Na rua do Ouro, os ourives já são poucos

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"Havia madames de luvas a passearem os vestidos pela rua. Isso nunca

mais volta. Mas também não volta nada parecido", diz Clarisse Mota, 61

anos, dona da Ourivesaria Araujos na Rua do Ouro, em Lisboa.

A vida daquela que foi uma das ruas mais movimentadas da cidade mudou

muito nos últimos anos. As ourivesarias continuam a ser a maioria das

lojas existentes, mas há muito que algumas foram substituídas por

armazéns de chineses, paquistaneses ou indianos que vendem "relógios

muito baratos e que não precisam de conserto. Avariam e vão para o

lixo", lamenta Manuel Lopes, 81 anos, há 51 na Relojoaria Suíça.

A Rua do Ouro é uma das que foram reconstruídas depois do terramoto de 1955, mas uma parte já existia como Rua dos Ourives do Ouro. Apesar de a maioria das lojas ter sido sempre ligada ao negócio do ouro, a rua era dinâmica em termos de diversidade. Hospedarias, livreiros e grandes armazéns de tecidos eram algumas das referências.

Actualmente, muitas das ourivesarias alargaram o negócio à compra e venda de ouro em segunda mão, ao mesmo tempo que foram abrindo novas lojas apenas dedicadas a este negócio.

Manuel Lopes já perdeu a conta ao número de lojas que fecharam em 2011. "Os últimos dez anos têm sido mortíferos para o comércio tradicional e, em concreto, para este ramo de negócios", acrescenta.

Fernanda Igrejas, 61 anos e dona da E. E. Sousa e Silva recusa que a situação da Rua do Ouro seja pior do que outras. "Não fecham mais lojas aqui do que noutro sítio qualquer da cidade. A verdade é que a crise tem afectado todos os sectores. E o comércio tradicional é um dos mais frágeis", analisa.

Perto da hora de almoço, a Rua do Ouro vai ganhando nova vida. As pessoas que trabalham na zona saem para almoçar, mas poucas entram nas lojas. Ao contrário das primeira horas da manhã, em que as pastelarias são os únicos locais onde há movimento.

O retrato do comércio tradicional da Rua do Ouro integra o projecto

"Portas Negras", do Dinheiro Vivo, que pretende traçar o cenário do

comércio tradicional de Lisboa. A Rua do Ouro é o primeiro passo. Não

perca as próximas ruas.

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