismo. "A fraca procura dos principais parceiros comerciais e os elevados preços da energia pesarão sobre as exportações."
A agência sublinha que a fraca procura dos EUA, do Reino Unido, da China e da Polónia vão pesar sobre o dinamismo do comércio da zona euro.
E acrescenta que, "embora as perturbações da cadeia de abastecimento global continuem a diminuir em relação aos picos no final de 2021, os preços da energia mais elevados e por mais tempo representam um choque de termos de troca mais duradouro", tendo em conta que as exportações da zona euro valem quase 30% do PIB da região.
O fim do boom do turismo
"Do mesmo modo, a recuperação do turismo atingiu provavelmente o seu pico, com custos de viagem mais elevados e uma queda do poder de compra em países emissores", o que significará uma travagem face aos níveis muito fortes de chegadas de turistas durante o ano passado.
Assim, "uma recessão económica mais profunda nos principais mercados de origem apresenta desafios adicionais para os países mais dependentes do turismo como Croácia (onde o setor viagens e turismo representa 16% do PIB), Grécia (15% do PIB) e Portugal (11% do PIB)".
O maná ainda incerto do PRR
Em contrapartida, a Moody's vê Portugal como um dos maiores beneficiários em termos proporcionais do fundo de recuperação europeu que financia o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Se for bem executado, pode fazer a diferença.
"O investimento ligado ao fundo europeu de recuperação pós-pandémica suavizará a contração económica. As subvenções disponíveis ao abrigo do Mecanismo de Recuperação e Resiliência (MRR) ascendem a 2,3% do PIB, ou uma média de 0,5% por ano durante 2022-26".
Mas, avisam os avaliadores, existem "estrangulamentos de longa data como a escassez de mão-de-obra e procedimentos burocráticos materiais e morosos", fatores que expõem "grandes riscos de implementação" do PRR. "Os países também solicitaram empréstimos no valor de cerca de 1,1% do PIB durante o mesmo período."
Tudo considerado, "os maiores beneficiários do PRR em termos de PIB são Croácia (atribuição de subvenções num valor equivalente a 9,7% do PIB), Grécia (9,6%) e Portugal (7,2%)".
(atualizado às 12h30 com infografia)