O secretário-geral da Academia, Goran Hansson, na cerimónia de anúncio do prémio, em Estocolmo, não teve dúvidas em considerar que o método de engenharia genética agora premiado permite "reescrever o código da vida" e promete vantagens ilimitadas para o futuro da humanidade.
A francesa Emmanuelle Charpentier, da unidade de Ciência Patogénica do Instituto Max Planck, na Alemanha, participou na cerimónia em direto por telefone e respondeu a algumas perguntas dos jornalistas. Uma das mais peculiares envolveu o tema de religião, já que a edição do genoma tem sido alvo de críticas por grupos religiosos. Tanto cristãos como muçulmanos têm manifestado dúvidas sobre se esse trabalho pode ser interpretado como o ser humano a agir como um deus - semelhante ao que se vê com a clonagem ou as células estaminais.
Questionada sobre se era uma pessoa religiosa e como via a religião associada à sua descoberta, Charpentier admitiu que teve uma educação cristã e católica, mas que isso faz parte do passado.
"A minha religião agora é a ciência e estou focada no desenvolvimento de soluções científicas úteis para a sociedade e humanidade como é o caso do mecanismo simples que criámos. Acredito no que a ciência nos mostra de melhor na natureza", explicou, admitindo que o espírito de parceria entre instituições diferentes em países distintos trouxe vantagens importantes à investigação.
A outra vencedora do prémio foi a norte-americana Jennifer Doudna, do Instituto de Medicina Howard Hughes, da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Em conjunto, as duas investigadores criaram a ferramenta química CRISPR-Cas9, que permite fazer cortes em partes seletas das sequências de DNA.
São "as mais pequenas peças que compõem a vida", indicou Pernilla Wittung Stafshede, membro da Academia Sueca, referindo que a "tesoura genética" que as duas laureadas criaram em 2012 "já beneficiou grandemente a Humanidade". "Veio revolucionar as ciências da vida. Podemos facilmente editar os genomas como desejado", referiu.
Todos os seres vivos têm triliões de células nas quais existem cadeias de DNA, o material genético. Esse material, que existe em todas as células, é composto de milhões de bases que levam as células a produzir as proteínas responsáveis pelos processos biológicos nos seres vivos.
O que o método CRISPR Cas9 permite é cortar as sequências em determinadas zonas, o que permite corrigir sequências, alterando a sua influência, o que já tem sido usado "na criação de plantas ou no tratamento de doenças dos humanos".
Pernilla Stafshede salientou que é uma ferramenta que necessita de "grande cuidado" na utilização, mas declarou que tem grande potencial e "talvez permita, um dia, realizar o sonho de curar as doenças genéticas".
A edição do genoma humano tem levantado várias dúvidas, inclusive no seu uso com bebés, para evitar malformações ou problemas nos embriões, algo que foi já alvo de estudos nos EUA - 72% dos americanos consideram ser apropriado se for usado para resolver problemas graves de saúde.
O tema também tem sido referido como problemático num eventual uso inapropriado, sendo 'colado' a possíveis guerras biológicas ou bioquímicas do futuro.
Emmanuelle Charpentier recordou que sempre ambicionou que um dia se chegasse a uma ferramenta geral de edição do genoma e admitiu ter ficado emocionada com a confirmação de que tinha ganho o Nobel, mesmo que já lhe tivessem dito que os estudos sobre o CRISPR Cas9 tinham esse potencial.
Já sobre o facto do Nobel ser atribuído a duas mulheres ter algum significado especial, afirmou pensar em si "principalmente como cientista", embora admita que "talvez passe uma mensagem às raparigas que gostariam de seguir o caminho da ciência que uma mulher também pode ter impacto na investigação e ganhar prémios". A investigadora admite mesmo que "a falta de interesse na ciência é uma coisa preocupante".
* Com Lusa