O período tradicionalmente mais quente do verão está prestes a terminar. Aquele que tradicionalmente coincide com um período relativamente tranquilo no que diz respeito a desenvolvimentos económicos, desta feita trouxe alguma animação - sobretudo nos mercados acionistas, que depois de registarem uma correção pronunciada no princípio de agosto, recuperaram para máximos históricos nos últimos dias do mês.
A antecipação de subida de taxas de juro no Japão, que levou os investidores a desfazer financiamentos em ienes destinados a investir em títulos norte americanos (carry trades), foi uma das causas para a turbulência nas bolsas norte americanas, que chegaram a recuar cerca de 5% durante as primeiras sessões do mês. Outra razão esteve associada à quebra da confiança dos investidores relacionada com os dados mais fracos para o emprego na maior economia do mundo, gerando receios de que o atual nível das taxas de juro tivesse provocado danos maiores sobre a atividade, tornando a probabilidade de uma recessão mais elevada - elevando o debate sobre a urgência da Reserva Federal em descer taxas de juro de forma a estimular uma revitalização da economia.
As condições geopolíticas continuaram a ter peso, e deverão continuar a marcar o resto do ano. Os conflitos militares na Europa e na Faixa de Gaza não conheceram tréguas - com a Ucrânia a lançar uma operação militar em agosto dentro do território da Rússia, e consequente aumento dos riscos de uma escalada do conflito armado no Leste europeu. No Médio Oriente, a possível entrada do Irão no conflito entre Israel e o Hamas continuará a pairar como uma nuvem negra que pode fazer espoletar uma guerra em elevada escala naquela região. Por fim, temos na agenda umas cruciais eleições nos Estados Unidos, que podem moldar o formato das relações internacionais para o futuro - com os candidatos Kamala Harris e Donald Trump a representarem duas versões de uma América que tem vindo a ser cada vez mais polarizada politicamente.
É verdade que as economias, e os mercados financeiros tendem a ignorar os fatores geopolíticos. Mas nos últimos anos, as diversas transformações e conflitos regionais têm vindo a afetar cada vez mais as decisões económicas publicas e corporativas. Será natural que até ao final do ano, prevaleça o clima mais benigno das taxas de juro nas principais regiões, que na Europa já é uma realidade, e nos Estados Unidos será brevemente, conferindo algumas tréguas no conflito contra a inflação. Mas a escalada dos conflitos militares regionais, e polarização política norte americana têm influência para trazer mais turbulência e incerteza sobre o futuro do mundo. Estes são riscos que deverão ter de ser contornados durante o resto de 2024, e que podem representar um peso relativamente mais relevante no que diz respeito à formação de expectativas económicas para 2025.
Economista, presidente do International Affairs Network