Carrie-Anne Moss pensava que ia passar a vida a servir às mesas enquanto saltava de série televisiva medíocre em filme televisivo de categoria B. Até que lhe apareceu a oportunidade de entrar numa história louca de ficção científica no final dos anos noventa e esse filme – The Matrix – teve um sucesso estrondoso.
Agora, a “Trinity” da trilogia dos Wachowskis interpreta Jeryn Hogarth na série Jessica Jones, que a Marvel Television produz para a Netflix.
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Carrie-Anne Moss Foto: REUTERS/Mario Anzuoni[/caption]
Há quatro anos que o serviço de televisão por streaming investe em conteúdos originais, mas este é o primeiro em que tem uma audiência verdadeiramente global. São 190 países desde 6 de janeiro e 70 milhões de assinantes, segundo anunciou o diretor de conteúdos Ted Sarandos no dia Netflix da press tour de inverno da Television Critics Association (TCA), em Pasadena. O investimento em conteúdos será de 5,5 mil milhões de euros em 2016, com grande parte a ser dirigido para esta produção original. E é por isso que o Netflix se tornou a rede televisiva onde estrelas como Carrie-Anne Moss querem estar.
“É uma altura muito excitante para estar na televisão, em particular numa série Netflix”, disse a atriz em entrevista, no dia TCA. “É um modelo de negócio brilhante. O timing é perfeito.” À partida, não é surpreendente que uma atriz da casa elogie o canal onde está, mas o Dinheiro Vivo repetiu a questão a várias outras estrelas e a resposta foi sempre no mesmo sentido: chegou a hora da televisão, numa altura em que o cinema está numa estranha fase de sequelas, remakes e grandes produções onde Matt Damon se perde.
“Estar no Netflix é como estar sentado na mesa dos miúdos fixes da escola”, responde Krystin Ritter, que interpreta o papel de Jessica Jones na série homónima da Marvel. “O Netflix é muito atrativo para os criadores porque eles deixam de ter de se preocupar com anunciantes e recebem muita liberdade criativa.”
Não foi o Netflix que “inventou” este modelo, reconhece Sam Waterston, que faz o papel de Sol em Grace and Frankie (também um original da cadeia). “O Netflix inspirou-se no modelo da HBO, mas tem agora uma identidade única e está a fazer coisas inimagináveis.” Porquê? Não tem publicidade, por isso os criadores não dependem de audiências para sobreviver, e as temporadas são lançadas inteiras no mesmo dia, o que faz que cada série tenha sucesso durante largos meses, porque há sempre alguém que a está a ver nalguma parte do mundo.
Jane Fonda, a megaestrela de 78 anos, diz que esta é “a primeira vez” que tem um emprego estável. E explica porque é que o Netflix funciona de forma diferente: “uma das grandes vantagens é que eles podem fazer programação de nicho. Grace and Frankie era dirigido a uma faixa etária que não estava representada, a das pessoas mais velhas”, diz ao Dinheiro Vivo. “A série até teve um sucesso mais abrangente do que o esperado, mas isto é algo que os outros canais não podem fazer.”
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Jane Fonda Foto: REUTERS/Mario Anzuoni[/caption]
O Netflix não é o único operador de televisão a fazer isto – a Amazon tem tido resultados brilhantes com os seus conteúdos originais (por exemplo, Transparent), e já apresentou mais sete novas séries para 2016 (incluindo uma com Sacha Baron Cohen.) O Hulu está no mesmo patamar, estando a preparar-se para o lançamento de um drama com James Franco, 11.22.63. A diferença é que o Netflix é o que tem mais assinantes – o Hulu tinha cerca de 10 milhões no verão passado e o Amazon Prime 40 milhões na mesma altura. Mais importante ainda: o Netflix é o único com alcance global, embora tal seja algo muito recente.
No entanto, a concorrência entre estes três gigantes do streaming significa melhores conteúdos para os espectadores e mais motivos para irem buscar grandes nomes a Hollywood, desde escritores e produtores a atores.
TV já não é parente pobre
“Durante toda a história do entretenimento, os escritores e atores de televisão sempre tiveram um complexo de inferioridade em relação aos escritores e atores de cinema”, estabelece Mike Schur, produtor executivo da série Master of None, protagonizada por Aziz Ansari. “Havia este sentimento de que a televisão era o parente pobre da indústria do cinema, mas agora é na TV que está a melhor e mais interessante arte feita para o ecrã.” Schur, um dos criadores de Parks & Recreation e produtor de The Office, diz que esta “revolução” se deve, em parte, ao Netflix. Começou com séries como Os Sopranos, continuou com Mad Men e Breaking Bad e está agora em velocidade de cruzeiro.
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Aziz Ansari e o elenco de "Master of None" Foto: REUTERS/Mario Anzuoni[/caption]
Judd Apatow, um dos produtores de cinema de comédia com maior sucesso da última década (Trainwreck, O Virgem de 40 Anos, A Melhor Despedida de Solteira) tem agora duas produções no Netflix: a série Love, que estreia a 19 de fevereiro, e o filme Pee-wee’s Big Holiday, que chega a 18 de março. “Gosto de não ter de pensar na bilheteira, na corrida de cavalos que existe no cinema”, explica. “Poder retirar isso e pensar ‘ok, isto vai ficar disponível para que milhões e milhões de pessoas possam ver em casa’ é muito excitante.”
Schur complementa: “há para aí umas 25 pessoas no mundo que são grandes estrelas de cinema. As restantes, se tiverem a oportunidade, querem estar num programa da Netflix.” Ou de outro destes canais que estão a dar lugar a histórias alternativas, diz Alan Yang, que cocriou Master of None. “Acredito que, antigamente, toda a gente na televisão estava desesperada para entrar no cinema”, remata Schur. “Agora, de forma sossegada e secreta, está a acontecer o oposto.”
Netflix em Portugal
Uma das críticas que têm sido feitas ao serviço, que chegou a Portugal em outubro de 2015, é que o catálogo é mais pequeno e menos interessante do que o de outros países, como a vizinha Espanha, mas com o mesmo preço.
A Netflix garantiu ao Dinheiro Vivo que “não haverá redução de preços” mas que o catálogo está a ser reforçado: “Todas as semanas, a Netflix está a lançar no serviço em Portugal novos títulos, pelo que a oferta no país aumenta a cada mês.” Certo é que as próximas estreias de produções originais chegarão a Portugal desde a primeira hora, defende o serviço de televisão por streaming.