Navigator atinge lucro de 161,9 milhões de euros na primeira metade do ano

Papeleira regista crescimento homólogo de 129% no EBITDA, para 345 milhões. Vendas acima dos 1,14 mil milhões. Companhia nota agravamento dos custos de produção, mas valorização do dólar nos preços acabou por ter "impacto positivo nos resultados".
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A Navigator fechou o primeiro semestre de 2022 com um resultado líquido de 161,9 milhões de euros, valor que compara com os cerca de 65 milhões registados entre janeiro e junho de 2021. A empresa nota que o negócio da pasta e do papel, neste semestre, foi penalizado pela guerra entre Ucrânia e Rússia, sentido um "agravamento generalizado dos custos da energia, da logística e das matérias prima", com a valorização do dólar (moeda de referência) a inflacionar os preços finais (sobretudo preços médios) - o que compensou o aumento dos custos e teve "impacto positivo nos resultados da companhia".

No final de junho, o EBITDA (indicador da rentabilidade do negócio) situava-se perto 345 milhões de euros (+129% em termos homólogos), com uma margem sobre as vendas de 30% (+9,1 pontos percentuais face a igual período de 2021). A empresa justifica o valor com o "esforço de melhoria de eficiência e consumos, e evolução muito favorável dos preços de venda estabelecidos nos mercados internacionais", de acordo com as contas veiculadas pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

O volume de negócios totalizou 1,142 mil milhões de euros, o que representa um crescimento homólogo de 59,8%. As vendas foram impulsionadas pela "pela evolução favorável de preços, um crescimento de 60% face ao período homólogo". As vendas de papel representaram cerca de 71% do volume de negócios, enquanto as vendas de pasta 10%. Já as vendas de tissue representaram 8% e as vendas de energia 11% A papeleira nota, ainda, que "94% das vendas de [papel do tipo] UWF foram efetuadas em mercado externo", sendo que as "vendas no mercado nacional aumentaram em cerca de 13% em resposta à escassez de papel que se fez sentir no país ao longo de todo o semestre".

O nível de investimento até junho não foi muito diferente do registado no mesmo período de 2021. Ainda assim, a Navigator investiu no semestre mais 1,5%, para 34,3 milhões de euros.

Acresce a nota de que o endividamento líquido da companhia sentiu uma redução homóloga de cerca de 137 milhões de euros, para 521 milhões, "melhorando o rácio de net debt/EBITDA de 2,22x para 0,95x". Este movimento foi influenciado pela "distribuição de 100 milhões euros de dividendos no início de junho".

Com os resultados semestrais a saírem beneficiados pelo encarecimento do preço do papel, fruto da valorização do dólar face ao euro, apesar dos custos de produção terem crescido também, a Navigator analisa o que aconteceu de janeiro a junho.

"O setor da pasta está a viver um momento único a nível global com os preços a atingir valores sem precedentes em todo o mundo. O desequilíbrio muito forte, ainda que temporário, entre procura e oferta no mercado da pasta continua a impulsionar o nível de preços", lê-se.

O hardwood - índice de referência de pasta de fibra curta na Europa (PIX BHKP em euros) - apresentava no final de junho um aumento de 25% em relação ao início do ano, para 1,260 euros por tonelada, "com uma variação de cerca de 47% nos preços médios do primeiro semestre 2022 versus primeiros semestre 2021". "O aumento do preço da pasta foi mais expressivo em euros do que em dólares, dada a apreciação vincada do dólar face ao euro ao longo do semestre", pelo que o índice de referência na China para a pasta hardwood "registou um aumento de 46% entre o princípio do ano e o final de junho, para 842 dólares por tonelada, valor historicamente elevado, em linha com os máximos registados em 2010".

Para este cenário contribuiu em muito a invasão da Ucrânia pela Rússia e "o consequente embargo das importações de madeira provindas deste país, que diminuiu drasticamente a disponibilidade de madeira de bétula no norte da Europa". A Navigator aponta que o embargo retire cerca de um milhão de toneladas à produção anual mundial deste tipo de pasta. Acresce, ainda, "a interrupção de abastecimento de químicos necessários ao fabrico de pasta", bem como a quebra de serviços logísticos, que "criaram constrangimentos operacionais à produção de pasta de mercado na Rússia, restringindo o fornecimento ao mercado chinês, o seu principal destino".

Resultado? Os níveis de stocks de pasta "encontram-se equilibrados ou baixos ao longo da cadeia de valor". Quer isto dizer, que os produtores de papel mundiais "mantêm stocks equilibrados e em linha com o histórico enquanto os compradores/utilizadores de pasta na Europa se debatem com níveis baixos de stocks, inferiores ao período homólogo".

Por outro lado, os constrangimentos logísticos penalizaram também a oferta disponível de pasta no mercado, tendo provocado aumentos relevantes no tempo de trânsito e numerosos atrasos nas entregas por falta de meios e congestionamentos dos portos.

Desta forma, a dinâmica do mercado de papel é "condicionada pela redução da capacidade" de produção na Europa e Estados Unidos e "pela redução da oferta disponível nos mercados do Médio Oriente e África".

No caso da Navigator, o ano arrancou com "um nível de stocks de pasta relativamente baixo, o que, a par com uma significativa maior integração em papel, restringiu a quantidade de pasta disponível para venda no período". Ao todo, as vendas de papel situaram-se em 150 mil toneladas, "o que reflete uma redução de 1,6% face ao período homólogo". Não obstante, "a subida de preços de pasta verificada nos últimos 12 meses permitiu compensar o decréscimo de volumes face ao período homólogo com o volume de negócios a refletir uma variação positiva de 45%".

Para a segunda metade de 2022, a Navigator refere que a guerra na Ucrânia e o contexto económico faz com que "permaneça no mercado uma complexidade muito acrescida das operações industriais e logísticas". A agravar o cenário estão, ainda, a pressão inflacionista e a rápida subida de taxas de juro, bem como "eventuais riscos de fornecimento de energia" ou problemas no abastecimento de matérias primas. Tudo isto deverá "pressionar as margens, particularmente dos produtores de papel não integrados, bem como a dificultar o normal funcionamento das operações industriais e de transporte europeias", o que pode provocar novas reduções na capacidade de produção na Europa.

"O nível de preços historicamente alto, aliado à sazonalidade de verão, poderá ainda ter um impacto negativo na procura de papel. Por outro lado, existe o risco de o atual nível de preços do papel na Europa, conjugado com uma eventual diminuição do custo logístico, tornar atrativa a importação de papel, nomeadamente proveniente de players asiáticos ou americanos, com consequente pressão nos preços de papel na Europa. Regista-se, no entanto, que a indústria europeia inicia o 2º semestre com uma carteira de encomendas em nível historicamente elevado e num contexto de relativa indisponibilidade de papel", lê-se.

A evolução de custos está, por isso, no centro das principais preocupações da Navigator, que diz que vai manter-se focada "na proteção das margens" no negócio do papel e de tissue. "Com a prudência necessária de modo a procurar repercutir os custos pelos canais de venda, sem comprometer a capacidade de aquisição por parte dos consumidores", assegura a companhia, sublinhando que este é "um balanceamento sensível, a que a Navigator está permanentemente atenta".

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