Nem papas nem bolos para enganar os tolos

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No país que é um exemplo pela sua política de despenalização de drogas, em breve vai tornar-se mais fácil e menos escandaloso comprar um charro do que um maço de tabaco. Quiçá até uma dose de coca, desde que para comprovado consumo próprio.

É uma emergência nacional, prioridade absoluta para o futuro do país. O que é mais importante, afinal? Desenhar uma estratégia para pôr Portugal a crescer ou acabar com o vil vício dos fumadores, ainda que fumar seja legal e a fragilidade da nossa economia nos condene à miséria permanente? Endereçar o caos na saúde e resolver os problemas na educação que estão a boicotar o futuro dos nossos filhos, ou pôr fim ao hábito? Acelerar os fundos europeus para pôr os projetos a andar e escapar ao risco de incumprimento do programa ou apagar todas as beatas de uma vez?

O governo sabe bem quais são as suas prioridades. E por isso dedicou-se nesta semana a endereçá-las. Sem desenvolvimentos relevantes no TAPgate, sem novidades do Galambagate, sem que se quebrasse com estrondo o bloco de gelo que se instalou entre Belém e São Bento, havia que dar novidades ao povo. E o Benfica ainda não é campeão, por isso, toca a mostrar serviço.

Como a eutanásia passou fácil à oitava e ainda vai demorar a estabelecer a mudança no registo civil - outro tema de absoluta relevância nacional - que se quer impor para acabar com essa discricionariedade de não permitir a quem muda de género escolher um nome em que não se perceba muito bem qual é o seu género, havia que encontrar novos caminhos. Venha o tabaco apagar o fogo da vontade, que há muito que não se proibia nada neste país.

Proíba-se, então - oh, solução milagrosa desta esquerda desgovernada! -, a venda em todos os sítios menos nas tabacarias, proscreva-se os fumadores, lance-se ao desemprego milhares de trabalhadores, acabe-se já com a indústria, o comércio, o investimento, a investigação científica e toda a vil economia que se move à volta dos dependentes do tabaco, de que a sociedade assética se quer livrar. Não importa que fumar não seja crime. Se tratarmos todos os fumadores como criminosos, é só uma questão de tempo, e a perceção pública até os condena à partida. É como descobrir uma nova galambada e questionamos como é que este governo ainda toma decisões.

Mas o tabaco é pouco. Porque não aproveitar a boleia e impor desde já restrições ao consumo do álcool? Quer beber uma cerveja, tomar um copo de vinho? É bom que o faça em casa e às escondidas dos vizinhos, ou em breve terá à porta a brigada dos bons costumes a levá-lo para um retiro de desintoxicação mandatória. E já agora, alargue-se a proibição aos demais alimentos perniciosos que engordam as listas de AVC: confisque-se o sal e encerre-se as salinas do país. Apreenda-se todo o açúcar e adoçantes com que este povo insiste em entupir as veias. Feche-se nos cofres do Estado as gorduras trans e as outras também e encerre-se em prisões os pasteleiros e os cozinheiros que nos tentam com bolos e iguarias.

É assim que se quer a sociedade moderna: indistinta, sem vícios, pura e limpa. Sem ler livros que contem a história que foi, em vez da que devia ter sido, sem fazer humor capaz de ofender alguém, sem usar estereótipos que perpetuem os danos psicológicos de quem neles se vê retratado.

E venham enfim os Al Capones, que estaremos prontos para pagar o que pedirem pelos produtos banidos que conseguirem vender-nos debaixo do pano. E bem precisaremos deles, para manter a sanidade num país cada vez mais miserável, que nos tenta convencer do bem que vivemos sob a batuta deste governo bem ciente do que é prioritário para o desenvolvimento. Agora sem papas nem bolos, assumindo mesmo que somos todos tolos.

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