Não há problema, o Estado paga!

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Num encontro recente de governadores dos bancos centrais da zona euro, responsáveis pelo Banco Central Europeu evidenciaram a preocupação pelo facto de os lucros das empresas estarem a subir mais do que o esperado no atual contexto inflacionista. Com efeito, seria até expectável que houvesse uma redução das margens, o que em muitos casos está longe de acontecer.

Esta constatação surge na linha de estudos que vêm sendo conduzidos, tanto na Europa como nos EUA, desde meados do ano passado. Em geral, todos eles evidenciam que o aumento dos lucros em variadíssimos setores de atividade, designadamente ligados à distribuição, tem sido superior ao incremento dos custos, incluindo os salariais. A explicação para este fenómeno situa-se, provavelmente, no campo da economia comportamental.

Comecemos pelo básico. A inflação pode decorrer de fatores ligados quer à procura quer aos custos. Do lado da procura, sabe-se que na Europa as atuais tensões inflacionistas encontram as suas raízes na política adotada pelo BCE a partir de 2015. Ao injetar dinheiro barato, o banco central procurou reduzir a pressão sobre os países mais alavancados e estimular economias anémicas na sequência da crise das dívidas soberanas.

A este crescimento da massa monetária juntou-se, mais recentemente, uma expansão apreciável da procura por parte das famílias potenciada pelo fim do confinamento, sustentada pelas poupanças entretanto acumuladas e fomentada pelos juros baixos.
É neste contexto que surgem as pressões do lado dos custos. Desde logo, as disrupções nas cadeias de abastecimento conduziram a um aumento significativo dos custos de transporte.

Por outro lado, a escassez de certos produtos críticos, como os semicondutores, fez com que o seu preço aumentasse. Finalmente, a guerra na Ucrânia serviu de detonador ao conduzir ao incremento, nalguns casos apenas temporário, dos custos da energia, cereais e certos metais.
Adotando uma visão tradicional da economia de mercado, seria de esperar que estes fatores se ajustassem fazendo com que a inflação viesse a abrandar. Com efeito, o crescimento dos preços deveria conduzir a uma contração da procura o que, por seu turno, levaria a uma retração do lado da oferta. Os salários, por seu turno, tenderiam a subir menos do que o índice de preços, o que originaria uma perda de poder de compra generalizada. Last but not least, como forma de minimizar estes efeitos, as empresas tenderiam a sacrificar parte das suas margens, abrandando a subida de preços de modo a reagirem assim à contração da procura.

Contudo, não é bem isto que está acontecer, em particular no que se refere ao "last but not least". Será que as empresas estão a tomar decisões inconsistentes, sobrepondo o curto ao médio e longo prazo? Creio que as razões para o que está a ocorrer se prendem com motivações que estão para lá da tradicional racionalidade económica.
Com efeito, numa sociedade em que o Estado tenta apoiar quem mais precisa - e, acrescente-se, também os que menos precisam e até os que não precisam nada - as empresas sabem que podem subir os seus preços para além do razoável pois os governos acabarão, mais cedo ou mais tarde, por implementar pacotes de ajudas, seja sob a forma fiscal (por exemplo, reduzindo impostos) e laboral (por exemplo, promovendo aumentos salariais), seja ainda sob a forma de apoios diretos aos mais carenciados (por exemplo, subsidiando as famílias mais vulneráveis).

É jogando na expectativa de que o Estado irá tudo fazer para apoiar a procura que muitas empresas não baixam os seus preços como seria expectável. Veja-se o que aconteceu em Espanha com a adoção de IVA à taxa de 0% para um cabaz de produtos essenciais e aguarde-se o que irá ocorrer em Portugal. O que significa que, na prática, uma parte significativa dos lucros extraordinários (sim, porque é isso que em muitos casos está a acontecer) decorre de uma transferência de recursos da esfera pública para a privada.

Não quero com isto sugerir que o Estado não deva apoiar quem precisa - se o fizesse, estaria a demonstrar uma insensibilidade social de que não comungo. Mas também não me parece que seja com mais Estado, como o PCP e o Bloco de Esquerda sugerem, que se vá resolver alguma coisa pois sabe-se que essas políticas só conduzem à estagnação e ao empobrecimento geral da sociedade.

Creio, sim, que valeria a pena que os responsáveis europeus pelas áreas económicas e monetárias, bem como pelas finanças a nível nacional, baseassem as suas políticas olhando menos para os manuais clássicos de Economia e mais para a forma como efetivamente as pessoas sentem, pensam e decidem.

Professor da Universidade do Porto - Faculdade de Economia e Porto Business School

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