Não havia necessidade!

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Admiro a obstinação com que alguns tentam impor a sua agenda a terceiros que sabem, antecipadamente, "não estarem nem aí"! Ao contrário de outras religiões, a Igreja Católica foi-se habituando a não entrar no jogo, aceitando, como aconteceu na Jornada Mundial da Juventude, que tal reflita o direito à liberdade de opinião. No caso, tal parece ter tido o condão de acirrar ainda mais os seus críticos que desataram a invocar o santo nome da separação Estado-Religião de uma forma tão canhestra que até alguém acima de qualquer suspeita, como João Oliveira, do PCP (no Público de 9/8), a criticou. Convenhamos que não estiveram sós naquela campanha: vários meios de comunicação social assumiram, com ligeireza inesperada, o discurso do eventual excesso de investimento público, sem o mínimo esforço para discutir o papel dos grandes eventos, mesmo que de cariz religioso, enquanto oportunidades únicas para obras de fundo que, de outro modo, nunca aconteceriam (e Lisboa devia sabê-lo...). Paradoxalmente, ou talvez não, nunca a distribuição regional dos custos e benefícios foi abordada, sendo certo que o Estado central assumia parte dos custos, enquanto que os benefícios acorreriam, maioritariamente, para a região de Lisboa.

Não me parece que seja fácil fazer um balanço rigoroso, no curto prazo, desses custos e benefícios (veja-se, mais uma vez, o impacto da Expo 98). Coisa diferente é o seu devido, e rigoroso, escrutínio, agora e depois. Sem esquecer que, por exemplo, as despesas privadas pagam IVA, receita do Estado que, de outro modo, não seria arrecadada ou que, havendo empresas com lucros extraordinários, devido às Jornadas, tal significará também mais IRC (para não falar do IRS das horas extraordinárias, etc.).

Todo este escarcéu pode ser levado à estação em que a JMJ ocorreu. Talvez. Parece-me, contudo, que, mesmo na silly season não é preciso exagerar: a discussão em torno da realização do evento foi um triste sinal da nossa incapacidade em irmos além de agendas mediáticas urbanas, simplistas e populistas. Não havia necessidade!

Alberto Castro, economista e professor universitário

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