Uma das quatro grandes agências que avaliam o risco da dívida de Portugal, a Moody's, tem boas razões para tratar bem o país e até tem dado provas disso.
Hoje ao final do dia (sexta-feira, 19 de maio), a empresa pode reafirmar o rating soberano (a nota da dívida que mede o risco de crédito), com perspetiva estável e elogios a vários indicadores recentes que a economia tem mostrado e que têm merecido algumas menções favoráveis.
Foi o que fizeram a Standard & Poor's, a 10 de março último, e a Fitch, a 14 de abril.
Mas pode fazer mais do que isso. Desde então que têm saído vários indicadores, alguns muito favoráveis, que podem justificar uma subida de rating por parte da Moody's.
Há poucas semanas, final de março, cinco dias depois de serem conhecidos os números do défice e da dívida do ano passado (apurados pelo INE), a própria Moody's lançou o mote do que pode vir a ser a avaliação de hoje sobre o rating soberano de Portugal. Numa análise sobre a banca, transmitiu uma mensagem pintada com as palavras "estabilidade" e "solidez".
Os comentários simpáticos não têm vindo apenas desta agência de rating.
O desempenho económico e orçamental do país tem surpreendido, levando a Comissão Europeia (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) a reverem fortemente em alta a previsão de crescimento para este ano, por exemplo.
E a projetar um défice inferior ao objetivo do governo e do ministro das Finanças, Fernando Medina, para 2023.
O fator, o motor, que mais tem sido apontado como o maior responsável para este género de 'milagre' em plena crise inflacionista é o turismo, dizem ambas as instituições (CE e FMI).
Neste ambiente de relativo bom humor, a Moody's até pode subir o rating, basta somar à surpresa no crescimento, o brilharete orçamental de Medina, cujo plano era entregar um défice de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 e acabou por comprimir as contas públicas até 0,4%. O rácio da dívida também está a cair mais rápido do que se esperava.
Há escassas semanas, a Moody's disse que tinha "perspetivas estáveis" relativamente ao setor bancário e financeiro português uma vez que, acreditam os analistas que seguem o País, "os indicadores fundamentais dos bancos permanecerão sólidos, apesar do abrandamento da economia" em 2023.
Segundo a Moody's, "o desemprego português permanecerá praticamente inalterado e os preços do imobiliário estabilizarão após a subida acentuada em 2021 e 2022".
Adicionalmente, "os empréstimos não produtivos (NPL) [onde está o malparado] aumentarão de forma modesta, uma vez que a inflação corrói as finanças das famílias e das empresas e porque as taxas de juro mais elevadas aumentam os custos do serviço da dívida", disse a agência americana.
Seja como for, a rendibilidade da banca portuguesa, que está e sempre esteve direta e fortemente conectada com a saúde financeira do Estado e do país, "melhorará à medida que as taxas de juro dos empréstimos aumentarem mais rapidamente do que as taxas dos depósitos", indicam estes avaliadores de Portugal.
Para os quatro analistas da Moody's que assinam este estudo, "este facto compensará o aumento inflacionista das despesas operacionais e os custos de crédito mais elevados".
Além disso, "uma base de depósitos ampla e resistente e ativos líquidos consideráveis continuarão a apoiar a liquidez e o financiamento dos bancos, permitindo o rápido reembolso dos empréstimos do Banco Central Europeu (BCE)".
"Tendo em conta as recentes revisões em alta do crescimento deste ano e em baixa no défice orçamental e na dívida pública, a Moody's poderá subir a notação da dívida de Baa2 para Baa1", disse, à Lusa, Filipe Garcia, analista da consultora IMF - Informação de Mercados Financeiros.
Ainda que a agência também possa faturar na avaliação ao País um elemento bastante negativo: "a instabilidade política recente", com o Presidente da República a colidir frontalmente com o primeiro-ministro. E em público.
A última avaliação com mexida no rating por parte da agência norte-americana aconteceu em setembro do ano passado, quando subiu o rating de Baa3 para os atuais Baa2.
A Moody's manteve durante vários anos (desde o começo da crise soberana) a nota de crédito da República em níveis considerados "especulativos" ou "lixo", na gíria dos mercados.
Em outubro de 2018, já com a crise para trás das contas, tirou Portugal do lixo, classificando a dívida em Baa3, o primeiro degrau acima dessa marca de má memória.
Se hoje subir o rating, Portugal já ficará três níveis acima do grau especulativo e isso pode ajudar a moderar a subida das taxas de juro do país, por exemplo.