Apesar da frequência com que ao longo da vida observei excessos de impreparação e fragilidades de competência na condução de temas estrategicamente relevantes, continuo a chocar-me bastante com o desempenho de alguns responsáveis por políticas públicas, e acima de tudo, com a mantença dessas responsabilidades em face da inegável ausência de rigor e competência na respetiva gestão.
A catástrofe que a pandemia sistémica arrasta trouxe-nos demasiados exemplos disso, dos quais destaco: uma ministra que afirmou que a Covid-19 poderia ser benéfico para a agricultura portuguesa; uma diretora geral de saúde que afirmou que o vírus não se transmitia entre seres humanos, e um porta-voz do conselho de saúde publica que desvalorizou a gravidade do vírus. Todas estas afirmações foram proferidas, num tempo onde havia informação disponível e acessível a todos sobre as consequências da violência com que este vírus se contaminava. Não posso deixar de reforçar que considero gravíssimo o facto de todos eles se manterem em funções. Não entendo como em face de uma situação tão grave e de consequências tão graves para a vida humana, podem estas pessoas continuar a desempenhar funções tão relevantes no combate que travamos. É bem demonstrativo da falta de rigor e profissionalismo que prolifera em determinada comunidade de cargos de confiança e nomeação política. É o descredibilizar de funções que deveriam assegurar níveis de confiança e competência a que não assistimos. É mais um nível de insegurança e incerteza a adicionar a toda esta situação.
Fico muito surpreendido quando esta comunidade, verdadeiramente preocupada em falar para as televisões, nem aí o exemplo de distanciamento social consegue dar. Mal vai o estado que não tem os melhores a tomar decisões. É a pandemia da incompetência que prolifera neste sistema político que infetou a maioria dos países onde, por norma, os decisores políticos são carreiristas dos partidos e que na sua generalidade passaram a vida a falar em discussões vazias de conteúdo relevante para a vida dos cidadãos. Está bem à vista a incapacidade de gestão da maioria dos governos em situação de caos; está bem à vista a ausência de estadistas que de um modo firme e informado tomem decisões. Usando uma expressão francófona: ils disent n’importe quoi.
Em Portugal, toda esta situação é bem demonstrativa da fragilidade de recursos alocados ao sistema nacional de saúde e a maior prova disso é a elevadíssima taxa de infetados entre os profissionais de saúde – os verdadeiros heróis desta situação. Não posso aqui deixar de enaltecer o papel que alguns autarcas têm tido no reforço de recursos e meios ao sistema de saúde e desse modo substituindo-se ao poder central de modo a garantirem melhores índices de saúde e sobrevivência.
Do poder central não assistimos a nenhuma ideia clara sobre matérias tão importantes para a continuidade do funcionamento da sociedade. É difícil de entender que nesta situação se interrompam as atividades letivas. Seria adequado nesta fase termos todos os estudantes do país com acesso assegurado a meios de comunicação à distância de modo a que todos passem por esta quarentena da forma mais entretida, ocupada e produtiva possível. Férias seriam para mais tarde quando todos pudessem desfrutar da vida ao ar livre. Raciocínio básico.
O mesmo se aplica ao sistema de justiça e tribunais. Os sistemas de comunicação e teleconferência e videoconferência deveriam estar já a funcionar no que aos tribunais diz respeito, garantindo dessa forma que não se agravam os já excessivamente alargados prazos na justiça. É pena que se pense de menos e se fale demais. Os nossos decisores são essencialmente peritos no debate falado. Aí são verdadeiros experts e até conseguem evidenciar o seu discurso na picardia além-fronteira. Em resultados e indicadores de políticas públicas são, contudo, mais frágeis. Como afirma o povo: “em cima do joelho a correr atrás do prejuízo”.
A ameaça que por cima de todos nós paira, constitui uma oportunidade para revermos todo um conjunto de processos e modelos produtivos de forma a aprendermos com as dificuldades e sairmos reforçados. É essa a característica dos conquistadores; é essa a característica que nos fez evoluir enquanto espécie. Para que isso aconteça, necessitamos de melhores e mais capazes a tomar decisões, a liderar, a dar o exemplo.
Eduardo Baptista Correia é CEO do Taguspark e professor da Escola de Gestão do ISCTE