Sal marinho e microalgas em pó: são estes os dois principais produtos - se bem que, no último caso, há ainda as algas em pasta - que compõem a atividade da Necton, cujo volume de negócios ultrapassa já os 3 milhões de euros. "É pouco", diz João Navalho, fundador, acionista e presidente executivo da empresa, que classifica a Necton como uma operação pequena, com os seus cerca de 2500 metros de reatores tubulares de microalgas, extensa área de salinas e um laboratório próprio de I&D. "O nosso negócio está muito focado no valor, não no volume", garante. Com sede em Olhão, a Necton completa agora 25 anos, o que faz dela a mais antiga empresa de microalgas da Europa - "Fomos os primeiros", garante o seu fundador" - e na sua génese esteve a visão e genialidade de dois jovens recém-formados e o suporte de uma região com clima e os apoios certos (como o CRESC Algarve, por exemplo) para o desenvolvimento de projetos que aproveitassem os recursos locais.
"A ideia era produzir uma alga que criasse betacaroteno" - aquela cor de laranja que se vê tanto à beira das salinas e dá aquela bela cor salmão aos flamingos -, conta João Navalho para explicar os primeiros passos da Necton.
Em 1990, tanto o jovem biólogo marinho, da Universidade do Algarve, como o seu amigo Vítor Verdelho, físico da Universidade do Porto, não gostaram da oferta do mercado de trabalho. E o betacaroteno, "no fundo é um corante alimentar muito usado na indústria alimentar. A ideia era criar uma startup para o produzir, quando na altura havia quatro empresas a fazer isso, se tanto".
A Necton começa a ser gerada, em 1991, como um projeto de investigação, em laboratório. Seis anos depois, é "plantada" no terreno, em Olhão, quando mal se falava em economia azul ou do mar. Porquê Algarve?
A resposta é enganadoramente simples: o Algarve tem um ecossistema global propício à Necton, diz. "É tudo perto e há aqui um local nutritivo, do ponto de vista da ciência, com a Universidade, o IPMA, com o Centro de Investigação de Aquacultura e Piscicultura - aquilo que são os negócios que nós concetualizámos funcionam melhor no Algarve".
Depois há o clima: "Nós produzimos microalgas, a microalga é plâncton, quanto mais sol tiver, mais produtivo é o sistema, quanto mais amena a temperatura, mais constante é o sistema. Viemos à procura das condições naturais que maximizam aquilo que era a atividade que queríamos fazer", diz o biólogo marinho. E continua: "Aqui, na zona entre Vilamoura e Tavira, há um spot solar muito grande, que é das zonas da Europa que tem mais horas de sol por ano, e, para nós, o sol está diretamente relacionado com produtividade."
E há o apoio: "Estamos a falar de novas indústrias, com muita tecnologia; trata-se de microbiologia industrial, em que é preciso criar condições para os micro-organismos crescerem, onde tem de haver muito controlo, sensores, know-how, microscópios, etc.", descreve.
Ora, nenhum dos jovens empreendedores detinha "grande fortuna pessoal", foi preciso recorrer à banca e encontrar programas para o desenvolvimento da tecnologia. E aqui, mais uma vez, o Algarve representava (e representa) uma mais-valia. Fundos europeus e a nível nacional existem, mas "o Programa CRESC Algarve é dos mais interessantes, porque está aqui ao pé de nós e contribuiu desde a primeira instância", disse o biólogo.
Mas esses programas nunca pagam 100% dos custos e a dada altura a situação "tornou-se insustentável". "Porque até que se desenvolvesse a tecnologia e começasse a dar produto, demorava muito tempo, então começámos a olhar para a salina", contou João Navalho.
Era o final dos anos 1990, a salinicultura estava em declínio, no Algarve, com empresas a fechar , as salinas a serem abandonadas. Como cientistas que eram, os dois empreendedores fizeram uma abordagem diferente do negócio do sal. "Passámos do extremo de desenvolver tecnologia, para o outro de desenterrar tecnologia antiga", disse João Navalho. E em 1998, a Necton começa a produzir sal marinho partindo de uma axioma diferente.
"Nós postulámos: a vida começa no mar, está milhares de milhões de anos a evoluir lá, então a vida está habituada e precisa daquela sopa, daqueles minerais que existem na água do mar, então apresentámos um conceito que é o mar em pó - basicamente evaporamos a H2O toda, o que fica são coisas que a vida necessita e está habituada. E a isso nós vamos chamar sal marinho e é isso que vamos vender às pessoas."
A ideia caiu bem, o sal marinho tradicional e a flor de sal da Nector - marcas Belamandil e Marnoto -, primeiro na exportação e depois nos mercados gourmet e nacionais, foram bem aceites.
Hoje a Necton tem uma equipa de 60 pessoas multidisciplinar e multinacional, um departamento de Investigação e Desenvolvimento próprio e está envolvida em vários projetos, entre os quais o GreenCoLab, um laboratório colaborativo de algas onde trabalham com outros grandes produtores, empresas e investigadores das universidades. E planos futuros? "Crescer. Infelizmente, o senhor Putin estragou-nos um pouco a vida", lamenta João Navalho, com esperança de que o contexto internacional melhore rapidamente.
Algas: fast-food basta juntar àgua
- 99% do produto é para exportar, sobretudo para a Europa; - produzido em pasta, é destinado ao mercado de cosmética; fornece melhores marcas do mundo, França é maior cliente;
- em pó, tem ração muito especial para primeiros dias de vida dos animais, fornece no mundo inteiro aquaculturas, pisciculturas, grandes aquários e oceanários.
Sal: Slow-food para degustar
- produzido com método tradicional, 45% é para exportar, restante é para mercado
gourmet nacional.