O negócio da Farfetch deu lucro pela primeira vez. No último trimestre de 2020, a plataforma de moda de luxo liderada pelo português José Neves conseguiu resultados operacionais positivos. A empresa apresentou esta quinta-feira os resultados anuais, que também revelaram prejuízos recorde, de 3,3 mil milhões de dólares (2,7 mil milhões de euros) sobretudo por motivos contabilísticos.
No trimestre do Natal e da Black Friday, a Farfetch conseguiu que o negócio gerasse receitas superiores aos gastos de 10,376 milhões de dólares, o que compara com as perdas de 17,926 milhões de dólares registadas no último trimestre de 2019. O indicador operacional de referência, a margem de EBITDA, foi de 2,2% no quarto trimestre, o que compara com os 5,3% negativos do mesmo período de 2019.
"Ultrapassámos as nossas expectativas iniciais para este ano; acelerámos o crescimento na nossa plataforma digital, melhorámos as nossas margens operacionais em todas as áreas de negócio e conseguimos entregar fortes encaixes operacionais", destaca o responsável financeira da Farfetch, Elliot Jordan, citado no comunicado de apresentação de resultados.
A empresa já tinha indicado, em novembro, que poderia apresentar lucros operacionais no último trimestre de 2020.
Só no último trimestre, o valor bruto das mercadorias disponíveis na plataforma da Farfetch ultrapassou os mil milhões de dólares (1,056 mil milhões), o que correspondeu a um crescimento de 42,9% face a 2019. Em termos anuais, os produtos à venda na plataforma valeram mais de 3,1 mil milhões de dólares, um aumento de 47,6% face a todo o ano anterior.
A Farfetch terminou 2020 com receitas de 1,67 mil milhões de dólares. Com o crescimento de 63,7% face a 2019, a empresa superou ligeiramente as estimativas dos analistas, que antecipavam um encaixe de 1,65 mil milhões de dólares com as peças disponibilizadas na internet por mais de 3500 marcas.
A empresa registou os maiores prejuízos de sempre, no valor de 3,3 mil milhões de dólares, praticamente 10 vezes mais do que os 373,7 milhões de dólares de perdas de todo o ano de 2019. Mas os resultados negativos são sobretudo contabilísticos, segundo o responsável financeira da Farfetch.
"O prejuízo reflete o impacto não monetário das obrigações convertíveis (convertible notes). Em 2020, a Farfetch obteve um financiamento de 1,2 mil milhões de dólares a taxas de juros baixas ou inexistentes, através de obrigações convertíveis. Este financiamento permitiu-nos investir no negócio e executar a nossa visão para a plataforma. Como acontece com qualquer operação de financiamento, fizemos uma avaliação do retorno do investimento e acreditamos que o valor criado por esses investimentos para os acionistas excede em muito o custo para o negócio", justifica Elliot Jordan.
Estas obrigações tiveram um peso ainda maior nas contas da tecnológica por causa da forte subida das ações: no início do ano, valiam pouco mais de 11 dólares; terminaram o ano cotadas perto dos 64 dólares. A nível contabilístico, a subida dos títulos da Farfetch teve um impacto de 2,35 mil milhões de dólares, contribuindo fortemente para os prejuízos anuais.
"À medida que a avaliação de mercado da empresa aumenta, também aumenta o valor das obrigações e o custo a elas associado, ainda que numa fração reduzida comparativamente com a valorização no mercado. O contrário seria igualmente verdade - uma desvalorização do valor das ações representaria uma redução do valor das obrigações convertíveis", acrescenta o mesmo responsável.
Com a ajuda do financiamento privado, a empresa terminou 2020 com um total de 1,573 mil milhões de dólares de tesouraria, o que compara com os 322,4 milhões de dólares que estavam nos cofres da empresa no final de 2019.
No último trimestre do ano, a Farfetch ganhou 282 mil clientes face aos três meses anteriores. No total, já há mais de 3 milhões de pessoas que compraram produtos na plataforma. Ainda assim, este ganho de clientes foi inferior ao registado entre o primeiro e o segundo trimestre de 2020: no primeiro confinamento, houve perto de 500 mil pessoas que se juntaram à plataforma.
Em média, cada consumidor gastou 626 dólares por encomenda entre outubro e dezembro, menos 10 dólares do que no quarto trimestre de 2019. Isto deve-se a uma "maior percentagem de vendas com menos items por encomenda, o que foi parcialmente compensado por um maior preço por unidade".
A Farfetch pretende que o negócio dê lucro em todo o ano de 2021, com uma margem de EBITDA entre 1% e 2%, reafirmando o objetivo estabelecido em anos anteriores. O valor bruto dos bens à venda deverá variar entre 3,6 e os 3,7 mil milhões de dólares, correspondendo a um ganho de 30% a 35% face a 2020.
Estas perspetivas, no entanto, têm de ser analisadas com precaução. O coronavírus poderá provocar problemas nas operações e no envio de encomendas; reduzir o inventário de marcas e retalhistas, além de diminuir a confiança dos consumidores.
O brexit também pode ter impacto por causa do aumento de custos de envio de produtos de e para o Reino Unido.
(Notícia atualizada pela última vez às 22h25 com mais informação)