

A Open Cities, aceleradora e produtora cinematográfica como sede em Lisboa e escritório em Nova Iorque, já selecionou onze projetos de longas-metragens - de 120 qualificados -, para um programa virtual de três meses, que culminará numa semana de imersão em Lisboa. Os trabalhos iniciam-se em agosto e prolongam-se até novembro, estando marcado para o último dia um pitch day para as equipas apresentarem os resultados a investidores e profissionais da indústria. O diferencial desta startup é o apoio a filmes independentes que utilizem tecnologia emergente de forma consciente, nomeadamente Inteligência Artificial (IA).
Joana Vicente, que já liderou o Sundance Institute e foi diretora executiva e co-diretora do Festival Internacional de Cinema de Toronto, é o rosto da Open Cities. Co-fundadora desta startup luso-americana - em conjunto com o produtor Jason Kliot, o CEO The Evrose Group, Tony Gonçalves, e o empresário português, Filipe de Botton -, e também diretora executiva, Joana Vicente está “muito entusiasmada” com a qualidade dos projetos selecionados, com proveniências tão díspares como Costa do Marfim, Macedónia, Noruega, Portugal e EUA.
Estes onze projetos terão apoio no aperfeiçoamento do guião, mentoria individual e integração de novas ferramentas de produção e tecnologias emergentes, juntamente com uma prototipagem rápida. Deste grupo, as melhores longas-metragens serão selecionadas para financiamento e produção. Os outros participantes ficarão com um programa desenvolvido, um plano de produção e materiais para darem vida aos seus filmes.
O grande desafio será transpor as ideias para o grande ecrã utilizando as novas ferramentas tecnológicas. Como realça Joana Vicente, “todos se sentem inexperientes neste campo”, mas o objetivo “não é criar filmes artificiais, é aproveitar o que as empresas tecnológicas estão a desenvolver e criar filmes de forma legal e ética”. Há “linhas verdes, amarelas e vermelhas”, sublinha.
Para Joana Vicente, “é bastante importante que não sejam os estúdios a determinar o que se pode ou não fazer com a IA”. Pensar que se pode "ficar à espera é perder o comboio", frisa. Na sua opinião, “esta é uma oportunidade para os independentes usarem todas as ferramentas tecnológicas dentro e fora da caixa, mas para as empresas de tecnologia é também muito importante trabalhar com os artistas”.
A filosofia da empresa assenta na premissa que a tecnologia deve expandir o leque de possibilidades dos cineastas, e não substituir, e que a inovação responsável pode desbloquear uma nova sustentabilidade criativa e económica para o cinema independente. A meta é produzir filmes com menos recursos, mas com mais oportunidades comerciais a nível global, explica a produtora.
Na opinião de Joana Vicente, a startup abre portas ao potencial criativo de cineastas independentes, permitindo-lhes ingressar num ecossistema composto por produtores, empresas de tecnologia e investidores.
A ligação da Open Cities a Portugal é visível no nome dos fundadores, mas a aposta em instalar a sede em Lisboa teve em conta também outros fatores: talentos criativos e tecnológicos, boa localização na Europa, ambiente inspirador e custos reduzidos. Já o escritório em Nova Iorque explica-se pelo fato de Joana Vicente ter residência nesta cidade, e ser também o outro lado da ponte atlântica, onde se reúne forte conhecimento da sétima arte e indústria cinematográfica global.
Para já, a Open Cities arrancou com um investimento inicial de 1,1 milhões de euros, suportado em financiamento bancário e outros patrocínios e apoios que Joana Vicente não quis especificar. Para além da equipa fundadora, a startup tem o apoio de investidores do Brasil, Portugal e EUA. Segundo afirma, o modelo de financiamento das longas-metragens está ainda a ser desenvolvido. "A segunda fase será angariar um fundo para investir nos filmes selecionados".
Refira-se que a Open Cities não assume a propriedade ou o controle criativo dos projetos. Em troca de mentoria, apoio estratégico e recursos de produção, os participantes concedem à startup uma contribuição de 2% da taxa de produção do orçamento total e uma participação diferida de 2,5% nos lucros líquidos, caso o filme seja produzido.
A Open Cities atraiu também um grupo de consultores internacionais que inclui David Linde, CEO do Sundance Institute, Katherine Oliver, diretora da Bloomberg Philanthropies, Mark D’Arcy, diretor criativo global da Microsoft AI, Joonas Makkonen, fundador e diretor de tecnologia da Dobbin, Pedro Santa Clara, fundador da Tumo e da Escola 42 Lisbon, Jon Kamen, fundador e CEO da RadicalMedia, Jed Alpert, fundador e CEO da Mobile Commons e Abhishek Sharma, programador e engenheiro de produtos de IA.