Mundo mais sustentável depende do Estado, empresas e consumidores

Para cumprir os objetivos associados à transição verde, defendem os especialistas, é preciso mais ação, menos consumo e solidariedade. Penalizações e incentivos fiscais são soluções apontadas.
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Uma revolução não se faz de forma solitária, é preciso convocar todos os agentes - Estado, empresas e consumidores - para alterar o rumo do desenvolvimento económico, defenderam, na quinta-feira, os especialistas que participaram no segundo debate do movimento Faz pelo Planeta by Electrão. Em causa está o consumismo excessivo, a baixa percentagem de materiais reciclados na produção e a falta de solidariedade de regiões como os EUA e a União Europeia (UE) com países em desenvolvimento. "Não podemos deixar de dizer que a UE é o espaço, a nível mundial, onde há uma maior preocupação e ação em relação a estas questões [ambientais]", aponta Filipe Duarte Santos. O presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS) acredita que os países prósperos devem fomentar o progresso nas zonas mais pobres do globo, de forma a que estas possam contribuir para o esforço coletivo. "A transição energética não se pode fazer apenas nos nossos países, mas em todo o mundo", afirma.

Com o planeta a "duas velocidades", a transformação ambiental será difícil de concretizar em tempo útil, lembra. A ativista Joana Guerra Tadeu, um dos exemplos dados pelo movimento do Electrão para a sensibilização da população, concorda que "o desenvolvimento sustentável tem esta componente social" que não pode ser descurada. Apesar de assumir uma "visão muito pessimista", a jovem reconhece que a pandemia trouxe algumas melhorias nos "hábitos, operações, processos e sistemas até ao nível económico", embora acredite que, com o regresso à normalidade no cenário pós-covid, existe um risco de retrocesso. Um dos argumentos que apresentou para a descrença na manutenção de alguns resultados positivos - como a redução de emissões, do desperdício alimentar ou o aumento da reciclagem - prende-se com a data em que o país, todos os anos, esgota os recursos naturais da Terra. Em 2020, foi a 22 de agosto, mas neste ano esse dia chegou mais cedo, a 13 de maio. "É uma diferença gigante e ainda sem recuperação económica", alerta.

Susana Viseu, do projeto Business as Nature, e Joana Guerra Tadeu olham para a implementação de uma política de fiscalidade verde que incentive as corporações a optar pela utilização de materiais recicláveis, aumentando a circularidade da economia, assim como de combustíveis limpos. Esta visão, diz Susana Viseu, pode ser aplicada ao setor do turismo, responsável por uma fatia importante da riqueza nacional produzida, no período de recuperação. "Uma taxa turística nos alojamentos integrados na natureza para compensar essa perturbação" é um dos exemplos dados e com o qual Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal, discorda. "Não concordo que se imponham taxas a determinadas áreas ou setores só porque têm mais visibilidade", critica o responsável. A solução, defende, passa por apoiar as empresas a adaptarem-se às novas exigências ambientais, nomeadamente com a disponibilização de instrumentos financeiros europeus e nacionais. "Teremos novidades em breve", garante Luís Araújo, que aproveitou para lembrar um dos grandes objetivos traçados na Estratégia 2020-2027 para que "90% da atividade turística tenha medidas de gestão eficiente de água, energia e resíduos".

"Quando optamos entre um produto biológico ou um de produção massiva, o sustentável é mais caro", lamenta Susana Viseu, pedindo que a realidade seja invertida e que se favoreça, através do IVA, as opções verdes. Porém, a ativista Joana Guerra Tadeu considera que a responsabilidade não deve recair sobre o consumidor, já que o poder de compra e, consequentemente, de escolha não é igual entre todos. "Se depender do voto com a carteira não me parece democrático, porque nem todos podemos votar", sublinha.

O esforço para impulsionar a transição verde deve, por isso, ser distribuído de forma equitativa por todos os agentes envolvidos - Estado, empresas e consumidores. Ao poder político exige-se "mais ação" e coerência na regulamentação. Às empresas, os especialistas entregam a responsabilidade de repensar o sistema produtivo, mas também o papel de consciencialização e educação da população. Aos consumidores pede-se mais ativismo nas escolhas e na pressão que exercem sobre o Estado e os empresários. "Temos todos de aprender a viver com menos e, por outro lado, garantir que somos consumidores informados", apela Ricardo Furtado, diretor-geral adjunto do Electrão.

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