Não desistir do Brasil

Publicado a

A vinda de Lula da Silva a Portugal permitiu normalizar as relações bilaterais, que se encontravam adormecidas pelo isolamento internacional a que o governo de Bolsonaro sujeitou o Brasil. Esta foi, aliás, a primeira visita de Estado de um presidente brasileiro nos últimos dez anos e a primeira cimeira entre os dois países dos últimos sete.
Apesar de todas as polémicas antes e durante a visita, a presença de Lula no nosso país constituiu um sucesso político e diplomático. As relações luso-brasileiras foram, de facto, revigoradas e a cooperação ganhou novos contornos com a assinatura de 13 acordos bilaterais.

Importa agora evitar que as relações luso-brasileiras voltem a esmorecer. Os dois países só têm a ganhar em manter a cooperação bilateral viva e dinâmica, fazendo jus ao extraordinário património cultural, linguístico e afetivo que une Portugal e o Brasil. Para além da obrigação histórica de promover a interculturalidade, há que abrir novas janelas de oportunidade para as trocas comerciais, o investimento económico, o desenvolvimento da inovação e o intercâmbio de talento, conhecimento e tecnologia.

A cooperação luso-brasileira é favorecida, talvez hoje como nunca, pelas diásporas dos dois países. Os brasileiros constituem a maior comunidade imigrante em Portugal, representando cerca de 30% dos estrangeiros residentes no nosso país. Por seu turno, há milhões de lusodescendentes no Brasil, muitos deles com grande influência social e económica. As diásporas portuguesa e brasileira podem, pois, ser um fator crescente de dinamização da cooperação bilateral.
Contudo, já se percebeu que a Europa não é uma prioridade para o Brasil e que, por isso, Portugal perde importância como porta de entrada na UE. Os BRIC parecem ter a primazia nas relações externas brasileiras, como se conclui das recentes declarações de Lula da Silva, designadamente a propósito da Ucrânia. No plano político, o Brasil defende uma ordem internacional menos dependente dos EUA e da Europa, enquanto na economia a China é vista como o parceiro comercial preferencial.
Portugal é, como se percebe, o país mais apto para evitar o distanciamento entre o Brasil e a UE. Neste sentido, cabe-nos fazer todos os esforços políticos e diplomáticos para que rapidamente se conclua o acordo UE-Mercosul, com o qual Portugal e o Brasil muito teriam a ganhar em termos económicos. Este deve ser um dos principais desígnios da nossa política externa e das nossas relações com o país-irmão.

Presidente da ANJE - Associação Nacional de Jovens Empresários

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt