“Nem estúpidos nem idiotas”

Importante manter uma cultura de inovação e de experimentação e acima de tudo refletir sobre o legado que queremos deixar.
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No fantástico livro The Road Less Stupid, Keith J. Cunningham diz-nos que a arte da gestão está muito na capacidade de identificarmos as perguntas chave que ainda não foram feitas, e que mais podem contribuir para criar clareza e identificar as melhores escolhas. Devemos começar por uma pergunta e não por uma afirmação, que é a tentação de muitos nós.

Só depois de identificar a pergunta certa devemos agir. Mas é importante primeiro separar o problema dos sintomas, ou seja, identificar o verdadeiro obstáculo que está a bloquear o nosso progresso. A maioria de nós foca-se apenas no sintoma. Antes de agir é também importante validar os nossos pressupostos, diferenciando os factos da estória. A maioria de nós tem demasiadas crenças.

Depois é importante olhar para as consequências da ação. Perceber os impactos positivos e negativos e se conseguimos viver com isso. É muito importante identificar os riscos potenciais, a sua probabilidade e os custos de falhanço para todas as nossas decisões. Apesar de errar ser inevitável, é importante evitar decisões estúpidas críticas.

Para uma execução consistente é preciso um plano de ação, de definir e monitorizar processos, definir melhores práticas, saber definir e acompanhar as métricas mais relevantes, criar dashboards e ser accountable, saber valorizar o sucesso e acompanhar as pessoas no processo.

A arte do empreendedorismo e da gestão está na capacidade de gerir riscos calculados, de agir com rapidez e inteligência ao longo da vida das empresas, focando nas prioridades certas e reduzindo o impacto das más decisões.

A estratégia tem muito a ver com o equilíbrio entre planeamento e experimentação. Por um lado, precisamos de manter uma cultura de experimentação, pois a inovação é um processo evolutivo, é o resultado do efeito cumulativo de várias pequenas iniciativas e duma cultura de permissão e de contágio em cadeia.

Por outro lado, o planeamento estratégico é determinante para nos dar norte e para clarificar o caminho e as prioridades e facilitar a coordenação das várias peças, facilitar a comunicação e alinhar expectativas e interesses.

O vale da morte, para além de ser o momento em que somos capazes de encontrar um modelo escalável para o nosso negócio, é também o momento em que se passa de empreendedor para empresário. Essa passagem tem muito a ver com capacidade de incorporar boas práticas de gestão e de governança e de manter uma cultura viva e flexível. Pois a cultura e a falta de alinhamento matam de facto a estratégia.

A estrela que nos norteia a todos tem muito a ver com o legado que queremos deixar. Todos os dias tomamos decisões sobre o futuro pensando no passado que iremos deixar. Diz-se que morremos duas vezes, uma com o nosso corpo e outra quando o nosso legado deixa de ecoar. O tempo é a moeda da vida, por isso é importante pensarmos onde nos queremos focar.

Daniel Innerarity começa o seu livro “A política em tempos de indignação” relembrando os gregos, que diziam: “idiota era quem não participava nos assuntos públicos e preferia dedicar-se unicamente aos seus interesses privados”, instigando a que a política seja um assunto de todos.

Neste período de rentrée, de planeamentos estratégicos e de planos de recuperação e resiliência, é importante refletirmos sobre as perguntas certas, sobre os verdadeiros desafios, sobre os riscos e as suas consequências, validar os nossos pressupostos e montar uma máquina de execução robusta.

Importante manter uma cultura de inovação e de experimentação e acima de tudo refletir sobre o legado que queremos deixar, como pessoas, organizações, como estados e como humanidade. Não sejamos estúpidos nem idiotas.

Co-Fundador e CEO – Beta-i

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